Patente das barricas dos ovos moles de Aveiro. Do OLX para empresários do Porto

Artesãos que detinham o direito de propriedade industrial passam o testemunho do fabrico das peças de madeira e das pinturas à mão aos novos funcionários da empresa. Sócios querem perpetuar a tradição secular

Há 60 anos que Abílio Ferreira, de 72, transforma pedaços de madeira de choupo em barricas para ovos moles de Aveiro. É torneador desde os tempos de miúdo, mas sabe fazer de tudo. Até pintar, embora essa arte tenha ficado quase sempre entregue ao primo Joaquim, agora com 75 anos. Até há bem pouco tempo, os septuagenários detinham os direitos de fabricação das famosas barricas, mas deixaram de produzir. Confrontados com as limitações próprias da idade, colocaram o negócio à venda no OLX por cem mil euros. Apareceram vários interessados, alguns de Aveiro, mas foi uma empresa do Porto que comprou a Ferreira Lopes & Ferreira, Lda.

Filipe Magalhães e José Pedro Panzina, sócios da Vi.Me (do grupo Clever Advertising) - empresa que comprou os direitos de propriedade industrial das barricas -, souberam da oportunidade de negócio através de um jornal. "Ligámos e viemos conhecer a arte que preservaram", contam ao DN, no armazém situado na Rua dos Ervideiros, arredores de Aveiro, onde a oficina se encontra desde 2004, altura em que saiu do centro da cidade. Recordam com entusiasmo o primeiro dia em que entraram no armazém. "Ficámos encantados. O som das máquinas faz lembrar uma orquestra. Foi um momento especial", lembra José Pedro.

É com esse som de fundo que a equipa de reportagem do DN é recebida. Não há tempo para paragens. O negócio sofreu um interregno de alguns meses, pelo que é preciso recuperar. Estamos perante máquinas de madeira, algumas com mais de cem anos. "Isto é um museu vivo", frisa Filipe Magalhães, explicando que parte do negócio consiste em passar a arte a artesãos mais novos. Carlos aprende a tornear, Eugénia ficará encarregada do ateliê da pintura. Para tratar da parte comercial foi contratado Pedro Campos. Os três são aveirenses e estavam desempregados.

A madeira de choupo "não transfere sabor nem cheiro" aos ovos moles que nela se escondem e é uma das formas reconhecidas de conservação do doce, que é um ex libris da região. Abílio demora cerca de três minutos a tornear três barricas do tamanho mais pequeno - existem nove no total. Posteriormente, estas são cortadas, furadas e polidas. Só depois passam para a fase da pintura.

"O desenho mais cobiçado é o dos moliceiros, mas também há o farol, as salinas, as casas dos pescadores", revela Filipe. Se estiver bem-disposto e os pincéis ajudarem, Joaquim pinta 120 barricas (do tamanho mais pequeno) em quatro horas. Herdou de um tio o gosto pela arte. De pincel na mão e avental carregado de tinta, recorda a história destas vasilhas: "O registo das patentes deve ter uns cem anos e foi feito por Anselmo Lopes, um senhor que fez muito por Aveiro. Foi um irmão dele que colocou em prática o fabrico." A primeira oficina ficava junto ao Convento das Carmelitas e aí permaneceu dezenas de anos.

Já depois de o negócio mudar de donos, os pais dos dois primos fizeram um modelo diferente de barricas, que também registaram. "Uma espécie de concorrência." E acabaram depois por comprar as patentes das barricas que ainda hoje são comercializadas. "Estamos ambos reformados. Temos de dar o braço a torcer. Não temos a mesma agilidade e capacidade física para estar à frente do negócio." Se continuassem, graceja, a oficina "tornava-se um museu da idade da pedra". Foi por isso que decidiram vender.

A primeira fase do novo negócio arrancou no dia 1 de março e passa "pelo regresso à produção e passagem de um testemunho que estava em quatro mãos". José Pedro diz que a próxima é "regressar às vendas de uma forma saudável". E, por fim, dar "uma nova vida à imagem, à marca". Mas preservando tudo aquilo que a caracteriza. Uma das pretensões, adianta, é regressar a centro da cidade de Aveiro. "A beleza deste processo artesanal merece entrar num pacote turístico." Já no que toca às máquinas, podem sofrer reajustes, por questões de segurança, mas "de forma a não se perder a beleza desta arte secular".

Os clientes da oficina são, atualmente, os 44 sócios da Associação de Produtores de Ovos Moles de Aveiro (APOMA). Na cidade, montra que se preze tem barricas expostas. Embora o grosso das vendas de ovos moles seja nas hóstias, há muitos turistas que preferem as barricas.

Associação queria comprar

A APOMA fez uma proposta aos primos Ferreira para comprar o direito de propriedade intelectual das barricas, mas não chegaram a acordo. "O que é importante é que vão continuar a ser o nosso ex libris, uma imagem de marca da cidade", diz ao DN José Francisco, presidente da associação.

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