Criado no seio de uma família paterna profundamente republicana, a minha educação não poderia seguir outro caminho que não fosse o do apego aos valores da liberdade, o da recusa da ditadura de Salazar, primeiro, e o do antifascismo militante, mais tarde. A primeira levou-me à participação, ainda com 15 anos, na campanha do General Humberto Delgado. O antifascismo e a consciência da necessidade de uma luta mais consequente surgem com a Crise Académica de 1962 onde verdadeiramente fiz o meu tirocínio político. Esta militância levou-me à prisão e a julgamento em 1965, juntamente com mais 30 colegas das diversas faculdades, entre eles a que viria a ser minha mulher. As atribulações do nosso processo levaram a que abandonássemos as lides partidárias (PCP), mas não o combate, mantendo-nos sempre solidários com os que lutavam, “compagnons de route” comprometidos..A vida em Janeiro de 1974 não passava de uma rotina pardacenta, a polícia em todas as esquinas, a vigilância permanente, o medo. Não se podia conversar em público, só se podia falar, porque quem conversa com a troca de ideias, torna-se um perigo para o regime. O ideário salazarista permanecia e as suas imagens ainda forjavam um falso país e um falso povo português. A censura e o obscurantismo acabaram por gerar uma certa ânsia de cultura. Os livros proibidos são trazidos, escondidos, da cave da livraria do Manuel Brito. A política faz-se em rodas de amigos, em encontros fortuitos, em convívios mais ou menos vigiados..De entre os nossos amigos e companheiros, fomos dos primeiros a casar e a nossa casa transformou-se numa espécie de ponto de encontro. Discutíamos tudo, da política ao cinema, trocávamos opiniões, ouvíamos música, convivíamos e cantávamos Lopes Graça - “Oh! liberdade, como é bom, é bom” -, Zeca Afonso - Os Vampiros -, e Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa. E chegam-nos do exílio José Mário Branco - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades - e Sérgio Godinho - Os Sobreviventes. Era o sinal de que o regime estava a fraquejar..Há 50 anos, tínhamos conseguido ter uma vida sem problemas, já tínhamos um carro, a filha perto dos 7 anos, já na escola, outra a caminho. Mas, a nossa casa continuava a mesma, os amigos continuavam a aparecer. Cada vez mais se discutia a questão do derrube do regime e da guerra colonial, questão que nos levava a diferenças de opinião, fruto das teorias maoístas que tinham começado a fazer-se sentir. As discussões tornaram-se mais acaloradas, mas havia o consenso de que só com o derrube da ditadura isso seria possível. Derrube que nos parecia iminente, face a notícias que nos iam chegando das desavenças entre facções do poder, os ultras chefiados por Américo Tomás e Kaúlza de Arriaga, e os marcelistas, mais moderados. E, ainda, porque nos chegavam notícias de descontentamento entre os militares. Havia mesmo um dos nossos amigos que não perdia um noticiário da manhã porque, dizia ele, um dia destes vamos acordar com uma surpresa, só não sei se é para melhor ou para pior. E a surpresa acabou por suceder e para muito melhor..A nossa luta não fora em vão, fazíamos parte dos vencedores. Depoimento recolhido por Alexandra Tavares-Teles