Há percursos de vida que parecem desenhados a uma velocidade diferente. Carolina Fernandes Henriques vivia com uma urgência bonita, uma generosidade contagiante e uma determinação que desarmava qualquer interlocutor. Quando morreu inesperadamente no dia 23 de agosto de 2024, com apenas 30 anos e o seu doutoramento em Neurociências concluído nos Estados Unidos, deixou atrás de si um rasto de brilhantismo académico, conquistas desportivas nacionais e uma profunda saudade.Quase dois anos depois, a dor da perda dá lugar a um motor de futuro. Para o ano letivo de 2026/2027, nasce na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) a Bolsa de Iniciação à Investigação Carolina Fernandes-Henriques. Financiada inteiramente pela própria família — num esforço financeiro notável de quem não herdou fortunas, mas vive de uma vida de trabalho —, esta não é apenas mais uma oportunidade financeira no panorama científico português; é um manifesto sobre o que deve ser um estudante universitário e um esforço concreto para manter o talento científico dentro de portas."Professora, eu preciso de aprender a trabalhar num laboratório já"A história de como a Carolina começou a sua caminhada na investigação científica resume perfeitamente a sua personalidade. Ainda durante a licenciatura em Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Carolina bateu à porta do gabinete da professora Anabela Bernardes da Silva, docente de Fisiologia Vegetal."Ó Carolina, mas o meu trabalho é em enzimas da fotossíntese em plantas, não é em neurobiologia, que é o que queres seguir", recorda a professora, entre risos, em declarações ao DN. A resposta da jovem, desarmante, fixou-se na memória da docente: "Não, eu sei o que quero seguir, mas eu preciso de aprender a trabalhar num laboratório já, e o seu é o melhor sítio."A determinação convenceu a professora Anabela, que rapidamente articulou esforços com a colega Ana Rita Matos para criar um projeto à medida, cruzando a biologia molecular para que Carolina ganhasse ferramentas úteis para o seu futuro nas neurociências..Pouco depois, com “18 ou 19 anos”, como recorda a docente, e a frequentar o 2.º ano da licenciatura, a própria Carolina descobriu a abertura das bolsas da Fundação Amadeu Dias. Candidatou-se, venceu e garantiu a sua primeira autonomia financeira para investigar. O balão de oxigénio que essa primeira bolsa lhe deu marcou-a para sempre.Foi o primeiro passo de uma rota global de elite da aluna natural de Lisboa — apesar de ter raízes na Beira Alta, mais precisamente no concelho de Mangualde. Sem capitais familiares para suportar aventuras internacionais, foi precisamente o mérito e a conquista de novas bolsas que lhe abriram as portas do mundo: a Carolina prosseguiu estudos na Vrije Universiteit Amsterdam (Países Baixos), na Universidade de Bordéus (França) e na Universidade de Tsukuba (Tóquio, Japão).Culminou este percurso notável nos EUA com um doutoramento em Neurociências na City University of New York (CUNY), onde defendeu a tese “The Role of the Infralimbic–Basal Forebrain Pathway in Fear Extinction” (“O Papel da Via Infralímbica-Prosencéfalo Basal na Extinção do Medo”, em tradução livre). Após obter o PhD, exerceu ainda funções como Coordenadora do Programa de Pesquisa e Design Científico na Berkeley Carroll School, em Nova Iorque.O imperativo de uma vida "fora dos livros"A Bolsa Carolina Fernandes-Henriques traz consigo um regulamento inovador e disruptivo. Ao contrário da maioria dos apoios académicos, que se focam exclusivamente em médias e décimas, esta bolsa exige que os candidatos comprovem uma participação ativa em atividades extracurriculares: desporto, artes, associativismo, voluntariado ou a condição de trabalhador-estudante. Mais ainda: o regulamento é tolerante, permitindo que os candidatos tenham até uma unidade curricular em atraso.Esta configuração foi uma exigência inegociável da família. "Ao pensarmos no que era a Carolina, no gosto que ela tinha pela vida, no seu dia a dia... ela não era focada apenas nas ciências", explica ao DN o seu pai, António Henriques. "Ela andava sempre a fazer outras coisas. Era uma pessoa cheia, sempre com muitos planos. Nunca se dedicou exclusivamente à vida académica. E isso, para nós, era muito importante: que quem ganhasse a bolsa tivesse esse perfil."Carolina era, de facto, o exemplo vivo dessa multidimensionalidade. Iniciou-se no desporto muito cedo, na natação e na ginástica acrobática (onde chegou a representar Portugal no estrangeiro). Mais tarde, no atletismo, sagrou-se campeã nacional universitária e de sub-23, além de vice-campeã nacional absoluta.Pelo meio, mantinha um empenho cívico invulgar. Fervorosa defensora da partilha do conhecimento, foi Vice-Presidente de Educação e Extensão do grupo Women in Science and Engineering no prestigiado Cold Spring Harbor Laboratory (2017/2018) e Representante Estudantil no Centro de Pós-Graduação da CUNY (2021/2023).A professora Anabela corrobora esta visão de que o tempo dedicado a outras paixões não é tempo perdido, mas sim um catalisador de foco: "Os estudantes que têm outros objetivos além do curso são estudantes que não têm tempo a perder. Quando têm um quarto de hora, aproveitam-no ao segundo. Os alunos que estão mais envolvidos noutras atividades são, frequentemente, os que melhor gerem o tempo e fazem parte do grupo de melhores alunos."O regresso que ficou por fazer e a generosidade de quem devolveHá um detalhe doloroso e, ao mesmo tempo, profundamente inspirador nesta história. Como referido, a jovem tinha raízes familiares na Beira Alta, em Mangualde e, conta o pai, nunca cortou o cordão umbilical com Portugal ou com a Faculdade de Ciências. Também a professora descreve como durante os momentos mais duros da pandemia de covid-19, enquanto terminava o seu exigente doutoramento nos EUA, lhe enviava e-mails a perguntar como os docentes estavam a gerir as aulas à distância e como estava o ambiente na faculdade.Nestas mensagens, Carolina confessava um sonho: o de regressar a Portugal e à Ciências ULisboa para continuar a sua carreira científica após o doutoramento. No encerramento da sua tese nos EUA, fez questão de incluir um agradecimento formal e caloroso à faculdade que a viu nascer para a ciência.A crise de epilepsia que lhe roubou a vida durante o sono, numa noite de agosto de 2024, travou fisicamente esse regresso. Mas a criação desta bolsa garante que o seu desejo se cumpre de outra forma.Colocar de pé uma bolsa destas, desenhar regulamentos e gerir a burocracia universitária no meio de um processo de luto exige uma coragem quase sobre-humana. António Henriques, o pai, fala com franqueza sobre o seu estado de espírito: "Para mim, eu ainda não me consigo focar muito no futuro... Mas temos de ir vivendo, um dia de cada vez, com esta situação e aprender a carregar esta dor. A criação da bolsa é a nossa forma de manter viva a memória dela e o seu impacto no mundo."É na materialização prática desta homenagem que o esforço familiar se torna quase heroico: a bolsa não é financiada por uma multinacional ou por herdeiros de grandes fortunas. É financiada diretamente por António e pela restante família, pessoas com vidas normais, de trabalho, em Queluz, Lisboa. O facto de terem decidido canalizar os seus próprios recursos para dar a outros jovens a mesma oportunidade de autonomia que a Carolina teve é filantropia no seu estado mais puro — a devolução generosa ao ecossistema daquilo que um dia os ajudou a erguer uma cientista brilhante.Esta escolha pelo 3.º ano da licenciatura não é um detalhe burocrático ao acaso. Como a própria comunidade académica reconhece, é precisamente nesta "janela crítica" que os melhores alunos começam a olhar para o estrangeiro e a planear a sua saída do país. Ao dar-lhes autonomia científica e suporte financeiro nesta fase crucial, a bolsa ajuda a criar a primeira raiz forte que os liga ao ecossistema nacional. Apoiar financeiramente estudantes do 3.º ano de Biologia com 701,12€ mensais durante os cinco meses da bolsa, em regime de exclusividade, é um esforço financeiro tremendo para a família, mas é também um manifesto prático contra a resignação e a favor da retenção do nosso melhor talento.Quando a primeira edição da bolsa estiver concluída e chegar o momento de entregar o prémio ao primeiro jovem selecionado, António sabe exatamente o que procura ver no rosto desse estudante: "Espero ver muita esperança, muita vontade de vencer, determinação... e alguma coragem, porque para abraçar a ciência e conciliar tudo isto na vida é preciso ter coragem. Alguém que tenha essa chama e essa generosidade. Alguém que queira partilhar conhecimento, que queira fazer a diferença na sociedade."A ciência portuguesa, tantas vezes esquecida ou fustigada pela falta de financiamento e pela fuga de cérebros, ganha aqui um balão de oxigénio com o nome de Carolina Fernandes Henriques — a jovem cientista que queria voltar para casa e que regressa agora, de forma indelével, multiplicada nos sonhos, na generosidade de uma família trabalhadora e na determinação de quem se segue.