Na Figueira da Foz a palavra de ordem é "desospitalizar"

Hospital terá dois apartamentos onde doentes poderão ser tratados sem internamento. Projeto pode ser replicado pelo país

Poucos metros separam o edifício principal do Hospital Distrital da Figueira da Foz (HDFF) do bairro do hospital, na mesma rua. Há mais de 20 anos que aqueles prédios convivem, mas só a partir de agora vão estar para sempre ligados - quando entrar em funcionamento o protocolo para a criação de duas residências hospitalares, uma para beneficiários da habitação social, outra para doentes que vão de outras cidades para serem tratados num hospital à beira-mar. "Todos os hospitais deveriam ter esta vista", ouve-se muitas vezes por ali, sobretudo os doentes que vêm de fora. E por serem cada vez mais, o hospital foi amadurecendo o "conceito de desospitalizar", como lhe chama Pedro Beja Afonso, presidente do conselho de administração. "Acredito que seja pouco comum uma câmara municipal colocar à disposição de um hospital uma das suas residências sociais", diz ao DN aquele responsável, enquanto faz o trajeto entre os dois edifícios: o do hospital (que começou por ser um sanatório, e que este ano faz 45 anos) e um dos blocos do bairro social que ali nasceu em 1998.

Entre a primeira conversa e a assinatura do protocolo tripartido (HDFF, câmara e a empresa municipal Figueira Domus, que se dedica à habitação social naquele concelho) mediaram alguns meses. Em novembro, as três entidades oficializaram um acordo que agora começa a tomar forma.

O projeto contempla dois apartamentos, cada um com três quartos - um da responsabilidade da empresa municipal, em que o hospital apenas intervém ao nível da orientação nas regras de higienização, e outro da responsabilidade do HDFF. Esse não será utilizado exclusivamente para beneficiários de apoio social, mas antes "uma residência virada para o utente do hospital e para o seu cuidador", explica Pedro Afonso. Antes de chegar à Figueira da Foz, passou por centros hospitalares de grandes dimensões, o que lhe permite entender melhor o fator proximidade, que naquele hospital está na base de muitos projetos. E este, acredita, é mais um que assenta nesse conceito que a administração persegue, o de "desospitalizar. No fundo é tirarmos os doentes do hospital, quando podem fazer tratamentos de ambulatório e não necessitam de ficar internados. Há muitos doentes que estão nos hospitais, que se criarmos condições de comodidade, proximidade, e se tiverem cuidador, poderão estar numa residência mais humanizada e com outro tipo de conforto, e virem fazer a antibioterapia ao hospital, ou outro tipo de tratamento por via endovenosa". Os beneficiários das residências serão, por exemplo, os doentes que façam medicação endovenosa de 8 em 8 ou 12 em 12 horas. Ou os que fazem tratamentos de oncologia ou de fisioterapia.

Humanizar os cuidados de saúde

O administrador está certo de que esta será uma medida centralizada no doente, "que humaniza o cuidado e dá segurança aos cuidadores". Nos dois apartamentos haverá um telefone ligado diretamente aos serviços do hospital, para qualquer dúvida ou percalço. De resto, a medida não só está isenta de custos (as obras ficam a cargo da Figueira Domus e o equipamento será assegurado por patrocinadores) mas também permite alguma "eficiência", como lhe chama Pedro Afonso. "O doente no hospital requer outro tipo de recursos, que assim não acontecem. E dessa forma podemos aplicá-los naqueles que efetivamente precisam. Porque uma cama ocupada num hospital é sempre uma cama com os custos de hotelaria, higienização, cuidados de enfermagem." Destinado a uma população na ordem dos 110 mil habitantes, o HDFF integra 154 camas nos diversos serviços.

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