No final do ano de 2025, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) contava com 154.977 profissionais nas 12 carreiras que o integram. O maior número da última década e uma subida de 2,6% em relação a 2024 (151.064 profissionais). A informação é avançada ao DN pela Administração Central dos Sistemas de Saúde (ACSS), que dá conta ainda de que o último ano foi também aquele em que o SNS contabilizou mais médicos especialistas (22.161, contra 21.719 em 2024, mais 2%) e mais enfermeiros (52.946, mais 1298 em relação a 2024, correspondendo a uma subida de 2,5%).Os números, por si só, parecem animadores e é isso mesmo que a ACSS defende ao DN: “O crescimento global do número de profissionais confirma uma tendência positiva do aumento de recursos humanos no SNS, com impacto direto na prestação de cuidados de saúde prestados à população.” Mas não é esta a leitura que fazem os dois bastonários das principais classes do SNS. Sobretudo quando sabem que, no mesmo ano, se reformaram 570 médicos especialistas e 541 enfermeiros.“O impacto será brutal”, defendem ambos, não só porque “temos 1,6 milhões de utentes sem médico de família, mas também porque temos uma população cada vez mais envelhecida a necessitar cada vez mais de cuidados”, argumenta o bastonário dos médicos, Carlos Cortes.Luís Filipe Barreira destaca que, “já em 2023, os números do Ministério da Saúde indicavam que faltavam 14 mil enfermeiros no SNS. Se as reformas estão a aumentar e não se substituem os que saem é claro que quem fica tem mais trabalho, fica sobrecarregado e mais rapidamente atinge a exaustão, o que terá naturalmente impacto nos cuidados.”Ambos criticam também quem está ao comando da Saúde: “Parece que se atirou a toalha ao chão, porque o que vemos é que o Ministério da Saúde está focado somente em reajustar o SNS para uma situação de escassez de recursos humanos”, defende Carlos Cortes. E o bastonário dos enfermeiros diz mesmo que, “neste momento, nada está a ser feito em matéria de recrutamento, sendo que “é urgente um plano para esta área”. Reformas médicas diminuem face ao boom de 2023, mas isto só por si “não ajuda” De acordo com o dados disponibilizados ao DN pela ACSS (ver tabela), em 2025 reformaram-se 570 médicos, 362 dos hospitais, 197 dos centros de saúde e 11 dos serviços centrais. Se compararmos com 2024, que totalizou 633 reformas de médicos especialistas, 356 dos hospitais, 270 dos centros de saúde e sete dos serviços centrais, ou com o de 2023, conhecido como o ano do boom das reformas pós-pandemia, em que saíram 817 especialistas (um dos maiores números de sempre), 357 dos hospitais, 454 dos centros de saúde e seis dos serviços centrais, pode dizer-se que as saídas por reforma na classe médica estão a atenuar. Mas para Carlos Cortes isto não quer dizer que atenue a crise de recursos humanos que vive o SNS, sobretudo quando se fala de cuidados primários ou de urgências.Aliás, defende mesmo que “a visão não pode ser esta, muito menos a de que o número de médicos especialistas aumentou em 2025 no SNS e que está tudo bem. Essa é uma visão retrógrada e simplista porque hoje a Medicina e os cuidados de saúde não se fazem como há 10, 15 ou 20 anos. Fazem-se em equipa, os médicos não trabalham sozinhos. Portanto, se não houver enfermeiros, técnicos de diagnóstico, de saúde, psicólogos, farmacêuticos e outros não estamos a prestar os cuidados que deveríamos aos utentes”.. Para o bastonário, “é urgente que quem está a governar perceba que são precisos mais médicos e outros profissionais no SNS. Este é o grande desafio que o serviço público tem a enfrentar, e não podemos ter nenhuma distração em relação a isto. Não podemos atirar a toalha ao chão nem desistir deste objetivo”, argumenta, reforçando: “Volto a dizer que o país ainda tem 1,6 milhão de pessoas sem médico de família e, com a reforma de quase 200, em 2025, este número não desce, mesmo que a cada ano entrem novos especialistas.”Segundo dados da ACSS, em 2025 entraram no SNS 281 médicos para Medicina Geral e Familiar, o que em termos teóricos representaria médico de família para 435.500 utentes. Mas, e como sublinha Carlos Cortes, “não é bem assim”. “Se saem 200 médicos para a reforma há logo 350 mil a 400 mil que ficaram sem médico e esse número (435.500) é logo atenuado.” Criticando: “As medidas que estão a ser tomadas pelo Governo (como concentração de urgências ou de serviços) não são as melhores - já o dissemos à ministra e aos partidos na Assembleia da República. São medidas que estão a ser tomadas tendo em conta os poucos recursos que o SNS tem. E o que tem sido desenvolvido - e até está previsto em Orçamento do Estado - não ajuda, porque, apesar de o Governo ter dado ordem para as unidades poderem contratar mais 1111 médicos este ano, a questão é que não há médicos que queiram ser contratados, pela falta de atratividade no SNS.” Quando perguntamos por que considera que o impacto das reformas pode ser brutal, o bastonário explica: “Este até pode ser o ano em que há menos médicos a reformarem-se após a pandemia”, mas “será brutal para o futuro, porque o país tem mais de 600 mil pessoas com mais de 65 anos que vão precisar cada vez mais de cuidados de profissionais especializados e diferenciados, até porque hoje, felizmente, consegue-se diagnosticar mais doenças, tratar mais e até prolongar mais a vida das pessoas. E só por isto a reforma de 570 médicos, mais os que continuam a sair do SNS terá no futuro um impacto brutal”.Carlos Cortes volta à carga com o que diz ser “a conversa do costume”. “É verdade que nunca houve tantos médicos no país como agora (na Ordem estão inscritos mais de 61 mil), mas também é verdade que nunca ficaram tantas vagas por preencher para médicos especialistas e até para internos como agora, apesar de existirem mais vagas. E não vejo nenhuma medida política que ajude a reverter esta situação”, afirma, reconhecendo: “O que “tem ajudado, de alguma forma, sobretudo na área dos cuidados primários, são alguns médicos que se reformam e depois voltam ao SNS para manterem a sua atividade”.Até ao final de 2025, segundo a ACSS, trabalhavam no SNS 824 médicos aposentados, 496 nos cuidados de saúde primários, 304 nos cuidados de saúde hospitalares e 24 nos serviços centrais. Para o bastonário, isto não é “uma medida estrutural e não podemos esquecer que, se entram médicos no sistema, saem médicos do sistema e muitos não são substituídos”. E, como diz, “a Ordem dos Médicos “tem insistido muito com a tutela na adoção de medidas de captação de médicos. Temos feito propostas concretas, mas o ministério parece que aceitou o que está a acontecer.”. Há cada vez mais enfermeiros a reformarem-se Do lado dos enfermeiros, o bastonário alerta também para o facto de os pedidos de reforma na idade certa estarem a aumentar e para as reformas antecipadas também. O que, por si só, já está a ter um “impacto brutal” para os profissionais que ficam no SNS.Os dados da ACSS revelam que, em 2025, reformaram-se 540 enfermeiros (408 hospitalares, 121 nos centros de saúde e 12 nos serviços centrais), mais do que em 2024, em que se reformaram 518 (411 nos hospitais, 104, nos centros de saúde e três nos serviços centrais) ou do que em 2023, quando se registaram 323 reformas (254 nos hospitais e 69 nos centros de saúde)”. Os dados revelam ainda que a classe da enfermagem também é aquela que está a pedir mais “reformas antecipadas”: em 2025 33, em 2024 25 e em 2023 15.Para Luís Filipe Barreira, “o problema dos recursos humanos é muito sério para o SNS”, porque, sublinha, “o ritmo das contratações atuais não resolve o défice de profissionais que se acumula há anos e anos”. Por isso mesmo, sustenta que o que “é preciso urgentemente é um plano de recrutamento estruturado a médio prazo para conseguirmos atrair e reter os enfermeiros no SNS. As ULS continuam a ter limitações para contratar enfermeiros - já dissemos isto publicamente e já escrevemos à ministra da Saúde para que acabe com esta limitação. Mas nada está a ser feito neste sentido”. E avisa: “Se não conseguirmos substituir alguns destes profissionais, os que ficam são cada vez mais sobrecarregados, com horários e horas extraordinárias, o que leva, naturalmente, à exaustão dos profissionais. O que coloca os cuidados em causa.”Luís Filipe Barreira concorda com Carlos Cortes quando diz olhar para o tecido demográfico e o vê “cada vez mais envelhecido, com uma população com maior carga de doença crónica e a precisar de mais cuidados”. O bastonário dos enfermeiros diz que há quem não tenha noção desta realidade, “basta ler os relatórios da OCDE para vermos que Portugal está no topo dos países com mais doenças crónicas, que trazem mais dependências e mais necessidades de cuidados. Se não houver mesmo um plano de recrutamento andaremos sempre atrás do prejuízo e nunca reagiremos de forma pró-ativa, de forma a conseguir dotar o SNS de respostas mais efetivas à população”.Como dizem ambos, 2025 até pode ser o ano em que o SNS registou maior número de profissionais “mas, tal, por si só, não ajuda a prepará-lo para o futuro”..Profissionais de saúde impedidos de sair do SNS durante estado de emergência.Profissionais do SNS fizeram mais de 17 milhões de horas extras em 2024. Horas pagas à tarefa disparam