O que é a sorte agora? Poder ficar ao lado de quem se ama

É de amor que se fala nesta coluna, a mais lida do the New York Times. Histórias verdadeiras, contadas pelos leitores. Leia-as no DN aos domingos

A sala onde irei passar o dia, se tiver sorte, é iluminada por lâmpadas fluorescentes, decorada com filas de cadeiras de plástico duro e tem um cartaz na parede sobre a importância de desinfetar as mãos. Embora os amigos se tenham oferecido para me acompanhar, estou aqui sozinha.

No outro lado da sala está uma família reunida: um homem nos seus 60 e poucos anos, como eu, e quatro jovens com idades próximas às dos meus filhos. Eles estão envolvidos numa conversa aparentemente animada sobre os seus trabalhos e os Red Sox. Quanto a mim, não me apetece falar com ninguém.

Cheguei aqui pouco passava das seis da manhã, depois de me despedir do meu marido com um beijo antes de o levarem para a cirurgia. A operação deve durar 12 horas, embora por volta da terceira hora o cirurgião já deva ter chegado ao sítio no abdómen de Jim onde consegue ver o tumor, que nós conhecemos apenas como uma área cinzenta, aparentemente inofensiva, nas TAC de Jim. Às vezes, isso acaba por ser o momento em que o cirurgião afinal descobre que o tumor não é operável, caso em que suturam tudo novamente e dizem: "Nós tentámos."

O tumor em questão (eu não me permito chamar-lhe "o tumor de Jim", não quero dar-lhe esse poder) tem 2,5 centímetros de diâmetro e está localizado na cabeça do pâncreas de Jim. Para o meu marido sobreviver - para que tenha uma hipótese de sobrevivência - este tumor tem de sair.

A operação exige a remoção de parte do pâncreas de Jim, a vesícula biliar, o duodeno e partes do intestino delgado e do estômago. "Imagina o amanhar de um peixe", disse Jim, pescador à linha, a um amigo. "É mais ou menos essa a ideia."

É estranho dizer que uma pessoa tem sorte em fazer uma operação como esta, mas Jim e eu sentimo-nos com sorte. Sete meses antes, quando fomos ao médico, antecipando pedras na vesícula, ficámos a saber que o tumor provavelmente era inoperável.

"Há uma cirurgia que pode dar-lhe uma hipótese", disse-nos o médico de Jim. (Uma hipótese. Apenas isso. Mas, de repente, uma hipótese era tudo.) "É o chamado processo Whipple."

A partir desse momento, o nosso objetivo passou a ser a redução do tumor até ao ponto em que Jim pudesse fazer a cirurgia de Whipple. E, depois de oito séries de quimioterapia e duas de radioterapia, esse dia chegou.

A Whipple é uma cirurgia brutal na melhor das circunstâncias, sendo "a melhor" uma expressão estranha para utilizar quando se fala de uma espécie de cancro com uma taxa de cerca de 5% de sobrevivência por um período de dois anos.

"Não pesquisem na internet", disseram-nos nesse primeiro dia, mas nós fizemo-lo.

No dia em que soubemos a notícia tinham passado apenas 15 meses desde o nosso casamento, numa encosta do New Hampshire com os amigos e os filhos reunidos, fogo-de-artifício e uma banda a apoiar-nos enquanto cantávamos em dueto uma música John Prine e falávamos sobre as viagens que faríamos, as oliveiras que iríamos plantar. Os dois estávamos divorciados há quase 25 anos. Toda a gente nos dizia que tínhamos tido muita sorte em nos encontrarmos nesta fase da vida.

Agora, sorte significa poder fazer esta operação. Dentro de quatro horas, a sorte vai significar receber uma visita de uma enfermeira que diz: "Eles já chegaram ao tumor. Vão avançar agora."

Eu tenho um livro, mas estou sempre a ler a mesma frase. Do outro lado da sala, o pai e os quatro jovens desembrulham sanduíches e riem-se. Os de 20 e poucos anos estão a contar histórias engraçadas sobre a mãe. Se não fosse a decoração institucional, poder-se-ia pensar que eles estavam a divertir-se numa reunião de família.

Os meus filhos e os de Jim estão longe. Estou a quase cinco mil quilómetros de casa. Naquelas terríveis semanas após o diagnóstico, eu vivia com um telefone em cada ouvido, ligando para hospitais e pesquisando tratamentos que pudessem oferecer o que o primeiro médico não tinha conseguido: a possibilidade de um futuro. Quando um programa parecia promissor, metíamo-nos num avião. Foi nesta cidade, neste hospital, que encontrámos o cirurgião que disse: "Eu acredito que posso extrair o tumor do seu marido."

Ainda nem há 18 horas assinalámos este momento com um jogo no Fenway Park e, depois, celebrámos a vitória dos Red Sox com ostras e um martini cada um. Jim comprou um boné. Calvo há muitos meses, estava a começar a ter o seu cabelo de volta. Era fino, mas bonito.

Tinha sido há cerca de dois anos que Jim me tinha pedido em casamento no terraço da sua casa em Oakland, na Califórnia, com um par de martinis e um prato de ostras. Sem nunca ter tido muito jeito para mentir, ele apontou para uma ostra em particular e sugeriu que eu a provasse. Escondido dentro da concha estava um anel de diamantes.

Eu estava sozinha há 24 anos. Só o ato de pôr o anel no dedo era estranho, quase embaraçoso, como seria difícil, mais tarde, dizer "o meu marido" ou referir-me a mim própria como a mulher de Jim. Para mim, o casamento tinha significado problemas. Fracasso. Dor. Porquê arriscar novamente?

Mas fi-lo. Comprámos uma casa. Fizemos grandes planos. Depois veio o diagnóstico.

Acho que foi então, e não no dia do nosso casamento, que as palavras "mulher" e "marido" entraram no meu vocabulário - a primeira vez que eu as consegui dizer sem constrangimento. Elas entraram no meu discurso ao longo das semanas e meses que passei a navegar no mundo do tratamento do cancro, procurando o mais leve vestígio de esperança a que me agarrar num mar de problemas: medicamentos experimentais, imunoterapia, dietas radicais.

Mandei por correio expresso os nossos exames para instituições tão distantes como a Alemanha, e quando nos informaram que a próxima consulta seria dentro de três meses, eu disse: "O meu marido precisa de ir ao médico agora."

O meu marido.

A certo momento percebi que eu já não falava do "tratamento do Jim" ou das "TAC do Jim".

"Nós estamos a Folfirinox agora", dizia eu. "Estamos a receber radiações CyberKnife." E depois: "Nós encolhemos o tumor em 50%. Vamos fazer a cirurgia."

Durante anos, depois do meu divórcio, sempre me considerei uma pessoa independente, mas ansiava por um grande romance, e, com o Jim, encontrei-o finalmente.

No verão depois de nos termos conhecido vimos um Chrysler LeBaron descapotável, de 1982, num site de vendas no Maine e comprámo-lo; em seguida, voámos desde a Califórnia para o ir buscar. Pela primeira vez em 38 anos de exercício da advocacia, Jim tirou férias de verão. Fizemos 6400 quilómetros naquele descapotável, principalmente em estradas secundárias da Nova Inglaterra. Comemos sanduíches de lagosta, dançámos e falámos sobre percorrer o país na moto de Jim.

Ali MacGraw e Ryan O"Neal podem ter passado uma ideia diferente, mas o cancro não é romântico. Jim, que sempre foi um homem magro, perdeu 14 quilos. Eu admirava a maneira como ele se vestia, conservadora mas elegante. Agora, ele usava o fato como David Byrne no vídeo dos Talking Heads da nossa juventude. Quando pareceu que uma infeção recorrente por Cdiff o poderia matar (ele estava com 49 quilos e a baixar de peso dia a dia), convenci-o a fazer um transplante fecal. Dador: eu.

Desde os 13 anos que ele era baixista, um homem do rock. (E também um escuteiro. Adorei isso nele.) Agora, com a quimioterapia a devorá-lo e a sua Triumph a acumular pó, pareceu-me importante que ele continuasse a tocar, assim, um dia, fiz uma paelha para todos os membros da banda e suas mulheres.

Mas na manhã da festa a neuropatia provocada pela quimio mostrou a cara, deixando os dedos de Jim insensíveis, incapazes de tocar. Naquela noite, num canto do nosso quintal silencioso, deitei fora 2,5 quilos de marisco. Nada de rock" n"roll naquele dia, nem naquela estação, nem na que se lhe seguiu.

Na sala de espera, a família à minha frente trouxe comida para o jantar. Quando eles estão a abrir os recipientes aproxima-se uma mulher que se inclina para falar com o pai, pousando-lhe a mão no ombro. A filha acerca-se, e o filho, e os outros dois, que eu percebo que devem ser os seus respetivos parceiros.

De repente, a sala está a girar. A comida cai no chão. O pai fica parado, esconde o rosto com as mãos, balançando a cabeça, mas os filhos começam a chorar e, depois, a gemer. Alguém se levanta, cambaleia, cai no chão. Saem todos a correr, embalagens de comida e sacos abandonados.

Pode acontecer assim, subitamente, o fim da vida tal como a conhecemos. Mas, também, o tempo pode arrastar-se muito lentamente, mesmo um minuto pode parecer interminável.

É quase meia-noite quando o cirurgião aparece. "Esta foi a Whipple mais difícil que eu já fiz", diz ele. Tiraram o tumor e 38 gânglios linfáticos. O relatório da patologia ainda vai demorar alguns dias, mas as coisas parecem boas.

Na sala de recobro encontro a cama em que está Jim, embora ele esteja muito diferente da pessoa que eu conheci há menos quatro anos, num encontro do Match.com num restaurante em Marin County, Califórnia, onde fiquei à espera de que ele sugerisse que pedíssemos alguma coisa, mas ele nunca o fez. Mais tarde, ele explicou: "Eu fiquei tão deslumbrado contigo que me esqueci."

Há tubos a sair do corpo dele. Tem os olhos fechados e a boca aberta. Parece ter 100 anos, mas está vivo.

"Eu sou a mulher dele", digo à enfermeira, e ocupo o meu lugar ao lado da cama.

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