"Não há barreiras nem diferenças sociais"

Francisco Mota é padre jesuíta e o capelão do acampamento

Faz parte do primeiro campo d"Os Gambozinos, que aconteceu há 21 anos. Foi isso que despertou em si a vocação para ser padre jesuíta?

Indiretamente sim. Uma parte grande da minha vocação como padre vem de ter sido desafiado, surpreendido pela normalidade dos jesuítas que conhecia nos campos de férias e que era diferente dos outros padres com quem estava no dia-a-dia. Acho que foi isso que me atraiu. A normalidade que primeiro atrai, depois me aproxima e depois fala de Deus.

O que é que se encontra aqui e em campos de férias como este?

Os Gambozinos são uma das coisas mais impressionantes que a igreja faz em Portugal. Durante 10 anos oferecem a crianças que vêm de realidades muito diferentes a possibilidade de viverem de uma maneira onde não há barreiras e não há diferenças, não interessa de quem se é filho, a que escola se vai, onde se passou férias no ano anterior ou se alguma vez se passou férias. Oferecem esta maneira de olhar para o mundo, onde aquilo que interessa não é o que se tem em casa mas quem é a pessoa que está na tenda ao lado. E isso é uma coisa que na nossa sociedade não temos oportunidade para fazer. Há sempre barreiras e catalogações. Aqui não há nada disso.

Acredita que o campo transforma os miúdos enquanto pessoas?

Acho que isto transforma a nossa sociedade. Isto é um projeto de pequeníssima escala. Mas aquilo que a Igreja sonha para o mundo é isto. Este é um modelo absolutamente desconhecido, mas perfeitamente disseminado e no qual a Igreja trabalha. Em Portugal, a quantidade de centros de dia, lares de idosos, jardins-de-infância, sopas de pobres, é impressionante. E é também impressionante como tem pouco impacto, como se conhece pouco a importância que tem. Os Gambuzinos são uma associação um bocadinho diferente, que não oferece apenas ajuda de emergência, mas trabalham na educação e formação do que vai ser o futuro destas crianças. Mas isso a igreja faz de outras maneiras noutros sítios. O que nós temos de absolutamente distintivo é tornar explícito para estes miúdos que o nosso desejo de transformar a sociedade nasce da fé.

Porque é que é essencial estar junto a um rio e não a uma praia?

Porque temos muitos miúdos que estão habituados ao mar. Acontece que muitos nadam pior do que dizem e vir com eles para um local como este tem de ser um risco calculado.

E esses cuidados existem em outras situações?

Sim. Na cozinha, por exemplo, as refeições que oferecemos têm uma parte grande de educação. A quantidade de miúdos que diz que não gosta é incrível. Portanto é preciso ter uma transição para ir ajudando a comer coisas novas, o mesmo se passa com os jogos e as conversas. É preciso desinstalar um bocadinho do género de vida de onde estes miúdos vêm.

Exclusivos