Gracindo Junior e a família em Póvoa de Lanhoso, quando fizeram uma reidêcia artística na vila, em 2012.
Gracindo Junior e a família em Póvoa de Lanhoso, quando fizeram uma reidêcia artística na vila, em 2012. FOTO: Leonel de Castro / GI

Morreu Gracindo Júnior, o cavalheiro discreto do pequeno ecrã brasileiro

Tinha 83 anos e morreu em casa, no Rio de Janeiro. Filho do mítico Paulo Gracindo, esteve na fundação da TV Globo, dividiu o ecrã com o pai e construiu uma carreira pautada pelo rigor cénico.
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O ator e realizador brasileiro Gracindo Júnior morreu na noite de terça-feira, aos 83 anos, na sua residência em São Conrado, no Rio de Janeiro, de causas naturais. A confirmação oficial foi transmitida na manhã desta quarta-feira (2 de setembro) pelo filho, o músico Pedro Gracindo, ao portal brasileiro G1, horas após o ator Leonardo Brício ter anunciado em primeira mão nas redes sociais que acompanhara os últimos instantes de vida do veterano artista ao lado da família.

"Ele partiu sereno, cercado por quem o amava", relatou Leonardo Brício numa publicação emotiva no Instagram, amplamente citada pelos portais UOL e Notícias da TV. Os dois intérpretes haviam criado uma ligação quase filial desde que contracenaram como pai e filho na telenovela Cidadão Brasileiro (2006). As cerimónias fúnebres decorrem na quinta-feira, 3 de setembro, na capela do Cemitério e Crematório da Penitência, na zona portuária do Caju, onde o corpo será cremado.

Gracindo Junior por volta dos 37 ou 38 anos, no papel de Cláudio na telenovela 'Plumas e Paetês' (1980-1981), da TV Globo
Gracindo Junior por volta dos 37 ou 38 anos, no papel de Cláudio na telenovela 'Plumas e Paetês' (1980-1981), da TV Globo FOTO: imdb.com

Nascido Epaminondas Gracindo Júnior a 21 de maio de 1943, no Rio de Janeiro, trazia na certidão de nascimento o peso de um dos maiores vultos da representação brasileira: o pai, Paulo Gracindo (1911–1995), o eterno Odorico Paraguaçu. Contudo, desde muito cedo recusou a condição de mero herdeiro dinástico.

Estreou-se no teatro amador antes de cumprir 20 anos e, em 1965, integrou o elenco pioneiro que inaugurou as emissões regulares da TV Globo. Esteve nas primeiras telenovelas diárias da estação da família Marinho, como Rosinha do Sobrado e A Moreninha, quando o formato ainda se debatia com o direto e a precariedade técnica.

O momento de viragem e consagração deu-se na década de 1970. Em 1973 participou em O Bem-Amado, de Dias Gomes, mas foi em 1976 que protagonizou um dos exercícios mais poéticos da história da televisão de língua portuguesa: em O Casarão, de Lauro César Muniz, interpretou o impetuoso João Maciel na juventude, enquanto o seu pai, Paulo Gracindo, dava corpo à mesma personagem na velhice. A transição de planos e a cumplicidade entre ambos transformaram a narrativa num marco indiscutível de representação intergeracional.

Com uma presença de porte aristocrático e uma dicção pausada, Gracindo Júnior tornou-se uma figura familiar para o público português a partir da viragem para a década de 1980 e 1990. Integrou o elenco de sucessos estrondosos exportados para a RTP e para a SIC, como Rainha da Sucata (1990), no papel de Saldanha, e Deus Nos Acuda (1992). Mais tarde, em 2003, regressaria ao horário nobre da Globo como o carismático Ubaldo Quintela em Celebridade, de Gilberto Braga.

Atrás das câmaras, revelou uma versatilidade rara. Entre 1983 e 1984, assumiu a direção-geral de Os Trapalhões, orquestrando o humor físico e anárquico do quarteto liderado por Renato Aragão com uma disciplina quase teatral. No palco, encenou dezenas de textos clássicos e contemporâneos, recusando sempre o facilitismo da fama televisiva.

Na maturidade, em 2006, aceitou o repto de liderar a refundação da teledramaturgia da TV Record. Como o austero coronel Antônio Maciel em Cidadão Brasileiro, assinou uma das atuações mais aplaudidas da sua carreira madura, seguindo-se papéis de destaque em produções como Poder Paralelo (2009) e Ribeirão do Tempo (2010).

Afastado dos ecrãs nos últimos anos para uma vida mais recatada, dividia os dias entre a leitura e a família. Deixa viúva a realizadora e produtora Daisy Poli, com quem viveu cinco décadas, e quatro filhos: a atriz Daniela Duarte (do seu primeiro casamento, com Débora Duarte) e Pedro, Gabriel e Yan Gracindo, além de vários netos.

A cumplicidade com Portugal: do refúgio no Minho ao adeus em Ouro Verde

A ligação de Gracindo Júnior ao público português foi muito além da condição de espetador passivo das novelas da TV Globo. Ao longo de quase quatro décadas, o ator e encenador cruzou o Atlântico em momentos cruciais do seu percurso, deixando marcas nos palcos e na própria ficção televisiva nacional.

O primeiro grande contacto deu-se logo após a explosão de popularidade de O Casarão, na transição dos anos 1970 para os anos 1980. Convidado a trabalhar em Lisboa, Gracindo Júnior assumiu o papel de encenador para dirigir a montagem portuguesa de «É», a comédia dramática de Millôr Fernandes que dissecava com sarcasmo os dilemas morais e as convenções da classe média urbana.

Décadas mais tarde, em março de 2012, o ator escolheu o norte do país para um dos projetos mais íntimos e afetivos da sua vida artística: homenagear o centenário do nascimento do seu pai, Paulo Gracindo.

Durante várias semanas, a família instalou-se em residência artística na Póvoa de Lanhoso, ocupando o histórico Theatro Club. Ali, ao lado de dois dos seus filhos – os atores e músicos Gabriel e Pedro Gracindo –, trabalhou sob o olhar e o texto do dramaturgo galego Moncho Rodriguez no espetáculo Canastrões. A peça, que cruzava as memórias de três gerações da dinastia Gracindo com a tradição dos comediantes itinerantes, contou com o apoio do município minhoto e da Fundação Luso-Brasileira, tendo partido da Póvoa de Lanhoso para uma digressão por salas portuguesas como o Cine-Teatro de Estarreja e o Teatro Cinema de Fafe, antes de rumar ao Brasil.

Ao contrário do que a memória de muitos sugeria, a passagem pelo Minho em 2012 não foi o seu adeus definitivo a Portugal. O derradeiro regresso a estúdio deu-se entre 2016 e 2017, quando aceitou o convite da TVI e da Plural Entertainment para integrar a superprodução Ouro Verde, escrita por Maria João Costa.

No papel do coronel Januário Cavalcantti – a figura patriarcal que acolhe e molda o destino do protagonista Jorge Monforte (Diogo Morgado) –, Gracindo Júnior gravou entre Lisboa e a Amazónia. A produção viria a conquistar o prestigiado Emmy Internacional de Melhor Telenovela e inscreveu-se na história da sua carreira como a última participação de sempre do veterano ator no formato do pequeno ecrã.

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