Obras no Eixo Central. Comerciantes preferem ver para crer

Lisboa. As opiniões dividem-se entre o comércio. Nem todos concordam que remodelação no Saldanha irá atrair turistas e lisboetas

À porta da pastelaria Coringa, logo ao início da avenida Fontes Pereira de Melo, José Manuel Madeira aponta para a retroescavadora que se instalou quarta-feira a menos de cem metros dali, mesmo à saída do Marquês de Pombal. A esta distância já se vê bem o pó que levanta. Quando se aproximar, não se anteveem dias promissores para a esplanada da Coringa. "Não é muito agradável", admite o funcionário da pastelaria. Dois passos acima, na farmácia que tomou o nome da avenida, a mesma queixa repetiu-se ao longo do dia. "Já há pessoas a reclamar do barulho e do pó. E hoje temos tido muitas pessoas a pedir coisas para as alergias", diz ao DN a responsável da farmácia, Catarina Morgado.

Se os transtornos das obras que vão mudar a face do Eixo Central de Lisboa, e que na Fontes Pereira de Melo se vão prolongar pelos próximos três meses, já são uma certeza para os comerciantes desta artéria da capital, o resultado final divide opiniões. O presidente da câmara, Fernando Medina, pediu paciência para o período das obras e prometeu que vai valer a pena, mas avenida acima há muito quem não esteja convencido. Maiores dificuldades de circulação e menos lugares de estacionamento (na praça Duque de Saldanha) não são consideradas boas notícias por boa parte dos comerciantes, que dizem quase a uma voz que esta zona da cidade tem cada vez menos gente. "Fechamos às duas da manhã e, às vezes, no Inverno, isto é um deserto. E aos domingos e feriados também", diz Luís Nunes, gerente da cervejaria Maracanã. A razão não é difícil de identificar. Esta é sobretudo uma zona de escritórios, que funciona ao ritmo do horário laboral. Fora disso "não há nada para puxar as pessoas para aqui", diz Luís Nunes, que depois de ter visto a maquete do futuro Eixo Central, deposita esperança nestas obras: "Pareceu-me que ia ficar uma praça jeitosa, vamos ver."

"E os carros, para onde é que vão?"

A futura praça, jeitosa ou não, há-de ter a mesma ocupante no cruzamento entre a Praça do Duque de Saldanha e a Avenida Praia da Vitória. A vender castanhas no Inverno e gelados no Verão, a dona Olinda está aqui há tantos anos que ainda conheceu o antigo teatro Monumental: "Fartei-me de chorar quando o mandaram abaixo." Não põe muita fé nas obras que ainda agora começaram na Fontes Pereira de Melo, mas hão-de chegar à praça - "Para onde é que vão levar tantos carros? As pessoas que queiram vir onde é que vão pôr os carros? Vão fazer parques de estacionamento? Façam-nos primeiro, antes das obras". Na praça de táxis ao lado, Emílio Fernandes, taxista há 26 anos, também não gosta das alterações que se avizinham: "Se com as seis faixas já era mau, agora vai ficar pior. Qualquer dia isto é só para ciclistas e tuk-tuks." Se o trânsito ficar mais difícil, terá de deixar de frequentar a praça do Saldanha.

Este é um dos receios de Carlos Pinto, que gere o quiosque logo ali ao lado. A aposta numa maior área pedonal também lhe levanta dúvidas. "O que é que isto aqui tem para se ver?", questiona, sublinhando que é uma zona em que o comércio vive sobretudo de quem aqui trabalha ou se desloca para usar os serviços - há um centro de emprego por perto, a maternidade Alfredo da Costa um pouco mais abaixo, muitos dentistas, outras especialidades médicas, gabinetes de advogados.

O objetivo assumido por Fernando Medina é mesmo esse, o de mudar a face desta zona, transformando-a num local de vivência do espaço público, com passeios maiores, árvores, ciclovias. Mas este não é um sítio para onde se vem passear, contrapõe Carlos Pinto: "No Terreiro do Paço está bem, foram umas boas obras, mas aqui?! O que é que há para se ver?". E os residentes, não ficam a ganhar? "Vão fazer uma grande obra para quem mora aqui? Não mora ninguém. Conto pelos dedos das mãos os clientes que tenho que moram aqui."

Numa transversal à Fontes Pereira de Melo, Delmira Lourenço, dona de um café, tem uma perspetiva mais otimista, talvez porque o presente a isso obriga. "A zona está muito em baixo. Há empresas a sair, as rendas na Expo chegam a ser mais baratas do que aqui. Se vai melhorar? Esperemos que sim. Talvez traga mais turistas, a esperança é essa." Mais abaixo Carlos Teixeira espera é que as obras não os afastem, não tanto agora, mas quando começar a intervenção nos passeios. Com cinco hotéis nas ruas adjacentes, a loja de material fotográfico vive um "bocadinho do turismo, das empresas e da conservatória [do registo civil], que traz muitas pessoas" à avenida.

Se os comerciantes divergem quanto ao resultado das obras na Fontes Pereira de Melo e Saldanha, há um ponto em que todos dizem a mesma coisa: ninguém, mas mesmo ninguém, acredita nos prazos avançados pela câmara. "Falam em nove meses. Não acredito, vai ser mais que isso", diz Catarina Morgado. "Não acredito muito. Daqui a um ano talvez", corrobora José Manuel Madeira.

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