Obesidade e excesso de peso são "dos maiores inimigos" do coração

Doenças de foro cardíaco são a principal causa de morte no mundo. O combate ao excesso de peso e obesidade deve ser "uma prioridade" da Saúde Pública, defende João Jácome de Castro. É uma das formas mais eficazes de proteger o músculo vital.

Capaz de diariamente gerar energia suficiente para fazer andar um camião ao longo de 30 km, o coração é o órgão vital que distribui os nutrientes e outras substâncias necessárias para manter a funcionar o corpo humano. Cuidá-lo soa, por isso, a uma recomendação óbvia, mas negligenciada por grande parte da população. Prova disso, as estatísticas da Organização Mundial de Saúde, que insistentemente têm alertado nos últimos anos: as doenças do foro cardíaco são a principal causa de morte no mundo, responsáveis por quase 18 milhões de mortes anualmente. E Portugal não é exceção: em 2020, primeiro ano da pandemia de covid-19, continuaram a ser as doenças do aparelho circulatório as mais representadas nas causas de morte no país, com 28%, segundo o INE.

Os mais importantes fatores de risco comportamentais são conhecidos e há uma relação vincada com os hábitos e estilos de vida pouco saudáveis: além do uso de tabaco e do consumo excessivo de álcool, ganham cada vez mais preponderância as dietas alimentares inadequadas e o sedentarismo de grande parte da população, que se traduzem em números crescentes de pessoas obesas ou com excesso de peso, muitas vezes associados a pressão arterial elevada, diabetes ou colesterol alto. "Uma bomba-relógio para o coração", define João Jácome de Castro, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM).

O combate ao excesso de peso e obesidade deve ser "uma prioridade" da Saúde Pública, defende o endocrinologista. É uma das formas mais eficazes de proteger o coração.

"Se nós levarmos 50 litros de água às costas não vamos aguentar muito tempo sem que comecem a doer as costas, os joelhos, as articulações, vamos ter menos mobilidade. Com o coração é igual. Se a máquina tiver muito peso, ele vai ter de se esforçar mais e o risco associado é maior", aponta João Jácome de Castro.

Em Portugal, "a obesidade e o excesso de peso afetam mais de 60% da população", refere. "São seguramente um dos maiores inimigos do coração, porque são fator direto do aparecimento de doenças cárdio e cérebro-vasculares, mas também fator indireto, porque causadores de hipertensão, de colesterol elevado, diabetes Tipo-2, todas patologias com elevado impacto na morbilidade e mortalidade da doença cardiovascular", acrescenta o presidente da SPEDM, ilustrando com os números de um "estudo norte-americano que concluiu que as pessoas com obesidade vivem em média menos sete anos do que as pessoas com um índice de massa corporal normal (IMC), nas mesmas condições".

Comparativamente com uma pessoa com IMC "normal" (entre 18,5-24,9 kg/m2), uma pessoa com Obesidade Classe I (30-34,9 kg/m2) tem o dobro do risco de vir a desenvolver hipertensão arterial; 80% mais probabilidade de desenvolver colesterol elevado; e cinco vezes maior risco de diabetes Tipo-2. Fatores que multiplicam a ameaça sobre o funcionamento do nosso principal músculo.

O excesso de peso ou obesidade foram responsáveis por quatro milhões de mortes em todo o mundo em 2015 e mais de dois terços destas mortes ocorreram por doenças cardiovasculares associadas. Um índice de massa corporal excessivo causa mudanças importantes na estrutura e no tamanho do coração, comprometendo o seu funcionamento: quanto maior é o sobrepeso, maior é o esforço do coração para bombear o sangue e a acumulação de células gordas aumenta o risco de entupimento das artérias.

Para João Jácome de Castro, o primeiro passo, urgente, a dar "é as pessoas -- utentes, médicos, responsáveis políticos -- começarem a levar a sério a obesidade, que ela seja efetivamente reconhecida como uma doença crónica que é". E a diferença entre uns quilinhos a mais e o primeiro grau de obesidade é uma fronteira fácil de ultrapassar.

A combinação de atividade física e dieta equilibrada "é o melhor tratamento", defende o endocrinologista, sublinhando as conquistas significativas para a qualidade de vida trazidas por uma perda de peso, mesmo que ligeira - perder 10-15% do peso diminui em 21% o risco de doença cardiovascular.

O presidente da SPEDM alerta, contudo, para o perigo das "dietas milagrosas" que prometem soluções rápidas. "As dietas da moda são perigosas. A fronteira entre a ciência e o negócio é muito mal definida. Deve haver sempre um acompanhamento médico. Porque o difícil não é perder peso, o difícil é conservar essa conquista e para isso é preciso criar uma cultura alimentar. Senão, passadas as seis semanas ou o que for da dieta milagrosa, a pessoa volta à cultura alimentar anterior, porque não vai comer iogurtes a vida toda, e volta a ganhar peso. E esse iô-iô é o pior que pode acontecer", refere.

É essa cultura alimentar e de vida saudável que importa incutir desde cedo, frisa o endocrinologista. A nível nacional, mais de 30% das crianças entre os 9 e os 16 anos são obesas ou sofrem de excesso de peso, favorecendo, desde logo, na população infantil uma predisposição para um conjunto de doenças e alterações do foro cardiovascular, em idade adulta. Se não se contrariar esta tendência, a esperança média de vida das novas gerações pode vir a ser mais curta do que a dos seus pais. Por isso, João Jácome de Castro sublinha: "Perder ou controlar o peso não é uma questão estética, é sobretudo uma questão de saúde". O coração agradece.

rui.frias@dn.pt

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