Morrer no ar. O que fazem as companhias aéreas aos corpos?

São casos raros mas por vezes acontecem - um passageiro morre durante o voo. Quem decide o que fazer a seguir são os assistentes e comissários de bordo

São casos raros mas por vezes acontecem - às vezes um passageiro morre durante o voo. Ataques cardíacos ou problemas respiratórios são das principais causas de morte de passageiros no ar, segundo a Quartz, e o acontecimento levanta sempre uma questão: o que se faz com o corpo?

Legalmente, "não se pode decretar a morte, apesar dos sinais que podem ser interpretados pelo senso comum", explica Carlos Amoroso, presidente da Associação Portuguesa de Tripulantes de Cabine. É necessário que um médico, ou alguma outra autoridade, examine o passageiro em terra para que ele seja dado oficialmente como morto.

Várias companhias aéreas revelaram que não têm um guia sobre que fazer nesta situação, o que deixa os assistentes de bordo com a responsabilidade de lidar com cada caso individualmente, segundo a Quartz.

Para Carlos Amoroso, o mais importante é "resguardar o corpo e o resto dos passageiros" e manter "o respeito e a privacidade".

Carlos Amoroso, que também é comissário de bordo, relembra um caso em que um comissário de bordo fez reanimação durante três horas a um passageiro que tinha "um historial clínico complicado". O avião foi obrigado a aterrar de emergência, antes de chegar ao destino, e o passageiro foi encaminhado para um hospital, onde foi declarado como morto.

O comissário de bordo afirmou que casos destes não são frequentes. Em 20 anos de serviço apenas foi confrontado com um. Há uma emergência médica em cada 600 voos, segundo T. J. Doyle, o diretor do serviço médico de companhias aéreas da Universidade de Pittsburgh, Estados Unidos.

A Singapore Airlines afirmou que quando acontece, geralmente o cadáver é colocado numa fila de bancos que esteja vazia e tapado com um cobertor. Esta companhia aérea passou por esta situação em janeiro deste ano, quando um passageiro morreu numa viagem entre Nova Deli e Singapura.

"Se não houver uma fila disponível, o corpo do passageiro é deixado no lugar onde estava sentado", afirmou a porta-voz da Singapore Airlines à Quartz. "Os passageiros sentados ao lado do morto são colocados noutro lugar disponível".

Em 2004, o jornal The Guardian revelou que alguns aviões da Singapore Airlines para viagens de longas distâncias tinham um compartimento especial para colocar passageiros que morressem durante o voo, caso não houvesse uma fila de bancos disponível. Na altura, a companhia aérea tinha voos de 18 horas e de 17 horas, mas os compartimentos nunca chegaram a ser utilizados.

"Em cada caso é feita uma gestão no sentido em que o corpo possa estar mais afastado possível" dos restantes passageiros, explica Carlos Amoroso. O comissário defendeu que tudo tem de ser feito para que o voo continue "com tranquilidade", mas "cada caso é um caso".

A British Airways explica que esta situação está numa "área cinzenta". No documentário "A Very British Airline", uma instrutora de um curso para assistentes de bordo explicou que a única coisa que não se pode fazer é colocar o passageiro morto na casa de banho.

"É uma falta de respeito e eles não ficam presos durante a aterragem", explicou a instrutora da British Airways. "Se eles escorregam, o que pode acontecer facilmente durante a aterragem, eles ficam no chão" e presos, porque as portas das casas de banho abrem para dentro. "Seria necessário desmontar o avião para os retirar de lá", continua.

A instrutora confessou ainda que antes a tripulação fingia que o passageiro tinha bebido de mais e que estava apenas a dormir. "Dávamos-lhes vodka e água tónica, um jornal e óculos de sol e fingíamos que estava tudo bem", contou, acrescentando que já não fazem isso.

A Associação Internacional de Transportes Aéreos aconselha a mover o passageiro que morreu para alguma fila de bancos com menos passageiros, e passar os outros passageiros para a primeira classe, ou colocar o corpo na cozinha do avião.

Notícia alterada às 12:10 horas: corrigido o nome da Associação Portuguesa de Tripulantes de Cabine

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