"Não vejo como Trump possa ganhar. Hillary será presidente"

Almoço com Tony Cabral

Encontrámo-nos para almoçar no dia em que melhor se andou de carro pelo Bairro Alto e, tendo passado apenas nove horas desde o debate entre Hillary e Trump, foi por aí que começou a conversa. Mesmo porque o obviamente português António Cabral, aterrado nos Estados Unidos aos 14 anos sem falar uma palavra de inglês, é há 25 - "quase 26" - membro da Câmara dos Representantes do Massachusetts (democrata). "Trump não deu a volta que precisava. Tinha de ter enfrentado o votante americano e assumido o erro, mas continua a dizer que é só conversa de balneário."

Já perguntou pelo Sr. Oliveira (que está doente, mas a recuperar) e pelo Rogério (que só vem à noite), a quem deixou os abraços costumeiros. E ainda na sala de entrada apontou-me, entre centenas de caras conhecidas a sorrir-nos da parede, a fotografia em que aparece ao lado dos donos da casa. "Em Boston também havia uma assim, o Pier 4", mas certamente não tinha os petiscos que Tony Cabral procura no Farta Brutos sempre que vem a Lisboa - e são bem mais as vezes do que as visitas aos Açores. Ainda vai passando por São Miguel, mas no Pico, onde nasceu e já só tem uns primos velhotes, foi em 2013 que esteve a última vez.

Sentados à mesa que durante décadas pertenceu a José Saramago - honra devidamente assinalada com placa dourada -, conta--me que o pai demorou três anos para ter a exigida assinatura no passaporte que lhe permitiria emigrar, mulher, sete filhas e dois filhos na bagagem. As irmãs eram adultas e o irmão "já tinha a tropa feita, com passagem pelo ultramar e tudo", por isso acabaram por ter "oportunidades diferentes". Hoje, a família está espalhada da Florida à Califórnia, mas ainda se juntam todos pelo 4 de Julho ou para celebrar aniversários.

"O meu pai, que era mecânico especializado em diesel e tinha direito de voto, era um bocado rebelde, antissistema, e às vezes não votava como era suposto... Lá em casa sempre se falou de política." E talvez por isso Tony, que saiu do Pico com o sonho de ser professor - "quando era miúdo, na Vila da Madalena, as duas pessoas mais respeitadas eram o professor e o padre" -, acabou por se afastar do caminho que seguiu durante alguns anos a ensinar línguas e estudos sociais.

"Eu gostava de política, de ouvir, de ler e, quando fui para a universidade, meti-me em várias campanhas locais. Já depois de ser professor, envolvi-me na campanha para governador do Michael Dukakis (que venceu, em 1982) e voltei a trabalhar com ele em 1988 quando foi candidato presidencial; até que achei que era melhor ser eu eleito do que estar só a ajudar os outros. E eventualmente ganhei."

O "eventualmente" é um dos poucos tiques que se lhe apanham no discurso, a denunciar que nos últimos 47 anos a língua lhe deixou de ser costumeira. Mas à mesa reconhece-se bem português - "exceto com espinhas e cabeças de peixe a olhar para mim. Nisso sou completamente americano". Nada que o faça hesitar quando vê a sopa de peixe na ementa, mas o suficiente para o deixar apreensivo quanto ao arroz de peixe à poveira. Eu escolho o rim salteado e ele acaba por se decidir pelas iscas, que são coisa que não se come por lá. Batatas fritas para os dois.

Para já, não está nos seus planos voltar a dar aulas. Talvez gostasse de o fazer mais para a frente, na universidade, mas "o liceu está um bocado diferente hoje, é complicado ensinar, educar". É nos desafios da política que está concentrado. Em novembro volta a ir a votos (New Bedford é o seu círculo eleitoral) e será reeleito - não é presunção, simplesmente não tem oposição desde 2008. "Acredito que é porque temos feito um bom trabalho. Gosto imenso de fazer isto. É complicado, é trabalhoso, mas é quase uma extensão de estar numa aula; fazer política é ensinar, melhorar, inspirar, é tentar influenciar o presente e o futuro de forma mais global."

E ir além da Câmara dos Representantes é um objetivo? "Se houver oportunidades... talvez o congresso federal". Também gostaria de ser mayor - tentou em 2011, mas perdeu e aponta a onda anti--imigrantes e a falta de bases como motivos para a sua derrota. "Não é fácil concorrer nos Estados Unidos quando não se nasce lá. Falta-nos aquela rede de amigos fundamental, que vem desde a escola primária, os grandes apoiantes que estarão sempre connosco mesmo que não gostem de alguma coisa. Ainda sinto um pouco falta disso."

Dou-lhe tempo para ir comendo a sopa, que já deve ter arrefecido, vítima da conversa animada. Quero saber se entende que esse preconceito exista num país cujos bisavós eram todos imigrantes. Justifica-o com as crises, em que se perdem muitos trabalhos - não pelo facto em si, mas porque há várias forças políticas que usam isso de forma populista, que acicatam trabalhador contra trabalhador para encontrarem apoiantes. "Trump tem-no feito."

Falar no candidato republicano apaga-lhe sempre o sorriso dos lábios e dos olhos. Mesmo que hoje não acredite que Donald Trump possa vencer. "Não depois do vídeo de sexta-feira. Aquilo foi extremamente ofensivo, é inconcebível, como se pode atuar assim. Eu não fui criado dessa maneira, é repugnante. Já nem no homem da oficina é aceitável aquela atitude, e ele é candidato à presidência. Mesmo que os republicanos não queiram, ele representa-os... Mas depois do vídeo, ele ficou atrás em todos os swing states. Não vejo como possa haver caminho para ele ganhar."

O molho a borbulhar nos pratos de barro é a desculpa perfeita para pedirmos vinho. Meia de tinto da casa, confirmada a qualidade - "os de 12º não são bons, franceses ou portugueses, a graduação é importante. 13,5º já é bom".

Voltamos a Trump: seria grave ele ganhar, ou as estruturas impedi-lo-iam de fazer grande parte do que ameaça? "Isso é verdade, costuma dizer-se que os presidentes mudam mas o state department não. Há uma certa linha de pensamento e atuação que o state department tenta manter coerente, mesmo para dar garantias aos nossos aliados, influenciando a posição do presidente. Em geral, conseguem fazê-lo. E deve ser assim, porque são peritos. Mas não vejo como Trump possa ganhar, até porque os americanos veem bem o que ele é. Até pode ir buscar votos a alguns haters, mas Hillary vai ser presidente."

Ele, que cresceu rodeado de mulheres fortes, acha que já era altura de ter uma mulher à frente do país. E nem é tanto por uma questão de igualdade de género. "As mulheres tomam melhores decisões do que os homens, têm outra maneira de ver e resolver. Enquanto secretária de Estado, Hillary preferiu sempre a diplomacia e o diálogo ao confronto. Os homens arregaçam logo as mangas." À candidata democrata não poupa elogios. Diz que é extremamente competente e diz que "não há ninguém na história recente dos EUA que tenha concorrido com a experiência e os skills que ela tem. Isso é reconhecido nos EUA e no mundo, até os republicanos o dizem. Ela é singular nesse aspeto". O facto de a experiência governativa de Hillary Clinton ter sido usada como arma de arremesso contra ela por Trump não o desanima: "Uma pessoa sozinha, mesmo como senadora por Nova Iorque, não pode resolver tudo."

Admite que tantos anos de vida pública - até como primeira-dama ou, antes disso, como ativista que foi desde a universidade, a defender os direitos das famílias, das crianças, dos deficientes - trazem algum desgaste. Mas diz que Trump está confundido quanto ao poder que uma pessoa só pode ter: "Isto não é uma ditadura - com ele seria, talvez... Em democracia é preciso o apoio da maioria para resolver as coisas. E os votantes são atentos e entendem isto."

Tony Cabral acredita que o Partido Republicano vai ter uma grande derrota. "Eles estão extremamente preocupados com o efeito que isto pode ter no congresso federal, onde podem perder uma grande fatia da maioria. A maioria republicana no Senado está em perigo. Na câmara dos representantes será mais difícil cair tanto, mas também aí vão perder lugares."É por isso que diz que "o Partido Republicano vive uma das maiores crises desde a sua fundação". Como é que deixaram que Trump fosse candidato? A explicação é simples: "Ele conseguiu a nomeação para as primárias indo buscar o medo, o rancor e o discurso populista. O fenómeno não é diferente do que se passa aqui na Europa - na Grécia, em Espanha, em França. E estou convencido de que mesmo depois da derrota esse discurso vai continuar a ser parte do debate nos EUA."

A conversa flui para o que a eleição de Hillary pode fazer pela igualdade de género. Tony Cabral acredita que ter uma mulher a liderar os Estados Unidos vai ajudar outras a chegar mais longe nas empresas, a lugares de topo, e que isso vai ter um impacto tremendo não só no governo mas no país e no mundo. "Vai enriquecer-nos economicamente, culturalmente, vai ajudar a garantir o respeito pelas mulheres jovens, que não são objetos, que sabem pensar e tomar decisões. A eleição dela vai significar ter mais mulheres na mesa-redonda, nos centros de decisão. Representa tanto de bom que é fundamental agarrar esta oportunidade."

Di-lo também pela filha, de 7 anos, que tem aulas de português duas vezes por semana e está num colégio, apesar de o pai ser um defensor da escola pública - é uma das suas bandeiras e está empenhado em melhorá-la, "mas não podia esperar que estivesse suficientemente bem para pôr a minha filha na escola". Conta que a filha tem uma personalidade muito forte. "Diz-me muitas vezes: eu sei que não vou ser a primeira, mas vou ser presidente dos Estados Unidos! É também por isto que é importante a vitória de Hillary." O filho mais velho, de 40 anos, também aprendeu e fala português, mas "à americana", e garante que "os irmãos são muito amigos, desde que ele faça o que ela quer..."

As iscas e as batatas às rodelas, bem estaladiças, não o desiludiram - "Está muito bom!" - e o vinho acompanha bem. Pergunto-lhe se Hillary poderá ter uma nova abordagem, mais eficiente, na resolução do problema do Estado Islâmico. Tony acredita que sim. "A única maneira de resolver o problema é não sermos nós contra eles. Não pode ser um confronto, uma guerra, temos de trazer para o nosso lado os países centristas islâmicos - Hillary fala disto, de trazer para o nosso lado essa coligação de países islâmicos, isolar os extremistas."

Sublinha que nessa missão há um papel importante a desempenhar pela NATO e pela ONU. E espera que António Guterres, apesar de não ter uma tarefa fácil, seja "um líder com visão, que consiga reunir as várias forças no mundo, para que as Nações Unidas recuperem o que perderam com a liderança desastrosa de Ban Ki-moon". "Perdeu-se prestígio, influência, deixou de ser um bom parceiro para resolver situações. Deixou de se contar com ele. Guterres tem a grande oportunidade de pôr em marcha uma liderança diferente, que também inclua mais mulheres em posições de decisão." Do que conhece do novo secretário-geral, acredita que chegará longe. "Quando foi primeiro-ministro, nós nos Estados Unidos sentimos que ele fez um grande trabalho a estabelecer pontes. A comunidade luso-americana tem a grande responsabilidade de ajudar a criar um ambiente em que Portugal possa beneficiar das ligações com os Estados Unidos, e o governo dele tentou fazer trabalho nesse sentido. Tenho boas recordações dessa altura."

Os pratos já estão vazios, mas Tony Cabral não tem pressa - só precisa de chegar à Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) ao fim da tarde, para o debate sobre presidenciais americanas que o trouxe a Lisboa. Cafés pedidos (descafeinado para ele), explica que tem sete pessoas no gabinete e que, apesar de ser de Humanidades, é ele que gere a pasta financeira - fundos, obrigações e orçamento. "Quando o speaker me indicou, tive de ir estudar - estamos a falar de biliões de dólares -, mas aprendi e gosto; isto tem um impacto tremendo no Estado."

Antes de irmos, peço-lhe que identifique o pior da administração Obama, em vésperas de chegarem ao fim os oito anos de mandato. Diz que era impossível ir mais longe tendo o congresso controlado por republicanos. "Os grandes sucessos domésticos foram nos primeiros dois anos, quando o congresso era democrata." Quanto ao melhor, não tem dúvidas: o Obamacare. "Há necessidade de rever algumas cláusulas e consertar o que não funciona, mas é natural que um processo que pretende estabelecer o acesso universal à saúde tenha complicações, entre elas o custo para o Estado. Mas antes, uma pessoa com cancro ou com doença crónica podia ir à falência. A seguradora não lhe faria um seguro que cobrisse esses problemas. Com o plano de saúde de Obama isso deixou de ser possível, as seguradoras já não podem excluir doenças do seguro, têm de cobrir tudo. Foi uma grande vitória."

Farta brutos

› Entradas

› Água

› 1/2 vinho tinto da casa

› Sopa de peixe

› Iscas na frigideira

› Rim salteado

› 2 cafés

Total: 60,80 euros

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