O que é que a malha tem? Histórias de quem não passa sem lã e agulhas

A arte manual antiga reinventou-se e por estes dias anda nas bocas do mundo, muito por culpa de um livro que é um sucesso

Quando apareceu na net a anunciá-lo como uma resolução para 2016, os fãs de Rui Unas não perderam tempo a fazer piadas sobre esse desígnio de Ano Novo: fazer tricô. Dias depois, aparecia na televisão Manuel Luís Goucha a revelar que também já tinha tricotado um cachecol amarelo. Um vício comum a homens e mulheres, famosos e anónimos de todas as idades, como prova o sucesso de vendas do livro Terapia do Tricot, de Zélia Évora, que está nos primeiros lugares dos tops de vendas. Unas resumiu bem o que se passa em Portugal por estes dias: "Homem que é homem não tem medo de agulhas."

Que o diga Frederico Edvardsen Cardoso, mais conhecido nos meandros do tricô como "Macho Man", o executivo de Cascais que nas horas vagas faz gorros e cachecóis para os quatro filhos, que já tricotou agasalhos para os sem-abrigo e refugiados, autor da marca Knited by Macho Men. Tem uma página com esse nome e já passou por quase todos os programas da tarde na TV a explicar o gosto de criar peças, de fazer acontecer magia entre os dedos. Numa cruzada contra o preconceito, começou por colocar nas redes sociais fotografias suas a tricotar em público.

É esse mesmo, de resto, o nome de um grupo que junta mais de 17 mil membros no facebook, gerido por outro homem: André de Castro, do Porto, de cujas mãos saem as peças mais delicadas e trabalhosas. Violinista profissional, dedica a maior parte do seu tempo a ensinar as técnicas do tricô, em cursos diversos pelo país. De permeio, faz verdadeiro serviço público traduzindo os esquemas, que disponibiliza para livre acesso, no grupo do facebook. E terá sido esta rede social que muito serviu para democratizar o tricô nos últimos anos. Foi assim, afinal, que o país soube da existência do Gang da Malha, criado nas Caldas da Rainha em 2013 pelo arquiteto Filipe Santos, em parceria com a artesã Zélia Évora.

Rui Unas explica bem os motivos para fazer parte deste gang: "Tricotar é uma belíssima metáfora para a vida. Quando nos agarramos a um par de agulhas e decidimos concretizar um projeto temos de ter em mente que a consistência, a disciplina e o rigor são a chave para o sucesso. Os "acidentes" às vezes acontecem e não devemos entrar em pânico... com calma e discernimento podemos corrigir o erro e seguirmos com o plano. Não desfazer o que já fizemos e prosseguir com o trabalho."

Malhar entre concertos

Muito antes de se tornar conhecida no país inteiro (ela e o seu acordeão), Celina da Piedade já tocava nas agulhas. "Comecei a tricotar muito pequena, andava ainda na escola primária. Foi a minha mãe quem me ensinou, e como ela é canhota (eu não), na altura aprendi a tricotar como ela..." Está explicada a razão pela qual ainda hoje "faço muitas coisas à esquerda". A cantora e música sempre adorou artes manuais, e por isso aprendeu também a costurar, a bordar, a fazer crochê e a trabalhar com teares de lã. Pela vida fora, manteve o gosto e foi aprimorando técnicas: "gosto de tricotar a cores, numa técnica bastante tradicional, conhecida como jacquard. Adoro o desafio e o resultado, mas é um trabalho para o qual é preciso muito tempo e concentração, coisa que nem sempre arranjo."

Por isso mesmo, divide o gosto entre outras peças, muito simples de concretizar, daquelas que pode ir tricotando quase sem olhar para as agulhas, enquanto conversa ou vê um filme. Leva as agulhas e a lã para toda a parte, até para os ensaios e concertos. "Sempre que aparece uma oportunidade agarro-me a elas", conta ao DN, ela que agora anda empenhada num projeto ambicioso - uma camisola de lã pura para Alex Gaspar, com quem divide os dias e a música.

O que mais gozo lhe deu tricotar? "Um gorro para o meu enteado, feito com muita atenção aos pormenores, com muito carinho. Acho que ele sente isso quando o usa!" É dessa malha de felicidade que se faz o tempo livre de Celina da Piedade, sempre pronta a criar algo com as próprias mãos. Pre-fere o tricô no inverno, que combina com cores vivas e lãs quentinhas. No verão, quem ganha é a costura.

Tal como Celina, também a atriz Inês Castel-Branco é uma amante do tricô. Aprendeu já adulta e foi a mãe quem lhe ensinou. "Gosto de tricotar quando estou a ver filmes e séries ou às vezes quando estou à espera de alguma coisa, acontece nas gravações, nas atividades do meu filho, nas consultas." Agora traz numas agulhas uma manta de bebé (a peça que mais gosta de fazer) e noutras um cachecol. No meio artístico há outros nomes rendidos à arte de tricotar. Ana Carolina Quadros e Costa, mulher e letrista de Rodrigo Leão, e Ana Isabel Dias, dos Madredeus, estão entre os aficionados desta arte.

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