Pingo Doce paga à Marinha para formar padeiros

Funcionários do grupo Jerónimo Martins recebem formação em ambiente naval. Marinha dá a conhecer as suas boas práticas e aprende novas técnicas com padeiros da empresa

Quando se candidatou para passar das caixas do Pingo Doce para a padaria, Lizandra Martins, de 26 anos, estava longe de imaginar que era na Marinha Portuguesa que ia ter formação para aprender a fazer o "pão perfeito". Nunca pensou dormir em camaratas, acordar às sete da manhã ao som de sirenes ou ter que recolher às 21.00. Mas foi assim durante um mês e meio. "O certo é que rapidamente interiorizámos as rotinas, as regras, as formas de estar. Foi uma experiência maravilhosa".

Lizandra viveu na Base Naval do Alfeite entre outubro e novembro do ano passado, juntamente com outros 11 funcionários do grupo Jerónimo Martins, que frequentaram a primeira edição do curso de panificação. Ao todo, passaram pela Escola de Tecnologias Navais 225 empregados do grupo ao longo do ano: 170 tiveram formação em take away e restaurante, 43 na área da cozinha. Uma parceria entre a Marinha e a Jerónimo Martins, que suporta os custos inerentes à formação. A 1 de março começa o segundo curso de panificação.

Na Base, a rotina dos formandos é semelhante à dos militares. As aulas, que começam às 08.30 e acabam às 16.20, são dadas por formadores da empresa e por sargentos da Marinha, num espaço que é uma réplica das fábricas das padarias Pingo Doce. "Os procedimentos, as formas de trabalhar e as técnicas são Jerónimo Martins", ressalva Paula Gonçalves, chefe do Departamento de Administração e Logística da Escola de Tecnologias Navais.

Rui Santos, coordenador da área de padaria e pastelaria Pingo Doce, diz que "o facto de as pessoas estarem numa instituição externa faz com que consigam obter mais conhecimento, porque estão mais focadas". Segundo o mesmo, "os primeiros resultados foram excelentes". Não sabe se esse sucesso se deve ao facto de estarem numa base militar. "Mas o certo é que a formação é mais positiva do que aquela que é feita internamente". O "espírito de camaradagem excecional" que ali se cria é um dos segredos para fazer um bom pão.

Militares aprendem técnicas

Esta é uma parceria que resulta da abertura da Marinha à sociedade civil e ao tecido empresarial português. Todos ganham. Se por um lado os funcionários do grupo têm uma formação metódica e padronizada, marcada pelo rigor e pela disciplina, por outro, os militares também adquirem conhecimentos novos, que podem usar em futuras formações em terra ou mesmo no mar, quando têm de fazer o pão para consumir diariamente. "A Marinha ganha sempre. Aproveita a troca de experiências, adquire novos conhecimentos, percebe como se trabalha nas outras empresas", destaca Paula Gonçalves.

Ao DN, fonte da Marinha explicou que o grupo Jerónimo Martins suporta os custos inerentes à utilização do espaço, alojamento, refeições e horas de formação. A lógica não é fazer das parcerias um negócio, mas que haja uma troca de experiências entre a sociedade civil e os militares.

36 dias em formação

Depois de seis semanas a fazer diferentes massas, enrolar e levar o pão ao forno, os formandos passam a última semana numa formação de espírito de equipa dada pela Marinha e pelos Fuzileiros. "Queremos pessoas que saibam trabalhar em equipa e liderar uma equipa numa loja", explica Rui Santos.

Para o grupo que recebeu formação em panificação ao longo de 36 dias, o mais difícil de ultrapassar foi o afastamento das famílias. Mas todos se apoiavam. "No último dia, houve muita emoção. Todos choraram, porque se iam afastar. Criaram aquilo a que chamamos uma família naval. Sentiram aquilo que os militares sentem, ao apoiarem-se uns nos outros".

Lizandra Martins já tinha feito uma formação em loja antes de ir para a Marinha. "Era mais geral, para aprendermos como funcionam as padarias Pingo Doce. Desta vez fomos só aprender a fazer o pão. Era esse o foco. Tínhamos tempo até para ver se o pão precisava de um pouco mais ou menos água", diz ao DN. Já estava à espera de uma "formação mais profunda", mas confessa que entrou com "muita curiosidade e aquele nervoso miudinho". "Não sabíamos o que nos esperava", recorda.

Embora não participassem nas formaturas, os padeiros do Pingo Doce podiam assistir de perto às cerimónias. "Foi muito interessante, uma experiência única". No que diz respeito às práticas e ao cumprimento de regras, Lizandra refere que, ao final de uma semana, já notava diferença em relação aos funcionários do grupo que chegavam pela primeira vez à base. "Ao almoço, por exemplo, já nos sentávamos sem boinas e esperávamos que todos se sentassem para depois começarmos a comer". Paula Gonçalves destaca a "preocupação que os formandos mais velhos tinham para enquadrar os mais novos, algo que também acontece na Marinha. Nós fazemos isso. Passamos a quem chega a informação, as regras e o que acontece em caso de incumprimento".

Quando estava pronto, o pão era enviado para o refeitório da Base. "Elogios não faltavam", revela Lizandra, funcionária do Pingo Doce de Esmoriz há quatro anos. Rui Santos diz que o objetivo é que, no futuro, a formação seja dada apenas pela Marinha.

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