Mais do que apenas a promoção a cardeal, a escolha ontem anunciada pelo Vaticano poderá querer dizer, num curtíssimo prazo - antes da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) - que Américo Aguiar, atualmente bispo auxiliar de Lisboa, será o novo bispo da diocese, sucedendo a Manuel Clemente como patriarca..Este completará 75 anos - idade de aposentação - no próximo domingo, dia 16. Sendo certo que o seu mandato poderia ser prorrogado, a verdade é que Manuel Clemente tem feito pressão para ser imediatamente substituído, mesmo antes de se iniciar em Lisboa a JMJ (1 a 6 de agosto)..O evento poderá assim decorrer tendo já a diocese anfitriã, Lisboa, um novo bispo, Américo Aguiar. E este, ao ser agora indigitado cardeal, com nomeação oficial marcada para um Consistório que se realizará no Vaticano no próximo dia 30 de setembro, preencherá assim a condição canonicamente automática de todos os bispos de Lisboa: serem cardeais..Do ponto de vista prático, isso de facto nem interfere na organização da JMJ: Américo Aguiar já lidera a parte da Igreja Católica na organização do evento e, passando de bispo auxiliar a bispo da diocese, continuará a fazê-lo. Por outro lado, D. Manuel Clemente é aliviado do peso das funções, algo que já vinha a pedir há muito tempo, alegando razões de saúde. Não perderá, no entanto, até fazer 80 anos, a condição de cardeal com direito a voto na eleição de um novo Papa..Com a ascensão de Américo Aguiar, Portugal passará a ter seis cardeais: quatro ainda com direito a voto na eleição do Papa (Clemente, Aguiar, Tolentino de Mendonça e António Marto, todos escolhidos por Francisco) e dois sem direito a voto por terem ultrapassado o limite de idade: José Saraiva Martins (91 anos, prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos) e Manuel Monteiro de Castro (85, penitenciário-mor emérito da Santa Sé)..Subindo a cardeal com apenas 49 anos (nasceu em 12 de setembro de 1973), e prevendo-se que dentro em breve será o novo bispo de Lisboa, Américo Aguiar representa uma das mais meteóricas ascensões de que há memória na Igreja Católica portuguesa - porventura até a mais meteórica de sempre..Nascido em Leça do Balio (Matosinhos, Distrito do Porto), foi ordenado padre em 2001. O Expresso conta que em Leça foi um "radical ambientalista" em defesa do rio local, sendo que a militância partidária também não lhe é alheia: foi militante do PS e deputado eleito pelos socialistas na Assembleia Municipal de Matosinhos..O perfil do prelado na Wikipedia conta que Américo Aguiar "desempenhou as funções de pároco de S. Pero de Azevedo (Campanhã) entre 2001 e 2002, foi notário da Cúria Diocesana do Porto entre 2001 e 2004, chefe do gabinete de informação e comunicação da Diocese do Porto entre 2002 e 2015, Vigário Geral e chefe de gabinete dos bispos D. Armindo Lopes Coelho, D. Manuel Clemente e D. António Francisco dos Santos e exerceu as funções de capelão-mor da Misericórdia do Porto"..Além disso, "foi também pároco da Sé entre 2014 e 2015 e foi nomeado cónego do Cabido da Sé do Porto em 2017. Desde 2011 que preside à direção da Irmandade dos Clérigos e em 2016 assumiu a presidência do Conselho de Gerência do Grupo Renascença Multimédia [cargo que ainda ocupa], para além de desempenhar as funções de diretor do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, organismo da Conferência Episcopal Portuguesa, e integrar a organização da Jornada Mundial da Juventude na cidade de Lisboa em 2023"..Como se vê, a ligação com o ainda bispo de Lisboa Manuel Clemente é antiga e foi Clemente quem trouxe Américo para a capital quando passou de bispo do Porto (2007-2013) para bispo de Lisboa (2013 até ao presente). Agora o facto de tudo apontar Aguiar como sucessor de Clemente só surge como natural. Conhecedores da realidade da Igreja Católica lisboeta apontam-lhe duas prioridades urgentes: uma externa (fazer face ao crescimento das igrejas evangélicas) e outra interna (travar a influência crescente dos católicos conservadores)..Ontem, reagindo à notícia da sua elevação a cardeal, o Presidente da República manifestou o seu "profundo júbilo", numa (muito curta) nota publicada no site oficial. E acrescentou: "Portugal passa, pela primeira vez na História, a ter, simultaneamente, seis Cardeais. Uma honra para Portugal e para os portugueses." Já o próprio Américo quis interpretar a sua escolha como "uma homenagem à juventude portuguesa". Desabafando: "Ninguém sonha ser cardeal, só se não tiver juízo.".Este domingo, ao anunciar a nomeação de Américo Aguiar, o Papa anunciou também outros 20 novos cardeais. Todos passarão a integrar o Colégio Cardinalício da Santa Sé, onde se realiza o conclave de eleição do Papa..joao.p.henriques@dn.pt