"O Acordo é para as novas gerações"

O pai do Acordo, Malaca Casteleiro, lembra que só Angola e a Guiné-Bissau estão atrasados. E que não se deve perder tempo com minudências

Surpreendeu-o o facto de o Presidente da República ter relançado o debate sobre o Acordo Ortográfico?

Já manifestei a minha discordância porque neste momento o Acordo Ortográfico está em implantação em todos os países. Em Portugal está implantado, tal como no Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Moçambique aprovou, só falta ratificar no Parlamento. Só Angola e a Guiné-Bissau estarão mais atrasados. Surpreendeu-me que o Presidente tenha feito aquelas declarações em Moçambique, até porque quem trata disto agora é o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, um organismo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, por sinal presidido por uma professora universitária moçambicana, a professora Marisa Mendonça, que sabe muito bem como o processo está a decorrer. Em Moçambique foi elaborado o vocabulário ortográfico nacional e está a ser integrado.

A proposta de Marcelo Rebelo de Sousa foi extemporânea?

Acho que o senhor Presidente, com o devido respeito, levantou um problema que não tem razão de ser. Nem Moçambique nem Angola disseram que não ratificavam. Em Moçambique, como disse, o governo aprovou, falta ratificar no Parlamento e Angola não vai com certeza ficar isolada. Andámos tanto tempo a correr, a fazer um esforço enorme para encontrar uma ortografia comum, e agora surge esta contestação... não vejo isto acontecer nem em relação ao inglês nem ao espanhol.

Mas em praticamente todos os países têm surgido vozes críticas do Acordo. No Brasil, em 2015, a aplicação foi prorrogada pela presidente...

No Brasil entrou em vigor definitivamente em 11 de janeiro deste ano. A presidente Dilma [Rousseff] tinha prorrogado o prazo de adaptação, mas já entrou em vigor. É claro que no Brasil também há contestatários. Mas o Acordo Ortográfico é para as novas gerações, é para o futuro, é para promover a valorização da língua portuguesa. As crianças que agora aprendem é que vão promover a língua portuguesa. As pessoas mais velhas, que estão habituadas a escrever com antiga ortografia, têm todo o direito de o fazer. Mas em Portugal o Acordo de 1990 entrou em vigor para o sistema de ensino, órgãos oficiais do Estado, televisões... está em vigor. E depois há quem levante minudências.

Ainda há margem para limar essas minudências?

Neste momento, a minha perspetiva é que não se justifica estar a tocar na questão antes de o Acordo entrar em vigor em todos os países. Depois, no futuro, poder-se-á limar alguma incongruência. Para rever a questão do "pára" e do "para" é preciso rever o Acordo?

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