Morreu este sábado, aos 89 anos, um dos principais responsáveis por aquela que é considerada uma das maiores vitórias da saúde pública mundial: a erradicação da varíola.O contributo decisivo do médico e epidemiologista norte-americano William Foege aconteceu nos anos 60, quando trabalhava como missionário médico na Nigéria. Numa altura em que a varíola já tinha sido eliminada dos Estados Unidos, a doença continuava a matar noutras regiões do mundo e os programas de vacinação em massa estavam a falhar.Perante a falta de vacinas suficientes, Foege e a sua equipa desenvolveram uma abordagem inovadora: a chamada estratégia de “contenção em anel”. O método consistia em identificar rapidamente cada novo caso e vacinar todas as pessoas que tivessem tido contacto com o doente, criando um “anel” de imunidade à volta do surto, lembra a Associated Press (AP).A estratégia revelou-se decisiva. Em 1977 foi registado o último caso natural de varíola, na Somália, e em 1980 a Organização Mundial da Saúde declarou oficialmente a doença erradicada. Durante séculos, a varíola tinha matado cerca de um terço das pessoas infetadas e deixado marcas profundas em muitos sobreviventes.“Se olharmos para quem salvou mais vidas, ele está ao nível dos maiores nomes da história”, afirmou Tom Frieden, antigo diretor dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, citado pela AP. “A erradicação da varíola evitou centenas de milhões de mortes.”William Foege nasceu a 12 de março de 1936. Filho de um pastor luterano, despertou cedo para a medicina, aos 13 anos, enquanto trabalhava numa farmácia em Colville, no estado de Washington. Formou-se em Medicina na Universidade de Washington em 1961 e concluiu um mestrado em Saúde Pública em Harvard, em 1965.Entre 1977 e 1983 foi diretor do CDC (Centros de Controlo e Prevenção de Doença) dos EUA, período após o qual continuou a desempenhar cargos de liderança em várias instituições internacionais, incluindo o Carter Center e a Fundação Bill e Melinda Gates. Em 2011 publicou House on Fire, livro em que relata os bastidores do combate global à varíola.O reconhecimento pelo seu trabalho chegou também ao mais alto nível político. Em 2012, o então Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, atribuiu-lhe a Medalha da Liberdade, a mais alta distinção civil do país. Quatro anos depois, ao conceder-lhe um doutoramento honoris causa, a Universidade de Duke descreveu-o como “o pai da saúde global”.“Bill Foege tinha um compromisso incansável com a melhoria da saúde das pessoas em todo o mundo, através de coligações fortes e orientadas por um propósito claro, sustentadas pela melhor ciência disponível”, sublinhou Patrick O’Carroll, diretor executivo da Task Force for Global Health, ONG de que foi fundador, em comunicado citado pela AP. “Tentamos honrar esse compromisso todos os dias.”Na rede social X, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Ghebreyesus lamentou "profundamente o falecimento do Dr. William H. Foege, um eminente especialista em saúde pública cuja liderança, competência e compromisso ajudaram a proteger a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo". "O Dr. Foege foi fundamental no esforço global para erradicar o flagelo da varíola", sublinhou o diretor-geral da OMS,lembrando ainda que "a sua liderança nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, bem como a sua forte parceria e solidariedade com a comunidade, foram inegáveis".