O objeto mais indispensável – e porventura menos discutido – do quotidiano das nossas casas de banho prepara-se para virar a página. Após mais de duas décadas de investigação conduzida em rigoroso segredo industrial, a gigante Kimberly-Clark anunciou esta segunda-feira, 3 de agosto, um plano ambicioso para redefinir o fabrico do papel higiénico, substituindo as tradicionais fibras de árvore por uma planta suculenta nativa do deserto.A novidade tem nome científico: Hesperaloe. Trata-se de uma planta perene e extremamente resistente, nativa das zonas áridas do sudoeste dos Estados Unidos e do norte do México. Antes de eleger esta espécie, a equipa de Investigação e Desenvolvimento (I&D) da empresa – detentora das marcas Cottonelle, Scottex e Kleenex – testou mais de 70 candidatos vegetais alternativos.As vantagens ecológicas e operacionais são evidentes. Em primeiro lugar, destaca-se a eficiência hídrica da planta, que necessita de apenas uma fração da água exigida pelas culturas agrícolas convencionais ou pelo crescimento de florestas. Além disso, ao contrário da madeira, cuja maturação demora décadas, esta suculenta permite uma colheita contínua ao longo de todo o ano.Com a Hesperaloe, à preservação extrema de água, junta-se a preservação de florestas: ao reduzir a dependência da polpa de madeira tradicional, mais árvores são poupadas, permitindo que continuem a absorver emissões de carbono. Para alimentar esta nova cadeia de abastecimento local, a empresa já está a construir uma fábrica-piloto em Yuma, no Arizona, trabalhando em parceria direta com agricultores da região e da vizinha Califórnia.250 milhões de dólares para os primeiros passos de um papel higiénico premiumAté ao momento, a Kimberly-Clark já investiu cerca de 250 milhões de dólares (pouco mais de 217,19 milhões de euros, à cotação desta segunda-feira, 3 de agosto) na investigação da planta e no desenvolvimento da tecnologia patenteada. No entanto, o papel higiénico feito de hesperaloe não chegará aos supermercados imediatamente.A fabricante admitiu publicamente ao diário norte-americano The Wall Street Journal que a comercialização em larga escala exigirá "múltiplos desse valor" nos próximos anos para adaptar as linhas de produção industriais globais.Este investimento massivo pretende alcançar, finalmente, alternativa ecológica de papel higiénico que supere o tabu do "toque". Até ao momento, as principais propostas ecológicas presentes no mercado são o papel reciclado ou o bambu. Contudo, muitos consumidores (especialmente no mercado norte-americano) consideram-nos "ásperos" ou menos macios.O hesperaloe foi apelidado pela Kimberly-Clark como uma descoberta "Goldilocks" – fazendo referência ao toque sedoso dos cabelos da Caracóis de Ouro e os Três Ursos – precisamente porque as suas fibras longas oferecem, de forma natural, a suavidade e resistência premium do papel virgem tradicional, sem o impacto da desflorestação.Em Portugal, o impacto de toda esta inovação nos próximos anos será, provavelmente, nulo ou muito reduzido, e o papel higiénico do país continuará a ser "filho" do eucalipto. O facto de a renovação da Kimberly-Clark depender de uma planta que cresce em desertos e zonas áridas, como o Arizona e o norte do México, será uma das razões pelas quais esta revolução americana dificilmente chegará às prateleiras dos hipermercados portugueses.Duas décadas de ciência no rolo de papelPara assegurar que o consumidor não nota diferença de conforto, a Kimberly-Clark patenteou processos mecânicos e químicos de processamento da polpa da hesperaloe. O objetivo é garantir que produtos emblemáticos como o Cottonelle, o Kleenex ou as toalhas de papel Scott mantenham a mesma suavidade, resistência e capacidade de absorção de sempre, mas com uma pegada florestal (Forest Fiber Footprint) drasticamente reduzida.Sobre o alcance desta inovação, Craig Slavtcheff, diretor de I&D da Kimberly-Clark, destacou no LinkedIn que este programa representa um verdadeiro "moonshot" (para designar algo ultra-ambicioso) de inovação na ciência dos materiais — um projeto disruptivo concebido para transformar radicalmente uma categoria centenária e proteger a empresa da volatilidade global do mercado de madeira.“É um marco fundamental que reflete anos de esforço científico, persistência estratégica e a convicção numa ideia arrojada e com um propósito claro”, declarou o responsável, sublinhando que “ainda há um trabalho importante pela frente, mas hoje é o momento de celebrar o que é possível quando a ciência, a inovação e o propósito se unem”.Com tanto investimento e sofisticação científica dedicados a reinventar a fibra vegetal do papel higiénico, a Humanidade parece estar finalmente a levar a tecnologia da casa de banho a sério. Resta apenas saber se esta revolução botânica será o topo da inovação ou se é apenas uma etapa intermédia até descobrirmos, de uma vez por todas, como é que afinal funcionam as famosas três conchas do filme O Demolidor (Demolition Man). Até lá, a suculenta do deserto terá de bastar..Empresas que não se adaptam aos desafios da sustentabilidade ambiental “vão morrer”, diz CEO da Renova.Associação Quercus pede lei que proíba toalhetes húmidos não biodegradáveis