Novas proibições para evitar repetir um janeiro trágico

Creches e ATLs fechados, bares e discotecas com encerramento antecipado para dia 25, teletrabalho obrigatório já a partir do dia de Natal e só testes negativos vão dar acesso a eventos culturais, desportivos e sociais . Primeiro-ministro António Costa justifica decisão do governo com o agravamento da situação pandémica no país e no mundo.

Janeiro de 2021 foi o pior mês da pandemia, com as mortes a quase duplicarem (passaram de 6 997 para 12 482), o mesmo acontecendo com os internamentos e os doentes em cuidados intensivos. Um cenário que António Costa quer completamente afastado desta vez e foi essa uma das justificações para o reforço das medidas de prevenção anunciadas esta terça-feira. Com base na avaliação dos cientistas, que explicaram que a Ómicron espalha-se a grande velocidade pelo país, antecipou as limitações para o dia de Natal, encerrando creches e discotecas e alargando a obrigação de testes. A vacina deixa de ser um cartão de acesso nos próximos 15 dias.

"Perante os riscos de agravamento da situação com a variante Ómicron, e enquanto não concluirmos significativamente o processo de reforço da vacinação, adotamos até 10 de janeiro um conjunto de medidas. A mais vacinação, mais testes, mais controle de fronteiras, acrescentamos mais teletrabalho, mais limitação de contactos, mais uma semana de contenção e mais apoios às famílias e às empresas", justificou o primeiro ministro, ontem, ao fim da tarde, ao anunciar as novas medidas decididas em Conselho de Ministros durante a manhã.

As novas restrições passam pela obrigação de um teste negativo à covid-19 em eventos noa quais, até aqui, bastava o certificado da vacinação completa. Por exemplo, o acesso as espetáculos desportivos ao ar livre com menos de cinco mil pessoas e fechados com menos de mil. O mesmo acontece em relação aos espetáculos culturais, bem como aos eventos empresariais, casamentos e batizados.

Medidas mais limitativas durante o Natal e Ano Novo, dias em que as "pessoas tendem a contactar mais uns com os outros", sublinhou António Costa. O que não impede de serem mantidas as festas de Passagem de Ano, o que poderá acontecer em restaurantes, casinos e outros espaços, mas não em discotecas e bares, obrigados a fechar a partir das 00:00 do dia 25.

José Gouveia, presidente da Associação de Discotecas Nacional, em declarações à Lusa, criticou o Governo por decidir sem consultar o setor e pelo timing das medidas, "em cima do acontecimento".

Afirmou estar em risco a recuperação de discotecas e bares, que fizeram "investimentos de milhares de euros", assumindo "despesas de testagem e de técnicos de saúde para que os seus clientes pudessem ter acesso" a estes espaços, que agora são obrigados a encerrar.

Vacinação e testes em falta

António Costa começou por anunciar as novas restrições sublinhando a aposta na vacinação e na testagem. "A vacinação vale a pena e é a maior garantia para diminuir a severidade da doença", disse. Em relação à testagem, referiu que a percentagem de testes positivos é, agora, 4,20 % dos testes realizados (em laboratórios e nas farmácias), menos do dobro do início do ano.

Acontece que há falta de testes nas farmácias e os centros de vacinação encerram dias 24, 25 e 26 de dezembro, assim como a 31 do mesmo mês e 1 de janeiro. Em relação à testagem, o PM está convicto que o mercado conseguirá responder às necessidades e acrescentou que os testes grátis por mês aumentam de quatro para seis. Já no que diz respeito aos centros de vacinação, argumentou que os profissionais merecem a folga. "Temos de compreender que as pessoas que há um ano lutam diariamente para vacinar a população portuguesa têm direito a estes dias no Natal e no Ano Novo".

As medidas foram decididas em tempo recorde, com uma viagem pelo meio de António Costa à República do Centro de Africana para visitar as tropas portuguesas. Sem muito tempo, disse o governante, para consultar os partidos políticos. "Na escala, no sul da Argélia, consegui fazer alguns contactos e outros foram feitos pelo secretário de Estado [dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro]", justificou.

Partidos querem ver apoios

A coordenadora do BE, Catarina Martins mostrou-se satisfeita por ter sido aceite uma proposta do partido. "Registo que, no encerramento de creches e ATL, o Governo aceitou a sugestão do Bloco de apoio às famílias. Falta saber de apoios relativos a outras medidas", sublinhou a bloquista, que entende que deveriam ser reforçadas equipas de rastreio e vacinação.

O líder do CDS considerou as medidas "exageradas", sobretudo tendo em conta a elevada taxa de vacinação em Portugal. "São alarmistas e desproporcionais. Na verdade, o caminho que o Governo devia seguir era o reforço da terceira dose da vacinação, porque já de demonstrou que, tendo 90% da população vacinada, mesmo em caso de infeções, não tem uma repercussão preocupante nem no número de mortes, nem de internamentos", defendeu.

O PCP reagiu através de Bernardino Soares, membro do Comité Central. Classificou as medidas de "soluções restritivas", sublinhando os prejuízos económicos. "As medidas agora anunciadas pelo Governo retomam uma opção por soluções restritivas com fortes prejuízos para os trabalhadores e muitas atividades económicas, que não pode ser a resposta automática para cada situação de mais incidência da covid-19".

Carla Castro, da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal, contestou o plano de António Costa. "O que assistimos foi a uma conferência de imprensa onde as medidas anunciadas não são condizentes com os dados apresentados. Continuamos a desconhecer quais foram os dados que suportam estas decisões".

Inês Sousa Real, porta-voz do PAN, pediu apoios para as famílias e o setor dos bares e discotecas. "A preocupação que transmitimos ao Governo é que existam os correspondentes apoios sociais, em particular para os bares e as discotecas, que vão ter de encerrar, mas também para as famílias, quer no apoio às creches, quer no apoio para ficarem em casa com as crianças sempre que assim seja necessário por força do contexto sanitário".

É no mesmo sentido que vai André Ventura. O líder do Chega defende que o Governo deve avançar imediatamente com um "suplemento de apoio extraordinário" para compensar os setores mais afetados pelas novas medidas de contenção da covid-19".

ceuneves@dn.pt

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