Mais de 700 ONG pedem "um secretário-geral forte e independente"

A votação entra agora numa fase crucial, onde historicamente são negociadas nomeações para alto cargos em troca de apoio a certos candidatos

Cerca de 750 organizações não governamentais (ONG) de todo o mundo estão a tentar influenciar a eleição para o novo secretário-geral da ONU com o propósito de que o melhor candidato para o cargo seja escolhido.

"Gostávamos de ver um secretário-geral forte e independente. Um líder com autoridade e visão que pode defender os princípios da carta da ONU com um grau máximo de independência", explicou à Lusa uma das líderes do movimento, Yvonne Terlingen.

A campanha tem o nome "1 for 7 Billion" (1 por 7 mil milhões) e reúne diferentes organizações, como a Amnistia Internacional ou Federação das Associações de Comércio Internacional (FITA), e personalidades como o antigo secretário-geral Kofi Annan.

A eleição para o cargo mais alto da ONU, em que o português António Guterres é um dos candidatos, tem sido dominada pela intenção de eleger uma mulher ou um candidato da Europa de Leste, objetivos que esta organização considera acessórias.

"Incentivámos mulheres a candidatarem-se e estamos felizes que metade dos candidatos sejam mulheres. Também estamos felizes por ver candidatos de uma região que ainda não teve um secretário-geral. Mas o que precisamos é nomear o candidato mais forte para o cargo, independentemente de ser homem ou mulher ou da sua região", defendeu.

Para a "1 for 7 Billion", no entanto, considerações de género e regionais devem ser tidas em conta na nomeação de cargos seniores e "Guterres tem deixado claro que vai garantir paridade de género e regional nas nomeações se for eleito".

O ex-primeiro-ministro português e ex-alto-comissário das Nações Unidas venceu as quatro primeiras votações para o cargo, que aconteceram em 21 de julho, 05 de agosto, 29 de agosto e 09 de setembro.

A votação entra agora numa fase crucial, onde historicamente são negociadas nomeações para alto cargos em troca de apoio a certos candidatos. As organizações por trás da "1 for 7 Billion" querem evitar que isso aconteça.

"Para a nossa campanha, é crucial que o próximo secretário-geral seja livre para nomear a equipa de liderança mais qualificada, baseando-se apenas no seu mérito e reunindo pessoas de todo o mundo", defendeu Terlingen.

"Não deve haver monopólio dos Estados mais poderosos nos cargos seniores, como acontece neste momento. Contactámos todos os membros do Conselho de Segurança, incluindo os cinco membros permanentes, e pedimos que não exijam promessas de nomeações em troca de apoio a candidatos", acrescentou a responsável.

Confrontada com críticas de falta de transparência, a ONU organizou este ano debates e apresentações de programas por parte de todos os candidatos, algo que nunca tinha acontecido.

"Assistimos a mudanças de proporções históricas; há um nível de transparência e abertura sobre as candidaturas sem precedentes", diz Terlingen.

A responsável diz que antes "nunca sabíamos quem eram os candidatos, os seus currículos e a visão que tinham para o cargo" e que este ano "tivemos a oportunidade sem precedentes de questionar extensivamente os candidatos".

A campanha acredita, no entanto, que outras mudanças podem ser feitas, como nomear o secretário-geral para um único mandato de sete anos.

"Um secretário-geral nessa posição pode desenvolver planos a longo-prazo e não ficar refém dos interesses dos Estados-membros, sobretudo os mais poderosos", defende a sua porta-voz.

A iniciativa não se pronuncia sobre candidaturas em particular, mas diz que "aprecia o facto de que Guterres participou em debates organizados por ONG em Londres" e que o português "tem expresso apoio à sociedade civil e mostrado que está profundamente comprometido com ela".

Duas outras votações estão agendadas: uma semelhante às primeiras quatro, que acontece a 26 de setembro, e uma na primeira semana de outubro, em que os votos dos membros permanentes do conselho, que têm poder de veto sobre os candidatos, serão destacados.

A organização espera ter encontrado o sucessor de Ban Ki-moon, que termina o seu segundo mandato no final do ano, durante o outono.

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