Nove mil doentes faltam aos tratamentos e põem em causa controlo da sida

Denúncia é do presidente do GAT, que alerta para os riscos de controlo da epidemia. Estudo com dados de 2014 já apontava para 7500 doentes sem acompanhamento médico

Há nove mil doentes diagnosticados com VIH que não estão a ser acompanhados pelos serviços de saúde. A denúncia é feita pelo presidente do GAT - Grupo Ativistas em Tratamentos, Luís Mendão, a propósito do Dia Mundial da Luta Contra a Sida, que se assinala hoje. O responsável defende a necessidade de se identificar estes doentes de forma a controlar a infeção. "É importante ir atrás destas pessoas, pela prevenção e saúde delas e pelo controlo da epidemia", alerta.

Luís Mendão chega a este número pela diferença entre as pessoas diagnosticadas ("cerca de 42 mil") e as 33 mil pessoas em tratamento nos hospitais. Num estudo, em que foram usados dados de 2014, já se chegava à conclusão de que 7500 doentes diagnosticados não tinham chegado aos serviços de saúde. António Diniz, médico especialista e ex-diretor do Programa Nacional para a Infeção VIH/Sida, um dos autores deste estudo apresentado, este ano, admite que "estes 7500 podem ter aumentado" e que representam "um desafio" para o controlo da infeção. A mesma opinião é partilhada pelo infecciologista Fernando Maltez. "Haver um número de doentes que fogem aos cuidados clínicos, e ao tratamento, que não estão medicados e continuam a ser um foco permanente de transmissão da doença."

Do lado do governo, foi publicado um despacho - pelo secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo -, que impõe até ao final do ano a implementação do sistema informático do VIH em todos os hospitais do Serviço Nacional de Saúde que seguem pessoas infetadas com o vírus da imunodeficiência humana. "Esperamos que esta situação seja resolvida com este despacho, que permita perceber por quê que as pessoas estão diagnosticadas mas nem todas são seguidas pelos hospitais.

"Existe um conjunto de doentes que, estando diagnosticados e tendo os casos sido notificados, não há evidência de se encontraram em seguimento nas diferentes instituições hospitalares", sendo necessário "um esforço na melhoria da qualidade da informação que assegura a fiabilidade e rastreabilidade dos dados", lê-se no despacho.

De acordo com os dados do estudo onde António Diniz participou, das pessoas diagnosticadas, só 80% estavam em tratamentos, dez pontos percentuais ainda abaixo da meta estipulada pela ONUSIDA para 2020, de ter 90% das pessoas infetadas com diagnóstico, 90% a recebam tratamento antirretroviral e 90% destas com uma carga viral indetetável.

"Desde 2015 que digo se as políticas implementadas forem as corretas é perfeitamente possível alcançar os três 90", garante António Diniz, substituído no ano passado à frente do programa nacional. O infecciologista do Hospital Pulido Valente, em Lisboa, não tem dúvidas que localizar estes doentes "é o maior desafio". "Nestes 7500, seguramente há pessoas que terão falecido, outras que emigraram, voltaram aos seus países de origem e pessoas que mudaram de residência dentro de Portugal. Mas não será a maioria dos 7500."

Entre as razões que afastam estes doentes dos serviços médicos pode estar a dificuldade de deslocação aos hospitais, prazos dilatados entre as consultas ou situações de fragilidade social e económica. "Temos problemas de tempos de espera, barreiras administrativas para pessoas que não têm situações regularizada no SNS", enumera Luís Mendão. Os doentes deveriam receber medicação para três meses, "evitando deslocações excessivas ao hospital ou faltar ao trabalho", acrescenta o presidente do GAT.

Outra dificuldade pode ser levar as pessoas de um diagnóstico de uma organização comunitária a consultas hospitalares. "Temos de promover uma colaboração mais estreita, ter maior proatividade de um lado ou outro para acompanhar as pessoas, perceber porque elas faltam e dar alternativas. Propôs a criação de uma figura que pode ter vários nomes, mas que é genericamente um gestor de caso. Seria um contributo que promovesse o contacto com essa pessoa, para as situações mais difíceis", defende António Diniz.

O especialista elogia, no entanto, o compromisso assinado com Lisboa, Porto e Cascais para a eliminação do VIH. "São as Fast Track Cities e não tenho dúvida que vai ser aí que se vai decidir o futuro da evolução da infeção em Portugal". Este compromisso, assinado no final de maio, criam vias rápidas para a eliminação da infeção, chegando a todos os doentes infetados. Com uma rede integrada de cuidados, para eliminar localmente a infeção.

Apostar na prevenção

No Dia Mundial da Luta Contra a Sida, Luís Mendão sublinha que apesar das grandes vitórias nacionais, continua a ser necessário apostar na prevenção da transmissão da doença.

"Precisamos de mais verbas para distribuir preservativos. É preciso não descurar a prevenção no programa nacional. Agora já só podemos comprar quatro milhões de preservativos e precisávamos de distribuir 10 milhões", exemplifica. O que o presidente do GAT espera é que com as poupanças nos tratamentos, de mais de 57 milhões de euros, se consiga canalizar "pelo menos 10% da poupança para reforçar os programas de prevenção, diagnóstico e apoio à adesão e recursos humanos hospitalares para atender e tratar estas pessoas e seguir com cuidado".

Luís Mendão refere que hoje a associação vai estar a distribuir preservativos e gel "sem apoios". "Distribuímos 1,5 milhões de preservativos e tínhamos capacidade para distribuir mais, mas o problema é que o GAT tem uma série de serviços e viu o seu apoio do Ministério da Saúde cair para menos de metade em seis anos. De 450 mil euros, em 2012, passamos para 200 mil, em 2016." Uma "poupança que leva a custos muito superiores", alerta o ativista.

Em Portugal, os casos de VIH têm vindo a diminuir desde 2008, mas abaixo da diminuição que têm tido os países da Europa Ocidental, sublinha Fernando Maltez (ver entrevista na página ao lado). Há cerca de 45 mil pessoas diagnosticadas com VIH, em Portugal. No ano passado, foram detetados 841 novos casos, 161 dos quais com Sida. Na Europa, 17% dos infetados tem mais de 50 anos.

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