Mais de cem anos de história à venda em forma de móveis e frascos

Drogaria S. Pereira Leão, que ocupa desde 1964 um espaço na Baixa que desde o século XIX alberga estabelecimentos daquele ramo, fecha definitivamente na quinta-feira para dar lugar a hotel. Até lá, está em liquidação total

Maria Rodrigues até nem estava a pensar em comprar ontem sais de banho, mas mudou logo de ideias quando, do balcão da Drogaria S. Pereira Leão, Dina Miguel lhe garantiu que tinha 80% de desconto. Desde a semana passada que, no número 223 da Rua da Prata, na Baixa de Lisboa, o recheio está todo à venda a preços mais baixos, incluindo móveis, frascos de há décadas e até uma calculadora que de tão antiga quase parece uma minimáquina de escrever. O espaço, que funciona desde 1964 num local que desde o século XIX é drogaria, fecha definitivamente na quinta-feira para dar lugar a um hotel.

"Ainda tentámos impedir o encerramento durante um ano, mas agora vamos mesmo fechar", desabafa Fernanda Silva, 69 anos e há 53 funcionária na S. Pereira Leão. Na altura, o ambiente que se vivia na drogaria era bem diferente. "Era uma maravilha. Víamos as marquesas passar", recorda, acrescentando que, quando entravam na loja, se sentavam nas cadeiras que ainda hoje ali existem enquanto eram atendidas. Os produtos eram depois entregues nas suas casas.

Mais de cinco décadas depois, já não há marquesas a passear na Baixa Pombalina e o mobiliário que então encantava está hoje à venda. Um dos móveis de madeira e pedra de qualidade, por exemplo, foi adquirido por um interessado por 280 euros. Fernanda Silva não esconde que os preços são bastante abaixo do valor real dos bens.

Além de descontos que chegam aos 80% nos produtos do dia-a-dia, há peças especiais à venda por custos apetecíveis e que, desde a semana, são diariamente publicitados na página dedicada à "liquidação de imobilizado" da loja que a S. Pereira Leão abriu na rede social Face. Entre eles, estão uma máquina de calcular e uma máquina de registar que dificilmente se encontrarão hoje em qualquer loja, a 35 euros cada. É, ainda assim, o interesse dos mais jovens pelos frascos mais antigos aquilo que mais tem surpreendido Fernanda Silva.

"Pensei que só gostassem de coisas modernas", explica a idosa, pouco antes de a colega mostrar que, por enquanto, são mais do que decoração. O pretexto é o desejo de Maria Rodrigues de levar para casa um último frasquinho de perfume diferente de todos os outros: afinal, na S. Pereira Leão, o líquido perfumado ainda é guardado em boiões, esvaziados, quando os clientes querem, com recurso a um funil. "É uma pena que desapareça", frisa a lisboeta, que, habitualmente, se desloca propositadamente à Baixa para ir às compras.

Três gerações de clientes

É, de resto, de experiências pessoais que se escreve a história da S. Pereira Leão - uma loja que, até à década de 1980, manufaturava drogarias na própria cave, segundo informação disponível no site do Gabinete de Estudos Olisiponenses. Se Fernanda Silva atendeu jovens grávidas que hoje são já avós, João Rui Guerra da Mata, realizador de cinema, recorda os tempos em que, em miúdo, ia ali comprar o que a avó, proprietária de uma loja também na Baixa Pombalina, lhe pedia. Cliente habitual até hoje, tem aproveitado os últimos dias para tentar ajudar no que pode. Ontem, levava um escadote, sem esconder a revolta por ver mais um espaço tradicional fechar para dar lugar "a mais um" hotel.

"É simplesmente patético o que se está a passar em Lisboa", diz João Rui Guerra da Mata. Não é o único a pensar assim. "A Baixa está a ficar descaracterizada", acrescenta Maria Rodrigues, enquanto Fernanda Silva se limita a reiterar, com uma naturalidade desconcertante, que o prédio em que a S. Pereira Leão está integrado, sem ocupantes nos pisos superiores, será um hotel. O objetivo da obra é confirmado pelo alvará afixado na fachada daquele prédio.

A latoaria Casa Maciel, que começara a laborar em 1878 na Rua da Misericórdia, e o restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo, foram alguns dos espaços típicos que, nos últimos meses, fecharam portas no centro histórico. Na Rua da Prata, o barulho das obras no 223 é já ensurdecedor. Quinta-feira, sairá, com uma indemnização, o seu último inquilino.

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