Padre Feytor Pinto. Passou 40 dias no hospital, mas venceu a covid aos 88 anos

O padre Feytor Pinto morreu esta quarta-feira. Recorde aqui um trabalho publicado no dia 15 de dezembro de 2020 onde contou ao DN como recuperou da covid-19 depois de 40 dias internado.

A voz ao telefone continua a mesma. "Diga-me", ouve-se do outro lado, como se nada se tivesse passado desde a última conversa que tivemos sobre a Lei de Bases da Saúde e o destino do Serviço Nacional de Saúde (SNS), há dois anos e meio.

Na altura, e por ter mais de 40 anos de trabalho ligado à saúde, como presidente da Pastoral da Saúde, integrou um grupo de personalidades que defendiam uma nova lei para o SNS, criado há mais de 50 anos, e por haver necessidade de o moldar à realidade atual.

Ele, monsenhor Vítor Feytor Pinto, ou apenas padre Feytor Pinto, defendia o que sempre defendeu, um serviço público "mais humanizado", "um serviço que coloque a pessoa no centro". E, nesta segunda-feira, quando lhe ligámos para saber como venceu a covid-19, a doença que "invadiu o mundo", volta a falar do mesmo: "Não posso deixar de lhe dizer uma coisa, quero felicitar a ministra Marta Temido, não a conheço, mas felicito-a pelo trabalho intenso que está a ser feito no SNS e a que assisti no Hospital de Santa Maria." E conta: "Comecei por estar no piso 2, passei para o piso 5, para os cuidados intensivos, onde fui espetacularmente tratado, com uma técnica fantástica, por médicos, enfermeiros, auxiliares, todos, e ao mesmo tempo com uma enorme humanização, que é aquilo que na saúde é fundamental."

"Experimentei a luta que está a ser feita para recuperar toda a gente com covid-19 e tenho de felicitar o trabalho dos profissionais do SNS."

Entrou no hospital no dia 23 de outubro, conta que teve todos os sintomas, "alguma febre, tosse também, mas não tinha forças". "Senti que estava a quebrar e a ficar muito apanhado. Foi quando fui para o hospital", diz. Acabou por ficar internado, "primeiro, no piso 2, onde estive uns três dias, depois tiveram de me levar para o piso 5, para os cuidados intensivos, onde estive uns bons dias, talvez mais de dez, até que voltei à enfermeira, no piso 8", volta a repetir. "Experimentei a luta que está a ser feita para recuperar toda a gente com covid-19 e tenho de felicitar o trabalho dos profissionais do SNS."

Sabe de cor todos os passos que foi dando durante os mais de 40 dias no Hospital de Santa Maria, por coincidência aquele onde começou o seu trabalho de sacerdote ligado à saúde e à espiritualidade dos doentes e dos profissionais. Um trabalho que o levou a ser um batalhador pelo SNS e pela humanização na saúde. E neste ano de 2020, experienciou essa faceta, o que o faz defender: "O SNS é fundamental. É a nossa salvação em termos técnicos, tive os melhores cuidados e de forma muito humanizada. É o serviço de todos os portugueses, não há exceções."

Confessa que foi surpreendido pelo "vírus que nos invadiu e sem razão de ser". Não sabe qual foi a cadeia de transmissão que o infetou, apenas sabe que um colega da casa de padres onde vive, no Campo Grande, em Lisboa, esteve infetado e foi parar ao hospital "mais cedo do que eu".

Agora, a recuperar em casa há uma semana, confessa o que sentiu com a doença. "Senti que somos todos iguais, que não há exceções. A doença veio mostrar que todos temos a possibilidade de ter uma invasão destas na nossa vida, a invasão de um vírus que para mim não tem razão de ser, mas que existe."

A conversa continua, e a sua voz não dá sinais de cansaço. Mantém o mesmo timbre, perguntamos se prefere descansar ou falar mais tarde, mas responde peremptório: "Pode ser agora, deixe-me só colocar melhor o telefone para não me cansar tanto." No novo mundo, sabe que é assim, as conversas são mais seguras ao telefone. Depois da doença, o resguardo é ainda maior, mas tem "fé e confiança de que vamos conseguir resolver esta situação".

"Estou convencido de que foi a minha alegria de viver que me fez lutar contra a doença, que me fez lutar pela vida e ultrapassar todas as dificuldades."

A covid-19 foi mais uma luta, que não o faz desistir e de dizer: "Tenho 88 anos e uma vida longa à minha frente. Quero viver, quero lutar para se conseguir ultrapassar esta crise." Vítor Feytor Pinto, que em 2014 recebeu um louvor do Ministério da Saúde, pelos mais de 40 anos dedicados ao trabalho nesta área, diz que recebeu os melhores os cuidados que o SNS tem para dar, de forma humanizada, mas diz também acreditar que cada pessoa tem a sua quota-parte nesta luta. "Estou convencido de que foi a minha alegria de viver que me fez lutar contra a doença, que me fez lutar pela vida e ultrapassar todas as dificuldades."

Mais uma vez vem ao de cima a sua faceta otimista, a faceta que diz ser a que melhor o caracteriza e que sempre revelou no trabalho sacerdotal e no da saúde: "Sabe que sou um otimista e sei que é possível vencer esta doença. Temos todos de acreditar que somos capazes", diz firmemente.

Quando saiu da unidade hospitalar, na semana passada, olhou para o mundo: "É um mundo diferente, completamente." O seu dia-a-dia é agora feito da sua rotina habitual, mas teve de incluir a fisioterapia, para obrigar o corpo a mexer-se para contrariar o tempo em que esteve imobilizado. Quer voltar "ao trabalho sacerdotal, onde há muito a fazer", "a apoiar os outros, dizendo-lhes que é possível vencer".

E deixa uma mensagem: "É preciso que todos que têm a doença acreditem que são capazes de a vencer. Nada é maior do que a nossa vontade, nada é maior do que a nossa afirmação pela vida, nada. É preciso ter coragem e capacidade de vencer as dificuldades, porque estas serão vencidas."

Trabalho inicialmente publicado no dia 15 de dezembro de 2020 e nesta quarta-feira republicado.

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