Na sua paleta compôs as cores subtis que perpetuaram cenas como A Aula de Dança, óleo sobre tela em mostra no Museu d’Orsay, em Paris. Edgar Degas, mestre do Impressionismo, captou com particular sensibilidade o mundo do balé. Também enveredou a sua obra plástica por outros mundos, retratou o ambiente boémio dos cafés parisienses, as corridas de cavalos, mas também instantâneos intimistas, em família. .No ano de 1871, o pintor e gravurista nascido em 1834, imortalizou em quadro um trio de amigos. Jeantaud, Linet et Lainé, assim intitulada a obra, revela os companheiros de Degas na Guerra Franco-Prussiana, conflito decorrido de 1870 a 1871. O artista servira, então, na Guarda Nacional, comprometido com a defesa da capital francesa. Detêm-se meditativos os três companheiros de armas retratados no quadro atualmente em exposição no Museu d’Orsay, após décadas no Louvre. À esquerda, tomando o ponto de vista do espetador, um jovem Charles Jeantaud fixa o olhar algures à margem do quadro. A posição imóvel a que Edgar Degas entregou para a posteridade o amigo contraria os empreendimentos que este alcançou fora do mundo delineado entre os quatro hemisférios de uma moldura. Jeantaud, engenheiro e inventor, contribuiu para lançar a França dos finais do século XIX na mais louca corrida automobilística até então..Em poucos meses, entre o final de 1898 e abril de 1899, dois homens, a bordo de carros elétricos de fabricantes concorrentes, bateram sucessivos recordes de velocidade. Em 1899, um bólide avançou nos campos franceses à vertiginosa velocidade média de 105,88 Km/h. O carro, invenção com poucas décadas naquele final do século de oitocentos, empurrava a humanidade para novos limites. A competição entre as viaturas mais velozes trazia motivações várias, entre elas a de conquistar o apetecível mercado parisiense de aquisição de veículos elétricos. Três homens protagonizaram neste capítulo da história automóvel, o já referido Charles Jeantaud, o piloto francês Gaston de Chasseloup-Laubat e o piloto e fabricante belga Camille Jenatzy..Ao longo de décadas contou-se que o Imperador Napoleão III, de França, fora o primeiro soberano a atingir a velocidade de 100 Km/h a bordo de uma locomotiva numa viagem entre Marselha e Paris. O ano era 1855 e, em breve, o mundo conheceria outros limites para a velocidade. Em 1886, o inventor alemão Karl Benz apresentou aquele que é tido como o primeiro carro moderno. Com três rodas, a viatura singrava a uma velocidade máxima de 16 Km/h. Dez anos após a viagem inaugural do Benz Patent-Motorwagen, a indústria automóvel beneficiava de avanços tecnológicos tributários do século XIX. Em 1834, o norte-americano.Thomas Davenport, a par com a sua mulher, Emilly, desenvolveu o primeiro motor elétrico movido a bateria. A dupla empreendeu, então, a utilização da eletricidade como meio de propulsão de viaturas de locomoção autónoma. Em 1840, os Davenport levavam a eletricidade para o mundo da impressão. The Electromagnetic and Mechanical Intelligence foi a primeira publicação impressa na totalidade com recurso a maquinaria elétrica. Nas estradas, a primeira década do século XX assistia a uma revolução nos Estados Unidos. Mais de um terço dos automóveis em circulação moviam-se a energia elétrica. Na Europa, na década de 1850, nascia uma bateria recarregável engendrada pelo físico francês Gaston Planté..Espicaçados pelo desafio lançado pela revista France Automobile, o de ver batido o recorde de velocidade terrestre a bordo de um automóvel, a marca Jeantaud, com o seu veículo Duc II, e a engenharia de Jenatzy, com o veículo Jamais-Contente, fizeram das planícies de Achères, o palco de todos os recordes. A bordo do Duc II sentou-se Gaston de Chasseloup-Laubat, filho do Ministro da Marinha de Napoleão III. A apoiar o piloto nascido em 1866 estava o conhecimento da marca fundada em 1893 e construtora do primeiro carro movido a bateria. A contenda opunha Gaston ao temível piloto conhecido como “diabo vermelho”, numa alusão à sua barba ruiva. Filho de um fabricante de produtos manufaturados à base de borracha, Camille estudara engenharia elétrica, interessou-se pela tração elétrica para automóveis e fez-se construtor de táxis movidos a eletricidade em circulação nas ruas de Paris. Também construiu o Jamais-Contente, o veículo torpedo de carroceria fabricada com uma liga metálica. Mais de metade dos 1450 Kg da viatura estavam entregues a duas baterias elétricas com uma potência máxima de 65 cavalos..Entre 18 de dezembro de 1898 e 29 de abril de 1899, a pista com 2 Km de extensão serviu de palco à evolução da disputa entre Gaston e o seu Duc II e Charles e o seu Jamais-Contente. Coube ao piloto gaulês a primeira vitória, ao completar 1 Km em 57 segundos, a uma velocidade média de 63,15 Km/h. Tempo que melhorou um mês depois, a 17 de janeiro de 1899, elevando a velocidade média para os 66,65 Km/h. A glória foi de pouca dura. Dez dias mais tarde, Camille bateu o recorde com a velocidade de 80,35 Km/h. A 4 de março, nova reviravolta na tabela, com o Duc II a evoluir a 92,69 Km/h. Por último, a 29 de abril de 1899, Jenatzy, atirou a sua viatura para além dos 100 Km/h. A velocidade média do Jamais-Contente foi de 105 Km/h. Uma vitória não obstante os obstáculos à aerodinâmica do veículo, dada a alta posição de condução do piloto. O recorde permaneceria intocado nos três anos seguintes. A 13 de abril de 1902, o piloto francês Léon Serpollet alcançou uma velocidade média no solo de 120,8 Km/h a bordo de uma viatura a vapor..Nos anos vindouros, os recordes de velocidade em terra migrariam para os Estados Unidos. Em 1906, Daytona Beach assistia a um novo limiar na velocidade automóvel. O piloto Fred Marriott alcançava os 205,44 Km/h na garupa de um automóvel a vapor. Findava a era dos recordes batidos a bordo de viaturas elétricas e a vapor. O motor de combustão interna impunha-se dos dois lados do Atlântico..Gaston faleceu em 1903 após dois anos de padecimento. Camille morreria dez anos depois, vítima de um acidente de caça. Certa tarde, escondeu-se sob um arbusto. Pretendia ludibriar os amigos de caçada. Imitou um animal selvagem e a resposta formulou-se numa saraivada de chumbo. Camille morreu a bordo de um automóvel Mercedes, lançado a grande velocidade na estrada rumo ao hospital.