"O cortejo tem momentos que são deprimentes"

O "espírito de irreverência" da juventude universitária "atenuou-se" nas últimas décadas e as festas estudantis tornaram-se momentos de "grande agitação coletiva e de excessos nos consumos de todos os tipos". O alerta é de Elísio Estanque, sociólogo e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, com obra publicada sobre o tema da praxe e das tradições académicas.

Diz que os cortejos das Queimas das Fitas são momentos de catarse coletiva. Porquê?

Pela atmosfera que se cria, pelo consumo desbragado de cerveja, pelo excesso que tudo aquilo comporta, o cortejo é um momento de exaltação, de excitação, de um ritualismo muito significativo. Tem essa função de catarse, na medida em que estes rituais contribuem para apaziguar determinados sentimentos menos compensadores, para motivar os indivíduos e fazê-los sair das rotinas habituais.

Nos últimos anos houve uma descaracterização do que era esta festa nos seus primórdios?

Sim. Há umas décadas, a mensagem corrosiva e crítica da sociedade, da própria universidade ou do poder político, era bem mais evidente. Esse espírito de irreverência atenuou-se na atual juventude universitária. E em substituição disso aparecem aqueles momentos de entrega emocional, de grande agitação coletiva e de excessos nos consumos de todos os tipos - para além dos banhos de cerveja que agora se tornaram comuns... Eu não deixo de associar isso à pressão do marketing, aos interesses económicos dos patrocinadores, etc. É o fortalecimento de um princípio mercantilista que se impõe sem que, na maioria dos casos, os jovens se apercebam.

Foi a sociedade que mudou ou são os jovens que se tornaram, de alguma forma, mais imaturos?

Os jovens são sempre expressão da sociedade. Eles, por se encontrarem numa fase de formação, são mais adaptáveis, têm menos defesas para construir uma atitude crítica e construtiva relativamente às implicações do princípio do mercado, da competição, do individualismo, do consumo, etc. Mas esta reflexão não é de uma geração contra a outra. Provavelmente, hoje os jovens são como são porque as suas famílias e condições de vida os conduziram a este ponto.

Tendo em conta essa evolução, seria preciso uma transformação da sociedade para estas festas estudantis também mudarem?

De certo modo, isso é verdade. Mas não há aqui uma atitude de nostalgia, nem seria saudável pugnar para que a juventude de hoje voltasse a ser como a dos anos 60 - até porque as condições eram completamente diferentes (foi uma conquista da democracia a possibilidade de muitos filhos da classe trabalhadora poderem aceder ao ensino público universitário, que era muito elitista). A sociedade é o que é. E as mudanças são irreversíveis. Mas, atenção, o facto de serem irreversíveis não quer dizer que os excessos não possam ser corrigidos. O que temos de fazer é chamar a atenção dos vários agentes que têm influência no meio estudantil para que verifiquem onde é que está o limite do aceitável para determinados comportamentos. Aqui em Coimbra, o cortejo da Queima das Fitas assume alguns momentos que são deprimentes, que são degradantes, e em que se nota que aqueles jovens não estão sequer a divertir-se.

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