Nobel da Química para uma nova forma de observar as biomoléculas

A criomicroscopia eletrónica permite analisar as amostras com mais pormenor e precisão. "Fez a bioquímica entrar numa nova era", destacou o Comité Nobel

Joachim Frank costuma ser acordado pela cadela, mas ontem foi o comité Nobel que lhe interrompeu o sono para o informar que tinha vencido o Prémio Nobel da Química juntamente com Jacques Dubochet e Richard Henderson. Os três cientistas são responsáveis pelo desenvolvimento da criomicroscopia eletrónica, uma nova técnica que simplifica e melhora as imagens das biomoléculas e que permitiu analisar o vírus zika de uma forma que ainda não tinha sido possível.

"Há tantas descobertas fantásticas todos os dias. Isto é uma notícia maravilhosa", disse Joachim Frank, de 77 anos, professor na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, que falou com o comité por telefone a partir dos EUA. Já Richard Henderson, de 72 anos, da Escócia, estava a meio de uma conferência, na Universidade de Leicester, quando o telefone tocou para lhe anunciarem que tinha vencido o Nobel da Química. "Isto é maravilhoso. Claro que houve outras pessoas que contribuíram, mas acho que todos sabemos que, normalmente, os prémios são para três pessoas", referiu.

Com o desenvolvimento da criomicroscopia eletrónica, a bioquímica entrou, segundo o comité, numa "nova era", na qual será possível ter imagens das complexas maquinarias da vida em resolução atómica. Até ao desenvolvimento desta técnica, "os mapas bioquímicos eram preenchidos com espaços em branco", porque a tecnologia disponível não permitia aceder "grande parte da maquinaria molecular da vida". Agora é possível.

Ao recorrer a esta técnica, explica em comunicado o comité, os investigadores podem "congelar as biomoléculas e visualizar processos que nunca antes foram vistos, o que é decisivo para a compreensão básica da química da vida e para o desenvolvimento de produtos farmacêuticos". Ao analisar as imagens tridimensionais da estrutura das moléculas, os cientistas conseguem retirar informação sobre o que são capazes de fazer, as suas funções. Foi o que permitiu, como lembrou a academia, estudar o vírus zika para começar à procura de fármacos que o pudessem combater.

A crio-EM resulta do trabalho dos três cientistas, que vão partilhar o prémio da academia no valor de 1,1 milhões de euros. "Cada uma das pessoas galardoadas deu um contributo. Um desenvolveu a microscopia, o outro a parte matemática de análise de imagens e construção de modelos e, finalmente, a técnica de congelação que não destrói as proteínas", diz Brian Goodfellow, professor do departamento de Química da Universidade de Aveiro.

Em 1990, Richard Henderson usou um microscópio eletrónico para gerar uma imagem tridimensional de uma proteína em resolução atómica, o que provou o potencial da tecnologia. Já Joachim Frank tornou esta tecnologia aplicável, quando, entre 1975 e 1986, desenvolveu um método de processamento de imagens no qual as imagens desfocadas e bidimensionais do microscópio eram analisadas e fundidas de maneira a criar uma estrutura a três dimensões.

Jacques Dubochet, investigador suíço de 75 anos, que recebeu a notícia do prémio quando se encontrava na Universidade de Lausanne, adicionou água ao microscópio eletrónico, que evapora no vácuo e faz que as biomoléculas colapsem. No início da década de 1980, o cientista conseguiu arrefecer a água tão rapidamente que a solidificava em torno da estrutura biológica, permitindo às biomoléculas reterem a forma original.

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