Ministério da Educação quer fixar professores em concurso de 2024

"No concurso de 2024 todos poderão concorrer a todos os lugares", começou por explicar João Costa.
Publicado a
Atualizado a

O Ministério da Educação quer que todos os professores possam concorrer a uma escola em 2024, e depois só abrirá vagas onde faltem docentes, interrompendo o processo de "deslocalizar professores que estavam felizes" num estabelecimento de ensino.

Esta é uma das propostas que o ministério enviou esta manhã às estruturas sindicais com quem inicia esta quarta-feira a terceira ronda de negociações, revelou o ministro da Educação, João Costa.

"No concurso de 2024 todos poderão concorrer a todos os lugares", começou por explicar João Costa, acrescentando que, depois, "à medida que surgem vagas nas escolas, as vagas abrem e as pessoas podem concorrer" se assim o desejarem.

A tutela quer acabar com os concursos que se realizam de quatro em quatro anos aos quais estavam obrigados a concorrer todos os professores de Quadro de Zona Pedagógica (QZP) e assim "interromper este processo de deslocalizar professores que estão felizes num lugar".

Tal como acontece com a administração pública, depois só passarão a abrir vagas nas escolas onde faltam professores e só vão concorrer aqueles que pretendem mudar de estabelecimento de ensino.

Além disso, o ministério quer ainda "agilizar e aumentar" os mecanismos que permitem aos professores trocar entre si, por mútuo acordo, de escola.

Também para reduzir os casos de professores que "andam com a casa às costas", o ministério vai hoje propor aos sindicatos a possibilidade de aumentar os Quadros de Zona Pedagógica (QZP), passando das atuais 10 regiões para 63.

"Atualmente, os professores de QZP são obrigados a deslocar-se em zonas que distam entre 157 e 244 quilómetros, podendo em anos sucessivos ficar colocados em escolas dentro destas zonas", explicou João Costa.

Com o país dividido em 63 zonas, os professores que fiquem colocados no QZP terão a garantia de estar numa região muito mais pequena, já que esta redução irá permitir "uma colocação em zonas que, em 95% dos casos, ficam com distâncias máximas de 50 quilómetros", segundo o ministro.

O novo mapa permite "reduzir a distância em que os professores são obrigados a deslocar-se em alguns casos para cinco vezes menos".

A intervenção dos diretores será precisamente junto dos professores que fiquem colocados num QZP, já que poderão colocar os docentes consoante as necessidades das escolas.

"Não estamos a atribuir poderes unipessoais a diretores", garantiu João Costa, sublinhando que a "agregação de diretores não é para contratar é apenas para afetar os professores às escolas. A contratação e vinculação é sempre feita por concurso".

O ministro deu como exemplo o caso de duas escolas em Lisboa onde há falta de professores: "Não faz sentido ter aqui em Lisboa duas escolas com dois horários incompletos quando posso oferecer um horário completo, diminuindo a falta de professores".

Os diretores "terão como missão principal mapear necessidades para, por exemplo, poder reduzir horários completos", acrescentou.

Todos os professores contratados com horário completo e 1095 dias de trabalho deverão ser integrados nos quadros, segundo uma proposta do ministério da Educação que anunciou ainda que vai vincular mais de 10 mil docentes este ano.

O ministério quer que "todos os professores que já acumularam 1095 dias de serviço e que, neste ano letivo, têm um horário completo" passem a efetivos, anunciou o ministro João Costa, durante uma conferência de imprensa realizada em Lisboa algumas horas antes de arrancar a terceira ronda negocial com os sindicatos.

No caso dos professores que estão a dar aulas, mas não têm horário completo, o ministério quer avançar com um processo de "vinculação dinâmica", ou seja, conforme atingem o equivalente a três anos de serviço com horário completo, os tais 1.095 dias, podem vincular.

Atualmente, os professores só vinculam após três anos de contratos anuais e sucessivos, ou seja, bastava que num ano tivessem um horário incompleto para que tivessem de recomeçar a contar do zero.

A proposta do ministério é que se passe a contar os dias de trabalho: "Um professor com seis anos de serviço com horário de 50% perfaz os tais três anos completos", explicou.

Estes professores vão poder candidatar-se ao grande concurso que o ministério planeia abrir no próximo ano, altura em que o país já estará "dividido" em regiões muito mais pequenas, passando dos atuais 10 Quadros de Zona Pedagógica (QZP) para 63, segundo outras propostas da tutela.

João Costa lembrou que o tempo médio de integração nos quadros é atualmente de "mais de 16 anos com imprevisibilidade e instabilidade e sem percetivas de carreira ou progressão" e por isso enviou para os sindicatos um conjunto de propostas que visam "aproximar, fixar e vincular".

"Vamos colocar mais professores em lugares de quadro e diminuir substancialmente o tempo que cada professor demora a ser vinculado. A nossa intenção é vincular, já este ano, no mínimo mais 10 mil professores", acrescentou.

Para os professores que não consigam entrar para os quadros, o ministério pretende oferecer aumentos salariais.

"Reconhecemos que muitos dos professores contratados são necessidades permanentes do sistema, o que se reflete no recurso que anualmente é feito a estes profissionais", disse João Costa, recordando que apesar disso ficam "demasiados anos no 1.º escalão da carreira".

A proposta do ministério é que os contratados possam ter um ordenado equivalente ao "2.º e 3.º escalão da carreira docente", dependendo do tempo de serviço, acrescentou por seu lado o secretário de Estado, António Leite, considerando que esta proposta representa um "avanço muito significativo".

Também para evitar substituições sucessivas nas escolas, o ministério quer que os docentes com incapacidade para a docência por motivos de saúde possam ser integrados nas carreiras gerais sem perda de remuneração e assegurando aí a sua progressão.

Segundo João Costa, as medidas da tutela têm um custo de "pouco mais de 100 milhões de euros por ano".

O Ministério da Educação propôs ainda aos sindicatos reduzir o número de professores que ficam retidos no 4.º e 6.º escalões da carreira, defendendo que fiquem para trás 25% e 42% dos docentes, respetivamente.

"Até ao final da legislatura poderemos garantir a progressão de 75% dos professores para o 5.º escalão e de 58% para o 7.º", anunciou João Costa.

O ministro lembrou que as quotas para a progressão na carreira "existem em toda a administração pública, sendo a sua fixação em 25% dos trabalhadores comum às várias carreiras", enquanto noutras carreiras "a progressão é condicionada pelas vagas existentes para ascender a categorias superiores".

No caso dos professores, apenas quem tem avaliações de Excelente ou Muito Bom tem o acesso automático garantido, ficando todos os outros dependentes das vagas abertas anualmente pelo ministério.

Os professores queixam-se de existirem quotas nas escolas para atribuir as notas de Muito Bom e Excelente que os impedem de progredir automaticamente e exigem, há vários anos, o fim das vagas de acesso.

Esta é uma das reivindicações que se voltaram a ouvir nas ruas desde que os docentes iniciaram, no final do ano passado, um novo período de protestos e greves.

Mas os sindicatos têm feito outras exigências à tutela, como ter a garantia de manter a graduação profissional como critério único de recrutamento de docentes.

João Costa garantiu que o critério iria manter-se inalterado, "tal como os professores exigem".

A tutela enviou também aos sindicatos uma proposta para diminuir a dimensão das Quadros de Zona Pedagógica, que permitirá dividir mais o país, passando das atuais dez para 63 zonas.

As propostas do ministério também preveem a vinculação dos professores contratados com mais de mil dias de serviço e a criação de três índices remuneratórios para os contratados que, até agora, tinham sempre um ordenado equivalente ao 1.º escalão da carreira.

Já quanto à recuperação do tempo de serviço congelado durante a 'Troika', de que o Governo reconheceu apenas três dos nove anos, João Costa voltou a dizer não ser financeiramente possível: "Não vamos dar um passo que sabemos que daqui a dois anos não vai ter sustentabilidade. Não podemos dar um passo maior do que a perna e o que queremos garantir é que as carreiras nunca mais voltem a ser congeladas".

Segundo o ministro, o pacote de medidas enviado para os sindicatos "comporta um valor agregado de pouco mais de 100 milhões de euros".

Sem representar encargos financeiros está a proposta de reduzir as tarefas burocráticas, "eliminando documentos e plataformas que não contribuem para a qualidade do processo ensino e aprendizagem", explicou.

João Costa defendeu que as propostas hoje enviadas aos sindicatos visam "reforçar a estabilidade", reduzindo as distâncias de deslocação dos professores, conseguir que mais professores fiquem colocados em "escolas concretas e não em regiões dispersas" e "mais professores efetivos".

Atualmente, estão a decorrer três greves distintas: O STOP convocou uma paralisação que começou em dezembro por tempo indeterminado e inclui professores e pessoal não docente.

No início do 2.º período, o SIPE iniciou uma greve parcial ao primeiro tempo de aulas de cada docente, que se deverá prolongar até fevereiro. Entretanto, na segunda-feira arrancou uma greve total que se realiza por distritos durante 18 dias, convocada por uma plataforma de sindicatos que incluiu a Fenprof. A 8 de fevereiro dar-se-á por terminada e dois dias depois realizam uma manifestação nacional.

Arranca hoje a terceira ronda negocial com os sindicatos, que começa com a FNE, seguindo-se outras cinco estruturas sindicais.

Na sexta-feira, o ministério da Educação recebe durante a manhã a FENPROF e à tarde outros cinco sindicatos, entre os quais o SIPE e o STOP, duas das estruturas responsáveis pelas greves que estão a decorrer no país.

Diário de Notícias
www.dn.pt