Milhares de pessoas voltam às ruas: “Mais casas, menos bastão”
"Mais casas, menos bastão” ou “Não queremos medo nas ruas, queremos direitos” eram alguns dos cartazes empunhados por manifestantes na tarde deste domingo, 25 de outubro, na Praça D. Pedro IV, Rossio, em Lisboa, em defesa do direito à habitação. Depois da intervenção policial da madrugada de domingo, para obrigar a dispersar os manifestantes e levantar as tendas nas duas principais cidades do país, Faro juntou-se a Lisboa e ao Porto com mais uma praça onde a contestação se fez ouvir, alargando a sul a exigência por respostas imediatas à crise imobiliária.
Ao início da noite de ontem, domingo, o Rossio transformou-se num plenário a céu aberto e os manifestantes regressaram aos milhares ao centro de Lisboa. À hora de fecho desta edição, debatia-se em assembleia popular se se voltavam a erguer as tendas, arriscando um novo braço-de-ferro com as autoridades, enquanto a PSP mantinha um forte cordão de segurança em torno da praça D. Pedro IV, assumindo, de momento, uma postura de vigilância à distância.
Mais a norte, na Praça D. João I, no Porto, o protesto assumia a forma de vigília contra a atuação policial da madrugada. Mesmo sem o apoio das estruturas apreendidas, os manifestantes recusavam abandonar o local e prometiam manter a ocupação da praça ao longo da noite. À hora de fecho do DN, ainda sem uma decisão definitiva neste sentido, após um minuto de silêncio pelos manifestantes agredidos, a assembleia popular aprovou por unanimidade a “resistência pacífica” e apelou a uma tomada de posição do Presidente da República sobre a violência policial.
Já no Algarve, a concentração de Faro, que juntou centenas de pessoas num cordão de solidariedade ao final da tarde, na Praça da Liberdade, acabou por desmobilizar de forma pacífica.
Os milhares de pessoas que regressaram às praças das cidades portuguesas transformaram a contestação pelo direito à habitação num protesto conjunto contra a intervenção policial da madrugada anterior.
A atuação da PSP – que dispersou os manifestantes à bastonada e com recurso a cães (no Porto), resultou em, pelo menos, 33 feridos – foi classificada nas assembleias populares como “o maior atentado à democracia desde o 25 de Abril”.
Ordem dos Advogados pede inquérito
A atuação das forças de segurança nas desocupações da madrugada de domingo já suscitou a reação da Ordem dos Advogados, que exige um inquérito da Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI).
Para o bastonário, João Massano, é essencial apurar se a PSP ultrapassou os limites do uso da força, face a um balanço que subiu para 27 feridos em Lisboa e seis no Porto.
O responsável classificou ainda como inaceitável, num Estado de Direito, que os defensores tenham ficado retidos “à porta de uma esquadra”, impedidos de prestar apoio jurídico aos detidos.
Os feridos da capital, assistidos nos hospitais de São José e Santa Maria, já tiveram todos alta médica.
Personalidades da sociedade civil pedem intervenção do PR
Entretanto, mais de 20 reconhecidas personalidades da sociedade civil, dirigiram também este domingo, dia 25, uma carta ao Presidente da República pedindo a sua intervenção face à “repressão policial infundamentada, desnecessária e desproporcional” da madrugada de domingo.
“O seu silêncio neste momento, Exmo. Sr. Presidente da República, não acalma a violência. Só a sua palavra pode repor a tranquilidade pública e a primazia do respeito pelos direitos cívicos dos cidadãos. Rogamos-lhes: faça-se ouvir”, apelaram os subscritores de na missiva divulgada pela agência Lusa.
A carta aberta é assinada por 23 personalidades da cultura, política e educação, como a rapper Capicua, o encenador Tiago Rodrigues, o músico Pedro Abrunhosa, a professora universitária Helena Freitas, a arquiteta e ex-deputada Helena Roseta, a presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Río, a economista Susana Peralta ou o advogado Ricardo Sá Fernandes.

