Morreu o padre jesuíta José Martins, que viveu em Timor-Leste desde 1974

José Martins, que chegou a Timor-Leste um ano antes da ocupação indonésia, viveu sempre no território, tendo-se tornado uma das vozes críticas à ocupação indonésia, sendo reconhecido pelo apoio que deu à resistência timorense.

O padre jesuíta português José Martins, que viveu em Timor-Leste desde 1974, e foi uma das vozes da igreja que mais contestou a ocupação indonésia, morreu esta segunda-feira num hospital em Portugal, confirmou fonte da sua congregação em Díli.

A fonte explicou à Lusa que José Martins, 80 anos, morreu no Hospital de Vila Franca de Xira.

Martins, que chegou a Timor-Leste um ano antes da ocupação indonésia, viveu sempre no território, tendo-se tornado uma das vozes críticas à ocupação indonésia, sendo reconhecido pelo apoio que deu à resistência timorense.

"Assumi como convicção que Timor e o povo um dia seriam independentes. A resistência durou 24 anos, mas podia durar 50, o povo de Timor jamais aceitaria a integração na República da Indonésia", disse numa entrevista em 2016 à agência Ecclesia.

Apesar da invasão optou por ficar, sendo uma das figuras da igreja em Timor-Leste , ao lado do padre João Felgueiras, que no ano passado completou 100 anos, mais conhecidas em Portugal.

"Sentia-me cobarde se abandonava o povo entregue a si mesmo. Nunca me arrependi. Várias vezes senti a irmã morte ao meu lado. Não estou arrependido do que vivi", comentou.

A viagem para Timor-Leste surgiu quando tinha 33 anos e foi convidado, depois dos estudos em Roma, para se deslocar ao território durante dois anos, na altura como diretor espiritual para o seminário diocesano então responsabilidade da Companhia de Jesus.

Completou os estudos em Teologia Espiritual no Instituto de Espiritualidade da Universidade Gregoriana e, em Díli, iniciou funções no Seminário diocesano de Nossa Senhora de Fátima, em Dare.

José Martins chegou ao país em 23 de setembro de 1974 e desde aí viveu sempre em grande proximidade à população timorense, de quem destacou sempre o "carinho especial" e a "simplicidade e hospitalidade".

Correndo o risco de expulsão do país, chegou a apoiar diretamente a guerrilha, tendo escondido no seminário um rádio transmissor, que transportou desmontado em peças, depois de ter conseguido passar pelos postos de controlo em Jacarta e Díli sem ser descoberto.

Em 13 de dezembro de 1975, poucos dias depois da invasão indonésia, o Seminário de Nossa Senhora de Fátima foi bombardeado.

Em 1978, juntamente com o padre João Felgueiras, reabriu o seminário num edifício dos arredores de Dili, chamado Externato de S. José, onde viveu até 1991.

O rosto de José Martins e as suas declarações acabaram por ganhar mais dimensão durante 1999, quando fez repetidas declarações a jornalistas portugueses que acompanharam o referendo em que os timorenses escolheram a independência.

O padre José Martins foi condecorado em 2012 com a medalha da Ordem Dom Martinho Lopes e, em 2016, com a medalha da Ordem de Timor-Leste, atribuídas pelo Estado timorense.

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