Em fevereiro de 1974 estava colocado no Instituto Hidrográfico, à Rua das Trinas, no Bairro de Santos, em Lisboa. Fazia o Ano Preparatório do curso de engenheiro hidrógrafo, que vim a tirar numa Grande École de Engenharia de França. Estudava os manuais escolares recebidos regularmente de Paris, que eram complementados por aulas avulsas dadas pelos recém-doutorados Vassalo Pereira e Beirão da Veiga, de Física e Matemática respetivamente, que cumpriam ambos o serviço militar como subtenentes da Reserva Naval. Intuía o elevado nível científico que aquelas matérias tinham alcançado na Faculdade de Ciências de Lisboa, a sua casa. Lembrança e reconhecimento que perduram, que cumpre registar..Depois das horas de serviço corria com frequência para o Clube Militar Naval, no palacete que fazia esquina da Rua Braamcamp com a praça Marquês de Pombal, antecipando a integração, no mês seguinte, na direção presidida pelo comandante Pinheiro de Azevedo, como secretário. Rigorosamente, todos os dias sorvia a crónica de Mário Castrim no Diário de Lisboa durante a viagem de comboio de regresso a Carcavelos, onde vivia em casa alugada com a mulher e dois filhos (nasceria um terceiro, já como un petit portugais libre). Antes, pela Baixa, a caminho do Cais do Sodré, talvez tivesse ouvido de vez em quando algum ardina mais atrevido pregoar: República, (Diário) Popular, Capital, (Diário) Lisboa..O ponto de encontro com outros militares era o Piquenique, café vizinho do Nicola, no Rossio. Ali tomava o café da praxe, acompanhado de um (cigarro) Português Suave..As leituras devem ter andado por A Selva ou por A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, Os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes. À cabeceira sem estarem à vista, O Pensamento de Karl Marx, de Jean Yves Calvez, Introdução a Uma Estética Marxista, de Lukács, e a Teoria Materialista da História, de Konstantinov, os dois últimos vindos do Brasil num N.R.P. - Navio da República Portuguesa. Como que em pano de fundo, tocavam as canções de Zeca e de Adriano gravadas numa bobine de fita magnética que corria num gravador japonês comprado e desalfandegado na Casa Serradas, no Mindelo, Cabo Verde, numa escala por lá. Modernices..Tinha um Volkswagen carocha de uma das primeiras séries, senão da primeira, com vidro grande atrás. Nele fazia-se três ou quatro viagens por ano a visitar a família de Arcos de Valdevez. Rebocava então um atrelado composto por um caixotão quadrangular de madeira feito em casa, assente num rodado oferecido por uma oficina amiga e numa haste comprida q.b. a ele soldada por encomenda numa serralharia mecânica de Tires. Carregava-se com mantimentos da terra no regresso. Às vezes dava-se passeios ao domingo..Foi por esse mês de fevereiro de 1974 que tiveram lugar os primeiros contactos clandestinos com camaradas do Exército, pelas bandas de Oeiras, onde habitavam vários. Quando chegámos já tinham decidido atirar abaixo o Governo o mais depressa possível. Ficava tranquilo com a determinação e o profissionalismo do projeto e doido com a variedade de expectativas futuras. O fim da guerra parecia certo, o resto sempre incerto. Das duas comissões no Ultramar que já tinha cumprido, uma em águas de Moçambique, outra em águas de Angola, não restavam quaisquer dúvidas que se tratava de uma Guerra Colonial e sumamente injusta..Depoimento recolhido por Alexandra Tavares-Teles