Onde eu estava... por Rui Fontes

Onde eu estava... por Rui Fontes

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De janeiro de 1974 recordo de imediato os jogos de xadrez num salão situado por cima do Café Lisbonense, em Matosinhos, onde funcionava a secção de xadrez do Leixões, criada uns meses antes por um grupo de alunos do então chamado Liceu Nacional de Matosinhos (atualmente Escola Secundária Augusto Gomes), onde eu me incluía. Dando credibilidade a este grupo, onde o mais velho teria 17 anos, estava também o senhor Calheiros que era o chefe da Secretaria.

Eu tinha saído do Seminário há pouco tempo. Com 16 anos, andava no 6.º ano (atual 10.º) e tinha dificuldade em encontrar amigos e em ter autorização do meu pai para sair à noite. Ser “atleta” do Leixões (era assim que o clube, sem procurar um termo mais adequado, chamava aos jogadores de xadrez) foi aceite pelo meu pai, o que me dava uma liberdade a que não estava habituado e um enorme prazer. Depois de cinco anos em regime de internato no Seminário, o mundo exterior era simultaneamente atraente e intimidante. A minha experiência durante as curtas férias em casa dos meus pais mostrava que eu não sabia relacionar-me com os outros “jovens”. No bairro de Matosinhos onde morava, chamavam-me “o padre”. Um dia recusei olhar para umas cartas com mulheres nuas e o insulto de “paneleiro” somou-se ao de “padre”. Era complicado mesmo.

Eu tinha saído do Seminário porque na sequência da leitura do “Por que não sou Cristão” do Bertand Russell tinha descoberto que estava a tornar-me ateu. Foi uma descoberta dolorosa. Sentia que estava a trair os meus pais, Deus, que se calhar existia, e toda a minha vida passada. Era curta, mas era toda a minha vida. Estava a cortar com tudo o que conhecia e o futuro era intimidante. Para os meus pais foi um choque eu querer sair do Seminário. Acabaram por aceitar.

Só depois do 25 de Abril ganhei coragem para deixar de ir à missa e de frequentar as aulas de Religião e Moral.

No início de 1974, o Liceu Nacional de Matosinhos e o xadrez do Leixões eram os dois espaços onde tentava integrar-me. Prioridade em relação a continuar a ser um estudante exemplar.

O conflito com as minhas dúvidas cada vez mais elaboradas acerca da existência de Deus só rivalizavam com o incómodo de poder ser convocado para a guerra “do Ultramar”.

Entretanto, descobrira que havia um núcleo de rapazes, uns quatro ou cinco anos mais velhos que eu, que paravam no Café Internacional, no mesmo edifício do Mercado de Matosinhos. Nesse núcleo falava-se de política, mas também de temas algo exotéricos, como o significado dos sonhos. Eu queria ser aceite nesse núcleo; seguramente, pensava, podia criar contactos que em tempo oportuno me ajudariam a fugir da tropa e a exilar-me em França. No entanto, para além de se ter tornado claro que, talvez por ser demasiado novo, não iria ser aceite pelos outros, havia que arranjar 12 tostões[1] para pagar um café, despesa praticamente obrigatória para poder lá permanecer.

O meu pai, único sustento da família, ganhava 2800 escudos por mês, como resultado de dois empregos: motorista num laboratório de análises clínicas e, à noite, guarda do ginásio do Liceu de Matosinhos, onde diversos clubes de Matosinhos e de Leça da Palmeira treinavam e jogavam basquetebol, voleibol e andebol.

[1] 12 tostões são 1 escudo e vinte centavos; em euros, 0,6 cêntimos.

Texto recolhido por Alexandra Tavares-Teles

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