Pescadores da Figueira da Foz exigem que as dragagens e utilização de explosivos no leito de rocha do Mondego parem imediatamente, por impossibilitarem a entrada no rio da lampreia e sável, cuja época de pesca começa sábado.As operações de dragagem, quebra e desmonte de rocha com recurso a explosivos, atualmente a decorrer no rio Mondego, numa zona em frente à cidade da Figueira da Foz, no litoral do distrito de Coimbra, inserem-se na obra de aprofundamento da barra, canal de acesso e bacia de manobras do porto local.A intervenção estará alegadamente a violar uma medida de mitigação constante da respetiva Declaração de Impacte Ambiental (DIA), consultada pela agência Lusa, que obriga a que as ações sejam planeadas e realizadas “de forma a evitar o período crítico de migração e reprodução/desova das espécies piscícolas”, que ocorre de dezembro a abril.“Nós não queremos explicações, queremos soluções. E a solução é parar imediatamente com as dragagens e o rebentamento de explosivos”, disse à agência Lusa Armandina Ferreira, representante de cerca de uma centena de pescadores da pesca local da Figueira da Foz, cujas 50 embarcações, a partir de sábado, iniciam a pesca da lampreia e do sável no rio Mondego.A mesma fonte indicou ainda que os pescadores querem uma reunião urgente com a administração portuária – que entrou em funções no dia 01 – para que a dona da obra em curso na foz do Mondego, um investimento de quase 22 milhões de euros, encontre uma “solução rápida”.Já Alexandre Carvalho, também representante de pescadores e armadores da chamada pequena pesca local, evidenciou o “sentimento de revolta” que grassa na comunidade piscatória.“Já deviam ter parado com as dragagens e não pararam, continuam a rebentar [a rocha] dia e noite. A situação está caótica, querem matar a pesca local”, observou.“Não vai haver lampreia ou sável porque assim não vão entrar no rio ou, se entrarem, ainda morrem com as explosões”, avisou.A DIA teve parecer favorável, condicionado ao cumprimento de 42 medidas de mitigação dos impactes do projeto - 30 das quais na fase de execução em curso, em zona de Reserva Ecológica Nacional – e está anexa ao respetivo Título Único Ambiental, emitido a 23/12/2020 pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA).Uma das medidas diz diretamente respeito à migração de peixes diádromos (lampreia, sável ou enguia, entre outros), que se deslocam, no seu ciclo de vida, entre ambientes de água salgada e de água doce.A declaração ambiental admite que as intervenções no estuário do Mondego “constituem um impacte com maior significado”, pelo facto de ali se concentrarem as espécies piscícolas migradoras.No entanto, a DIA justifica que a situação “foi acautelada” (…) “por se considerar que as mesmas decorrerão fora do período de migração, ou seja, num período de exclusão de trabalhos entre dezembro e abril”.Este período de exclusão de trabalhos não só não está a ser cumprido, como o período para estes serem realizados, entre maio e novembro, levou a um parecer positivo da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Centro.Esta entidade constatou, em sede de DIA, que, ao ser realizada entre maio e novembro, a obra “não afeta a migração e consequente desenvolvimento das espécies piscícolas em causa, bem como a sua captura”.Acresce que um aviso local à navegação, promulgado em agosto de 2025 pela Capitania do Porto da Figueira da Foz, alude a “uma operação de quebramento de rocha em profundidade no rio Mondego, com recurso a explosivos” e suportado por uma plataforma flutuante, em vigor até 28 de fevereiro.Outra autorização do género, também emitida em agosto e em vigor até 31 de março, versa sobre o “quebramento de rocha submersa no anteporto da barra do rio Mondego, junto aos molhos interiores”.Ouvida pela Lusa, fonte oficial do Porto de Aveiro (cuja administração é a mesma do porto da Figueira da Foz) disse que “no âmbito da obra em curso, estão a ser realmente executadas dragagens e alguns trabalhos associados e sim, são de evitar, mas, relativamente aos rebentamentos, todas as normas ambientais e de segurança estão a ser cumpridas”.“As explosões são de baixa potência, que é o que está previsto, até estamos a fazer com valores inferiores àqueles que são previstos e todas estas questões estão devidamente regulamentadas articuladas com a Capitania do Porto, comunidade portuária e forças de segurança e temos também a fiscalização interna e externa que nos garantem que está tudo dentro daquilo que é previsto”, argumentou.A Lusa tentou ainda ouvir a Agência Portuguesa do Ambiente, mas os contactos resultaram infrutíferos.