Militares partem para a Roménia sem fatos de proteção contra ataques químicos e nucleares

Numa altura em que a utilização de agentes químicos pela Rússia na Ucrânia foi denunciada e está sob investigação e quando a ameaça nuclear faz parte do discurso de Putin, 222 militares portugueses vão integrar uma missão de "dissuasão" da NATO na Roménia sem que o Exército tenha acautelado a necessidade de equipamento de proteção contra estes agentes

O Exército não tem equipamentos de proteção contra agentes Nucleares, Biológicos, Químicos e Radiológicos (NBQR) e a Companhia de militares que partiu nesta sexta-feira para uma missão da NATO na Roménia, antecipada na sequência da guerra na Ucrânia, não os terá disponíveis para os treinos previstos com forças de outros países e a sua intervenção ficará limitada sempre que esse risco se colocar.

A grave lacuna por parte do Exército neste investimento em equipamentos de proteção individual terá apenas chegado ao conhecimento do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) a poucos dias da projeção da Companhia e apesar de terem sido feitos contactos com outras entidades para pedir emprestado esse material, tal não estava disponível.

Numa altura em que a utilização de agentes químicos pela Rússia na Ucrânia foi denunciada e está sob investigação e quando a ameaça nuclear faz parte do discurso de Putin, fontes militares admitiram ao DN que esta falha do Exército, o ramo que mais militares tem empenhado nas Forças Nacionais Destacadas (FND), causou "grande apreensão".

"Estes equipamentos de proteção pessoal fazem parte dos equipamentos de proteção para operações. Embora no atual contexto nunca se possa descartar a hipótese do uso de agentes NBQR, principalmente químicos ou nucleares táticos, o risco de ataques desta natureza é baixo na zona para onde vão estes militares - Craiova, Roménia - e por isso a decisão foi manter a data de partida, até porque todo o outro material, viaturas, etc., já está a caminho", revela uma dessas fontes que acompanha o processo.

Ameaça "negligenciável"

Questionado pelo DN se tinha conhecimento desta situação e se assumia o risco em causa, o Gabinete da ministra da Defesa, Helena Carreiras, não respondeu.

"Tendo em consideração a prevalência de ventos no local e o afastamento geográfico do país invadido, avalia-se que a ameaça NBQR no presente espaço de atuação do nosso contigente é muito baixa ou negligenciável".

Por seu turno o EMGFA confirma a situação, mas desvaloriza. "A Força Nacional Destacada para a Roménia cumpriu um plano de preparação específico, que incluiu as áreas de Sobrevivência e Proteção da Força, estando dotada dos meios considerados necessários para o cumprimento da missão atribuída. A área de empenhamento da FND fica sensivelmente a 900 km da zona leste da Ucrânia. Tendo em consideração a prevalência de ventos no local e o afastamento geográfico do país invadido, avalia-se que a ameaça NBQR no presente espaço de atuação do nosso contingente é muito baixa ou negligenciável".

O porta-voz do Chefe de Estado-Maior do Exército, General Nunes da Fonseca, repete a justificação do EMGFA: " A Força Nacional Destacada para a Roménia cumpriu um plano de preparação específico, que incluiu as áreas de Sobrevivência e Proteção da Força, estando dotada dos meios considerados necessários para o cumprimento da missão atribuída".

Não responde sobre porque não tem o Exército este equipamento essencial.

No seu discurso no Regimento de Infantaria 14, em Viseu, onde decorreu a cerimónia de outorga do estandarte nacional a esta força, o Chefe de Estado-Maior do Exército, General Nunes da Fonseca realçou o "reduzido tempo" em que foi aprontada esta força.

"A primeira força nacional destacada para a Roménia foi aprontada em circunstâncias excecionais", disse Nunes da Fonseca, lembrando que a projeção de uma companhia de atiradores mecanizada estava planeada para o final de 2022", mas o conflito na Ucrânia "implicou a antecipação da projeção desta subunidade".

Dissuasão e defesa da NATO

Segundo um comunicado do EMGFA enviado às redações nesta quinta-feira, esta força "composta por 222 militares da Marinha, do Exército e da Força Aérea, irá participar em exercícios e atividades de treino com unidades congéneres" - informação oficial anteriormente difundida indicava que eram 221 (201 da companhia de atiradores (reforçada com um módulo de defesa antiaérea, um módulo de conjunto de informações e um módulo de apoio) e 20 da equipa de operações - "no sentido de, num contexto de aprofundamento dos laços da Aliança Atlântica e do incremento da capacidade de dissuasão e defesa desta organização face aos recentes acontecimentos do Leste da Europa, ser testada a interoperabilidade das forças num contexto multinacional".

A Companhia foi formada no âmbito da missão da NATO "Tailored Forward Presence", que visa "contribuir para a dissuasão e defesa da Aliança". A guerra da Ucrânia obrigou as Forças Armadas a antecipar a sua, que estava planeada apenas para o final deste ano.

O Tenente General Formeiro Monteiro, ex-comandante da Logística do Exército, mostra-se "surpreendido" com a falta destes equipamentos. "Quando saí do comando da Logística há oito anos tinha havido investimento em material desse e estava disponível", recorda.

""Se tiver de haver uma intervenção da NATO, e é para isso que estes militares ali estão, ficaremos desprotegidos"

Salvaguardando "não conhecer a detalhe o cenário onde vão operar estes militares", entende que "será perigoso se a guerra se alastrar e se entrar num conflito nuclear tático próximo". "Se tiver de haver uma intervenção da NATO, e é para isso que estes militares ali estão, ficaremos desprotegidos", lamenta.

O especialista em segurança nacional e membro associado do Corbett Centre da Academia de Defesa do Reino Unido, que estuda e investiga há vários anos a contrainformação e subversão russas,, Vítor Madeira, afiança que "em princípio, não há muito risco nesta parte da Roménia porque ela pertence à OTAN".

No entanto, lembra que "a base de Craiova está mais afastada da Ucrânia mas próxima da Sérvia, tradicionalmente um país fortemente pró-russo. É importante não descartarmos qualquer possibilidade de outros tipos de provocação russa, incluindo através de regimes aliados ou atores não-estatais na região ".

"Surpreende-me que não haja pelo menos equipamento suficiente para um destacamento assim relativamente pequeno - essencialmente, uma companhia. Esta falta de equipamento poria qualquer destacamento português numa situação muito delicada, potencialmente não podendo participar em certos cenários", sublinha.

Sublinha ainda que "unidades especialistas NBQR, como as que, pelo que sei, existiam no Regimento de Engenharia do Exército, geralmente são só destacadas em caso de emergência/ataque, quando há necessidade de operar em ambientes altamente contaminados", sendo que "uma companhia de soldados de infantaria (como é o caso), devem ter equipamento de proteção e treino suficiente para o operar, mas não seriam necessariamente especialistas em guerra NBRQ".

Atualizado às 00h20 com uma correção no curriculum do especialista Vítor Madeira

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