Neandertais da Europa do Norte eram canibais

Pela primeira vez, cientistas encontraram provas desta prática para lá dos Alpes. Ossos dos mortos eram usados como ferramentas

Os ossos de pelo menos cinco pessoas, entre as quais uma criança, descobertos numa caverna de Goyet, na Bélgica, estão a ajudar a contar uma nova história sobre a nossa evolução. Uma história de violência, em que pela primeira vez os investigadores descobriram provas da prática de canibalismo entre os Neandertais na Europa do norte, há cerca de 40 mil anos.

A investigação de um equipa internacional de cientistas, entre os quais peritos da universidade alemã de Tubinga e espanhóis da universidade do País Basco, conseguiu recolher 99 fragmentos de esqueletos de Neandertais, a maior coleção do género encontrada tão a norte. E da sua análise retirou-se uma conclusão clara: um terço desses ossos apresentavam cortes e sinais de fratura semelhantes aos que eram feitos pelos nossos antepassados em cavalos e renas, que lhes serviam de refeição. Além disso, estes homens usavam ainda os ossos dos seus mortos como ferramentas, usadas no fabrico de outros utensílios.

Esta não é a primeira vez que se encontram provas de canibalismo entre Neandertais - as evidências mais antigas desta prática entre humanos remontam há 800 mil anos e foram encontradas não muito longe de nós, na gruta espanhola de Atapuerca -, sendo que isso só tinha acontecido em Espanha (Zafarraya, El Sidrón) e França (Moula-Guercy, Les Pradelles). Mas agora este trabalho, publicado na revista Scientific Reports, demonstra que em paragens para lá dos Alpes, "tal como se fazia no sul da Europa, os Neandertais tinham rituais de respeito para com alguns dos seus mortos, que enterravam, ao mesmo tempo que viam outros como alimento", explicou o investigador basco Asier Gómez ao El Mundo.

Mas esta descoberta ainda levanta dúvidas sobre a forma como os Neandertais lidavam com os seus mortos na fase final da sua existência - eles desapareceram há cerca de 30 mil anos - uma vez que outras escavações na mesma zona não encontraram evidências de práticas semelhantes às reveladas em Goyet, mas apenas vestígios de rituais funerários. "Estas indicações permitem-nos assumir que os Neandertais praticavam canibalismo, mas é-nos impossível dizer se essas pessoas foram massacradas como parte de um qualquer ato simbólico ou apenas para servirem de alimento", reconhece Hervé Bocherens, do Centro de Evolução Humana e Paleoambiente de Tubinga, em declarações ao Science Daily. A terceira caverna de Goyet, de onde foram extraídos estes ossos, foi escavada há 150 anos.

Semelhanças genéticas
Esta investigação serviu ainda para solidificar uma outra conclusão, a de que havia pouca variação genética entre os homens espalhados pela Europa nesta época, às vezes separados por milhares de quilómetros - os Neandertais de Goyet tinham semelhanças genéticas com os de Feldhofer (na Alemanha), de Vindija (Croácia) e com os vestígios encontrados na Península Ibética.
A análise ao ADN mitocondrial dos vestígios encontrados permitiu duplicar a informação genética já existente sobre a espécie e confirmar que estes humanos eram bastante semelhantes entre si.

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