Miúdos de Pedrógão em Lisboa: cientistas por uma semana

Escola Ciência Viva, que junta experiências, diversão e muita criatividade, acolhe 39 alunos de Pedrógão Grande e da Graça

O sabor dos alimentos tem muito que se lhe diga e não há nada como experimentar para perceber. Por exemplo, provar duas tostas iguais, mas de olhos vendados e a ouvir um som diferente da cada vez. Será que o sabor é diferente? Divertida, Lara, 9 anos feitos esta segunda-feira - parabéns Lara! -, aluna do 3.º ano da Escola EB1 de Pedrógão Grande, fez a experiência, e verificou que não. O sabor é igual e foi isso que escreveu com letra bem desenhada na ficha das experiências que ela e Diego, também do 3º ano, mas da EB1 da Graça, lá perto, partilharam na Cozinha é um Laboratório - uma das atividades da Escola Ciência Viva, no Pavilhão do Conhecimento.

Esta semana, Lara, Diego e outros 37 alunos dos 3º e 4º anos dos agrupamentos de escolas de Pedrógão Grande e da Graça têm os dias bem preenchidos e vão de novidade em novidade, sem nunca parar. Ontem, logo pela manhã, aprenderam em tablets como levar um robô digital a fazer um percurso no écran.

"O robô não sabia o caminho sozinho e nós demos-lhe instruções", explica com desembaraço a pequena Luciana, em resposta a uma pergunta da professora Alexandra Sousa, que coordena Escola Ciência Viva há cinco anos.

Feita a "iniciação ao código", ou programação, diz Alexandra Souza, "a ideia é trabalhar depois com robôs de Lego". E serão os miúdos que hão de pô-los a fazer percursos, para cá e para lá, e a piscar luzes e, com isso, aprender muito pelo caminho. Nesta semana de escola no Pavilhão do Conhecimento é quase tudo diferente. Ali há robôs e códigos para os comandar, microscópios para espreitar, experiências com sabores, e as respetivas fichas para registar as observações, há um encontro com um cientista a quem se pode fazer perguntas e ainda muitas experiências e atividades nas várias exposições interativas do pavilhão.

"As crianças são continuamente chamadas a intervir, a fazer perguntas, a perceber o que está por detrás das coisas e a testá-las", resume Rosalia Vargas, diretora da Ciência Viva e do Pavilhão do Conhecimento. "É um processo de aprendizagem muito estimulante, fundamental na Escola Ciência Viva. As crianças não podiam estar mais de acordo. Vê-se isso nos seus rostos atentos, nos olhos cheios de curiosidade, e elas dizem-no abertamente.

Matilde, por exemplo. "Não sabia que era assim", confessa feliz. Aluna do 4º ano em Pedrógão Grande, nove anos veio porque o pai insistiu. "Disse-me que era uma oportunidade". Agora vê que sim. "É muito giro, não sei bem explicar, estou muito contente", diz com um grande sorriso. Filha e neta de madeireiros, Matilde toma a iniciativa de falar dos incêndios - e a sua expressão altera-se. "Ardeu ao lado da minha casa, ardeu a madeira toda, o meu pai ficou sem um pau verde para cortar", conta de chofre. Mas logo depois muda de tema, porque ali, naquela escola, as solicitações não param. "Ontem andei numa bicicleta voadora, nunca pensei que isso existisse, hoje estivemos a medir pesos, consegui levantá-los todos, e no papel que nos deram li que vamos ao Oceanário, estou muito contente, nunca fui lá", conta.

Elliot, de nove anos, aluno do 4º ano na Graça, é inglês, veio há quatro anos para Portugal, com os pais. Vive há dois na Atalaia Fundeira - vai de bicicleta para a escola com a mãe -, mas também andou na escola em Inglaterra e tem opinião formada: "A escola mais gira é da Ciência Viva, porque aqui também nos divertimos, não é só trabalhos". Lara concorda. "Nunca tinha feito nada disto", diz ela. "É muito fixe, porque aprendemos e também nos divertimos". Elliot, por exemplo, aprendeu que "o som são ondas a vibrar", e ficou impressionado com a descoberta. E Matilde percebeu que "existem regras", mas que isso não tem de ser chato. Nunca tinha aprendido tanta coisa como ontem e hoje, e ainda vou aprender mais", garante.

Escola Ciência Viva expande-se no país

A Escola Ciência Viva, que há oito anos acolhe todas as semanas um novo grupo de alunos do básico, recebeu pela primeira vez crianças de fora de Lisboa. Já havia essa ideia e depois dos trágicos incêndios, a escolha recaiu sobre escolas de Pedrógão Grande. "Era nossa missão responder também ao movimento de solidariedade que o país mostrou por essa região tão massacrada", diz Rosalia Vargas. "É uma experiência única para os alunos e para nós", sublinha, radiante, a professora Ana Paula, da EB1 de Pedrógão Grande. A partir do próximo ano letivo, a escola expande-se e passa a funcionar também nos Centros Ciência Viva de Bragança, Aveiro, Coimbra, Proença-a-Nova, Alviela e Lagos.

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