A história é quase de cinema: em 1986, um grupo de seis reclusos encabeçado pelo homicida condenado José Faustino Cavaco, protagonizou uma fuga violenta do Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz, em Grândola. Morreram, no processo, três guardas prisionais e um dos fugitivos que, quando cercado por forças policiais, se suicidou. Todos os outros reclusos foram apanhados e voltaram a ser encarcerados, mas não sem antes abrirem telejornais e serem capa de jornal - DN incluído.A prisão, em Grândola, tornou-se conhecida de todos os portugueses, e Pinheiro da Cruz passou a significar José Faustino Cavaco e perigo. Atualmente, porém, a história a contar é outra.Inserido numa propriedade agrícola com cerca de 1600 hectares, o estabelecimento prisional cuidou das suas vinhas durante anos, e chegou mesmo a produzir vinhos premiados. No entanto, era preciso revitalizá-las depois de algum período de descaso, o que aconteceu em 2022. “A nossa vinha estava muito estragada e, na altura, os técnicos da Sogrape ajudaram-nos a recuperá-las”, conta ao Diário de Notícias Paula Martins. A diretora do Estabelecimento Prisional conversou com o jornal num dia quente de Alentejo, com os termómetros a baterem os 37 graus - “é só um dia normal”, diz-nos divertida -, em que se estavam a rotular as garrafas do mais recente vinho produzido em Pinheiro da Cruz. Mas já lá chegamos.O trabalho de recuperação das vinhas permitiu a guardas e reclusos terem uma experiência que os animou. E daí à Sogrape propor uma parceria para o desenvolvimento de um projeto foi preciso muito pouco. Há já vários anos que os enólogos da Sogrape, empresa que produz Mateus Rosé ou Barca Velha, são desafiados pela família Guedes a produzir os chamados Série Ímpar - vinhos que exploram novos territórios onde a empresa não tem presença, e que se destacam no mercado por serem projetos com uma dose de rebeldia. .Luís Cabral de Almeida, enólogo responsável pelos vinhos que saem agora de Pinheiro da Cruz, achou que o Alentejo a 2km do mar era palco perfeito para mais uma referência desta gama. Paula Martins aprovou e, não fora a burocracia do Estado - a ideia tem mais de três anos, mas foi preciso contornar uma série de obstáculos para poder ser implementada -, já haveria Série Ímpar de Pinheiro da Cruz há mais tempo.Das vinhas do Estabelecimento Prisional saem as uvas, dos reclusos que o habitam sai o trabalho apoiado pelos técnicos da Sogrape, e da Sogrape vem o material e o conhecimento. O vinho, esse, está disponível apenas através dos canais diretos da Sogrape ou então nos restaurantes JNCQUOI, com os quais fizeram uma parceria - também porque a marca tem presença na Comporta, a poucos quilómetros de Pinheiro da Cruz.“Acreditamos que este vinho é escolhido se as pessoas souberem a história que está por detrás dele”, conta Fernando Gudes, CEO da Sogrape, ao DN. “Para isso, preferimos tê-lo em poucos sítios, mas a ser apresentado por quem pode explicar exatamente o que está por trás do projeto.O responsável da Sogrape, a maior emprese vitivinícola do país, esteve em Grândola para assistir a parte dos trabalhos. Na adega do Estabelecimento Prisional estavam, nesse dia, as quatro pessoas alocadas ao projeto - que se dedicavam a rotular e a embalar algumas das 1922 garrafas deste Série Ímpar Pinheiro da Cruz. .Apesar de não o poderem provar - regras de quem ainda cumpre pena, mesmo que já em fase final -, estão entusiasmados com a recetividade do mercado. Luís Fernandes (na fotografia acima), a poucos meses de sair de Pinheiro da Cruz, tem ele próprio uma pequena produção de vinho no Algarve, de onde é natural. “Fui convidado para vir para a adega e vim aprender muito sobre processos e qualidade com a Sogrape”, conta ao DN durante uma pausa dos trabalhos. “Participei na produção, engarrafamento e rotulagem, e o que mais me impressionou foram as questões de controlo de qualidade e rigor com que as coisas são feitas”, admite. “Dá-nos perspetiva”, conta este licenciado em Economia que, no Algarve, produz vinhos exclusivamente da casta Negra Mole e apenas para consumo próprio. Confessa, por isso, que não deverá implementar os processos que aprendeu em Pinheiro da Cruz, porque faz uma produção de baixa intervenção, mas está curioso para perceber como os consumidores vão avaliar este Rosé intenso, nascido em solos arenosos e produzido através de uma casta pouco habitual nos vinhos da Sogrape, Castelão (50%), à qual se juntam Aragonez (35%) e Syrah (15%).Trabalhar para incluirPara Paula Martins, este projeto tem várias valências: além da importância económica - as receitas são repartidas com o Estabelecimento Prisional e com os integrantes do projeto -, há um valor social muito relevante, que “se prende com a capacitação destas pessoas, ao darmos-lhes a possibilidade de, um dia em liberdade, terem uma atividade que os preenche e que os faz não reincidir”.A inclusão, após um período de cumprimento de uma pena em regime fechado, “é um processo muito diversificado e é um processo que exige uma intervenção muito grande”, continua a responsável da prisão. “E essa intervenção cabe-nos a nós. Arranjar áreas, formas de trabalho e de conhecimento para que eles fiquem com conhecimentos e competências, com ferramentas que lhes deem oportunidade de, lá fora, reconstruírem as suas vidas”.Este projeto, com a Sogrape, “foi mais uma oportunidade na aprendizagem, porque o trabalho na vinha - e nós temos uma pessoa na vinha que é meu adjunto - permite transmitir conhecimentos, mas a experiência da empresa permite” acrescentar experiências e mais-valia.“Um recluso só pode ir para regime aberto quando já tem uma parte da pena cumprida e, quando os requisitos exigíveis o permitem, nomeadamente o comportamento: a envolvência deles no trabalho é autorizada por um conselho técnico. Ou seja, para projetos como este, estamos a falar de reclusos que têm algumas capacidades, que não têm problemas de saúde e que estão dispostos a trabalhar. Até porque só vão lá para fora, para as vinhas, se quiserem trabalhar. Porque o nosso objetivo é perceber, com este tipo de projetos, se eles já estão capacitados para abraçar o mundo lá fora”, resume ainda Paula Martins.“Há vários anos que sonhava fazer um vinho em Pinheiro da Cruz. A singularidade do lugar, a sua beleza natural e o enquadramento social tornam-no único”, continua, por seu lado, Fernando Guedes. “Hoje temos um vinho que reflete essa ambição - aliando responsabilidade social, valorização do território e um resultado final de elevada qualidade”.“Escolhemos a parcela de vinha, o dia da vindima e todos trabalharam com muito entusiasmo”, continua Luís Cabral de Almeida. “Usámos prensa manual e maceração pelicular, e os reclusos fizeram parte de todo o processo. Depois fermentámos em inox - e tirámos 225 litros para terminar a fermentação numa barrica de carvalho usado. Fermentámos 20 litros com engaço, dentro do garrafão, para extrair taninos naturais e colocámos 1% disso no vinho geral, e temos este resultado de um vinho com mais cor, mais aromas e com 12% de álcool.” Uma referência que, esperam os responsáveis do projeto, será uma boa companhia para os dias de verão, não apenas pela qualidade, mas pela história que quer contar..“Pagámos esta uva a um preço 10 vezes superior ao do mercado, porque estamos também comprometidos com o projeto social que isto representa”, adianta ainda Luis Cabral de Almeida.“Há uma coisa muito importante para nós, que é conseguir colocar o recluso em situações muito idênticas àquelas que vai encontrar na sociedade, lá fora”, adianta ainda Paula Martins. “Precisamente para, quando for lá para fora, não voltar a cometer crimes. Por isso é que o trabalho dentro do estabelecimento é essencial. Não podemos ter os cursos parados, as atividades, porque é através destas valências e conhecimentos, e envolvimento, que eles conseguem ir beber a alguma fonte e preparar a sua saída. E quem é que ganha com isso? O recluso, mas, obviamente, também a sociedade. Acho que, às vezes, há uma perceção errada do trabalho que é feito dentro das prisões. As pessoas, às vezes, olham para este tipo de projetos como se fossem benesses que os reclusos têm. Mas eu acho que é obrigatório haver uma aproximação à vida em liberdade. Têm televisão? Sim, quando saírem também vão ter. Têm telemóvel? Não, as regras não permitem. Mas têm trabalho, escola, podem estudar, têm cursos. Portanto, quando forem lá para fora, o que é que se pretende? Que tenham uma oportunidade para melhorar”, conclui.Para já, e de olhos postos nesses dias de liberdade, os reclusos que participaram no projeto Série Ímpar de Pinheiro da Cruz vão chegando à mesa de quem o prova, na certeza de que, em breve, poderão experimentar o fruto do seu trabalho do último ano.