Fevereiro de 1974: não me é difícil explanar como vivia e encarava aqueles dias, para mim não foi muito difícil situar a data, porque no dia catorze de Fevereiro iria fazer trinta e dois anos de idade e porque a vida quotidiana, minha e da minha família, estava organizada em função do plano para o futuro, que havia sido cuidadosamente delineado por mim e pela minha querida mulher Ana Inês. Para que o plano resultasse e fosse concretizado na sua plenitude, necessitava de máxima colaboração da minha esposa e dos meus filhos, Magno, de quatro anos de idade, e de Elizabeth, de apenas três..Por mais incrível que possa parecer, para o realizar tive a total colaboração dos três membros do agregado familiar, o que só pode ser considerado inacreditável para quem não tenha participado e vivido aqueles anos, como nós vivemos, cujo dia-a-dia era preenchido com duro trabalho, mas com persistência e convicção absoluta de quem sabe que os sonhos, contrariamente às fantasias, só se realizam quando acreditamos neles e pomos o necessário e indispensável esforço para o transformar em realidade..Durante o trajecto da sua realização foi nosso lema não passar a vida a queixarmo-nos dos obstáculos que iríamos encontrar, mas desfrutar a existência com alegria..Estava em Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique e toda a minha vida e da minha família tinha lugar em função do nosso plano..Lembro-me perfeitamente como encarava aqueles dias, porque não os podia esquecer, pois nos inícios de Fevereiro de 1974 fazia, exactamente, o mesmo que fizera nos anos de 1972 e 1973, isto é, estudava, estudava, estudava ou, se quiserem, marrava como então se dizia na gíria estudantil..Para explicitar melhor o plano, necessito de fazer uma breve síntese da história da minha vida..Nasci em Pangim, Goa, a 14 de Fevereiro de 1942, e parti para Lisboa em 1962. Prestei serviço militar em Portugal e Angola, tendo sido desmobilizado, a meu pedido, em Moçambique..Foi em Lourenço Marques que decidi dar novo rumo à minha vida, dedicando-me seriamente ao prosseguimento dos estudos, como trabalhador-estudante..Nos princípios de Fevereiro de 1974, trabalhava no Banco Nacional Ultramarino e estava no terceiro e último ano do curso de História da Universidade de Lourenço Marques. .Para que o nosso sonho fosse concretizado, tal como fizera nos anos anteriores, tinha que dispensar das provas orais em todas as disciplinas e concluir o Bacharelato antes da data marcada para o embarque, já com os bilhetes comprados..Durante aqueles três difíceis anos, só com a preciosa ajuda da minha mulher, então funcionária pública, que tratava esmeradamente dos filhos, explicando-lhes que tinham de dormir cedo antes do pai chegar a casa, para ele ter tempo para estudar à noite, é que nós realizámos o nosso sonho..Em Moçambique falava-se da guerrilha, da deterioração da situação política e na possibilidade de um golpe de Estado, mas eu só pensava em regressar definitivamente para Portugal.” Depoimento recolhido por Alexandra Tavares-Teles