A necessidade de as famílias portuguesas possuírem um kit de emergência em casa e estarem preparadas para "sobreviver ao impossível" durante pelo menos três dias já não é apenas uma recomendação genérica da Proteção Civil; passou a ser um elemento essencial da estratégia de defesa e resiliência do país. Num cenário de incerteza global e vulnerabilidade interna, a mensagem institucional é clara: a primeira linha de defesa contra qualquer catástrofe ou ameaça reside na autonomia de cada agregado familiar, concordam Proteção Civil, Ministério da Administração Interna e, aparentemente, o Gabinete de Coordenação de Segurança, que reuniu de emergência na passada terça-feira."A comunicação feita junto da população tem sido dentro desta lógica de quanto maiores forem os riscos, a preparação das pessoas deve sê-la também", disse ao DN fonte da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC). "Quanto mais preparadas [as pessoas] melhor, e é nesse sentido que temos feito campanhas e sessões de divulgação, por exemplo, junto das escolas", concluiu a mesma fonte.Esta estratégia assenta na filosofia "All-Hazards" (Todos os Riscos), adotada pela ANEPC. Na prática, isto significa que a preparação recomendada é universal: os itens necessários para sobreviver a um sismo são, em grande medida, os mesmos necessários para enfrentar um apagão tecnológico, uma inundação severa ou o isolamento decorrente de uma crise geopolítica. Ao padronizar a resposta individual através de um kit único e de comportamentos de autoproteção transversais, a proteção civil garante que a população saiba reagir de forma automática e eficiente, independentemente da natureza da ameaça que bata à porta.Sem admitir exatamente que tenha havido um reforço das recomendações feitas, o facto é que a mesma fonte da ANEPC frisa que há que ler o que se retira das entrelinhas. O que antes era rotulado como um excesso de zelo, "preparacionismo" ou paranoia é hoje uma diretriz formal e urgente do Estado português. Sob esta nova ótica, a posse de um kit de emergência doméstico deve passar a ser vista como algo tão essencial e comum nas habitações como ter um extintor ou uma caixa de primeiros socorros, sinalizando que a resiliência nacional começa agora dentro de cada porta, e a capacidade de cada cidadão resistir sozinho durante as primeiras 72 horas é um pilar crítico da segurança interna. Cúpulas da Segurança reunidas Esta mudança drástica de tom institucional tornou-se cristalina com a recente reunião extraordinária do Gabinete Coordenador de Segurança (GCS), realizada na passada terça-feira, 3 de março. Sob a presidência da Secretária-Geral do Sistema de Segurança Interna, Patrícia Barão, o encontro serviu para "avaliar a evolução da situação no Médio Oriente e as suas potenciais repercussões na segurança interna". As cúpulas militares, policiais e de informações — incluindo o SIS, o SIED e o Estado-Maior-General das Forças Armadas — analisaram medidas para a "proteção de infraestruturas críticas" e a "salvaguarda dos espaços marítimo, aéreo e do ciberespaço".A presença direta do ministro da Administração Interna e do presidente da ANEPC sublinha que a segurança nacional depende da "adoção das medidas adequadas à salvaguarda da segurança interna e da tranquilidade pública". No entanto, a reunião terminou sem que fossem divulgadas quaisquer conclusões objetivas. Apenas que "o Gabinete Coordenador de Segurança manterá a monitorização permanente, garantindo a adoção das medidas adequadas à salvaguarda da segurança interna e da tranquilidade pública".O Ministério da Administração Interna (MAI) é inequívoco na sua posição ao afirmar que o reforço da preparação individual e familiar para situações de emergência "faz parte das boas-práticas internacionais". Segundo o ministério, esta abordagem tem vindo a ser promovida através de "recomendações à população sobre comportamentos de autoproteção e preparação para diferentes tipos de risco". Para o Governo, os eventos recentes em solo nacional — como os incêndios florestais, os "comboios de tempestades" e o apagão de abril de 2025 — reforçaram o apelo à "resiliência das populações", revelando a fragilidade da dependência tecnológica num mundo volátil.. 3 Dias fundamentaisA "regra de ouro" estabelecida pelas autoridades para mitigar estes riscos é a garantia de uma autonomia mínima de 72 horas. De acordo com o MAI, este período é "habitualmente utilizado como referência", uma vez que corresponde ao "período inicial em que os serviços de socorro e proteção civil concentram e preparam a resposta operacional e a estabilização da situação". Nestas primeiras horas críticas, uma família que assegure o seu bem-estar liberta os operacionais para missões de salvamento urgente. A autonomia individual é, portanto, um ato de solidariedade cívica que permite que o Estado se foque nos grupos mais vulneráveis.As diretrizes da ANEPC reforçam esta visão, enquadrando a preparação não como um ato de medo, mas como um exercício consciente de cidadania. O planeamento civil — em linha com o Decreto-Lei n.º 45/2019 — inclui expressamente a preparação para "situações de crise ou guerra". Isto implica reconhecer que ameaças como ciberataques ou interrupções nas cadeias de abastecimento exigem que o cidadão possua "artigos/produtos essenciais a ter em casa" e um plano de evacuação, transformando-se num agente ativo da sua própria sobrevivência.Para que esta autonomia seja efetiva, o kit doméstico deve ser prático e estar sempre acessível. As recomendações oficiais apontam para "água e comida não-perecível para três dias", "lanternas, pilhas ou outras fontes de iluminação" e, crucialmente, um "rádio portátil ou meios alternativos de acesso à informação" para o caso de as redes digitais falharem. O MAI aconselha ainda a manutenção de um "kit de primeiros socorros e medicamentos essenciais", roupa resistente, mantas e "cópias de documentos importantes numa bolsa impermeável", sem esquecer a posse de "dinheiro" em numerário, vital se os sistemas de pagamento eletrónico ficarem inoperacionais.O MAI esclarece que não se trata de uma recomendação estática. Existe um trabalho contínuo de articulação com a ANEPC para avaliar se as listas de itens que compõem o kit de emergência precisam de ser atualizadas face ao novo contexto geopolítico e climático. O objetivo é que cada família tenha um plano que permita assegurar o bem-estar mínimo sem depender de comunicações digitais, que podem falhar (daí a insistência no rádio e no mapa físico).Plano de emergência familiarAlém dos objetos físicos, a nova doutrina apela à criação de um "plano de emergência familiar" com pontos de encontro definidos. "Onde se encontram se não houver rede móvel? Quem recolhe as crianças? Isto é frequentemente mais negligenciado do que os itens físicos", salienta a ANEPC.O MAI e as Forças de Segurança têm vindo a aconselhar os cidadãos a "adotar medidas de autoproteção" como parte da rotina doméstica. Em última análise, a segurança interna de Portugal depende da resistência de cada agregado. Num mundo onde as ameaças são híbridas, estar preparado deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade estratégica de sobrevivência nacional. A resiliência começa na despensa, no kit e na consciência de cada cidadão português.O DN tentou entrar em contacto com o Sistema de Segurança Interna (SSI) para se informar acerca das conclusões que saíram da reunião do GCS, mas sobretudo tentando perceber se este gabinete está a considerar preparar a população em treinos ou exercícios de evacuação para locais de abrigo, caso seja necessário, à imagem do que já está a acontecer nos países nórdicos, por exemplo, ou até se já existem tais locais designados. Contudo, ainda não conseguiu obter resposta.