Joaquim Letria morreu esta sexta-feira, ao 82 anos
Joaquim Letria morreu esta sexta-feira, ao 82 anosDiana Quintela/Arquivo DN

Joaquim Letria (1943–2026). Começou por ser o gosto pela escrita e a defesa dos mais fracos. Depois, havia Tintim

Repórter internacional, fundador de jornais e um dos rostos da televisão portuguesa depois do 25 de Abril, morreu aos 82 anos. Em livro e entrevistas, deixou um retrato do seu percurso, das relações com o poder e de uma profissão à qual continuava a exigir independência.
Publicado a: 

1961, 18 anos, Diário de Lisboa. “Queres um emprego ou queres ser jornalista?

Joaquim Letria guardaria para sempre a pergunta, as condições que se seguiram - 50 escudos por dia, sem pagamento nos dias em que não trabalhasse - e a memória de uma redação onde era preciso aprender depressa. Décadas depois, explicava a escolha: “Começou por ser o gosto pela escrita. Depois o gosto pelo jornalismo e defesa dos pobres e dos mais fracos.” Depois, ainda, havia Tintim, acrescentava, e com ele a vontade de viajar e de conhecer a aventura.

Joaquim Letria morreu esta sexta-feira, 16 de outubro, aos 82 anos. Deixa um percurso que atravessou a imprensa, a rádio e a televisão, a reportagem internacional e a fundação de jornais, mas também a passagem pela Presidência da República, como porta-voz de Ramalho Eanes. Numa entrevista à Notícias Magazine, em agosto de 2014, tinha  70 anos,  percorreu esse caminho sem o apresentar como uma sucessão inevitável de triunfos. À pergunta sobre se o êxito o surpreendera, respondeu: “Não é fábula, mas nunca tive tempo para pensar nisso. E pensando bem, não fico surpreendido. Deu-me muito trabalho.”

Nascido em Lisboa a 8 de novembro de 1943, órfão de mãe desde o nascimento e criado pelos avós, contraiu poliomielite aos dez anos. Na entrevista, descrevia uma recuperação longa e solitária, a dificuldade de abotoar uma camisa, a necessidade de pedir ajuda para tirar do bolso o dinheiro do bilhete do elétrico. “Quando os dois braços deixaram de servir foi precisa muita força de vontade, mas nunca me servi da doença como desculpa.” Mais tarde, já no jornal, aprenderia a escrever com um dedo.

A estreia na reportagem foi um incêndio num prédio da Avenida Duque de Loulé. Mandaram-no. Falou com os bombeiros e com a polícia, recolheu os dados e voltou para escrever. Na redação conheceu o escritor Manuel da Fonseca, de quem ficaria amigo, e encontrou uma convivência que recordava como parte da aprendizagem: jornalistas e escritores que conversavam, comiam juntos, frequentavam as casas uns dos outros.

A Associated Press abriu-lhe o caminho da reportagem internacional. Na conversa com a Notícias Magazine, evocou a guerra no Biafra, a revolta no Katanga, a guerrilha na Bolívia e a morte de Che Guevara. Resumia a sua formação através dos lugares onde trabalhara: “A AP foi a minha licenciatura, a minha grande tarimba. O Diário de Lisboa foi o meu mestrado e a BBC o meu doutoramento.” Mas ressalvava que a maior escola havia sido a vida e que os grandes mestres, as pessoas.

Em 1969 chegou à BBC, depois de responder a um anúncio e passar por provas de inglês, jornalismo, voz e tradução. De um país cinzento e à míngua de liberdade para os anos londrinos, que guardava como os mais felizes do caminho: a aprendizagem profissional, os amigos, o futebol, o teatro, a música. Regressaria a Portugal em 1974, para trabalhar na informação da RTP. “Profissionalmente, aqueles tempos portugueses foram também muito interessantes, dediquei-me a eles intensamente. Tudo era novo.” Defensor dos debates e entrevistas em direto, dizia ter chegado a ser acusado de querer transformar a RTP numa BBC.

Desses anos quentes, destaca-se a participação na cobertura das eleições para a Assembleia Constituinte, em 1975, numa emissão que recordaria pela duração de 30 horas com a mesma equipa em estúdio. Mas o ponto alto foi a moderação do debate que ficou na memória da televisão e do período revolucionário. Ao contar como conseguira reunir Mário Soares e Álvaro Cunhal, a resposta denunciou o desembaraço do repórter: “Mentindo a ambos, dizendo a cada um deles que o outro já tinha aceitado.” Entendia que ambos conheciam a importância daquele encontro. E de como pode ter ajudado  a evitar uma onda de violência. “Creio que ajudou. O país vivia a ferro e fogo.”

Participou na fundação de O Jornal, criou o Tal & Qual e esteve na origem da revista Sábado. Na televisão, tornou-se conhecido também pelos programas em que a entrevista convivia com o humor e o entretenimento. Ao recordar O Jornal, destacava sobretudo a escolha da equipa e a capacidade de encontrar para cada um o trabalho que cada um melhor sabia fazer. Quando deixou a direção, voltou à reportagem, na agência ANOP. A mudança de estatuto não parecia impressioná-lo: “Nunca liguei a essas coisas.”

A passagem por Belém obrigou-o a ponderar a distância entre o jornalismo e o exercício de funções junto do poder. “Antes de aceitar tive muitas dúvidas. Por isso mesmo, foi a Paris falar com Pierre Salinger, jornalista da CBS e o primeiro porta-voz do presidente norte-americano John Kennedy.” Expôs-lhe as suas dúvidas, mas acrescentou: “também lhe disse que tinha uma grande vontade de conhecer o outro lado.” Na entrevista, defendeu a forma como exercera o cargo: “Nunca pedi a um jornalista para escrever isto ou para não escrever aquilo, nunca lhes perguntei o que iria ser publicado ou qual era a manchete do dia seguinte.”

Essa exigência aparecia também nas histórias que contava do seu trabalho como entrevistador. Recordou o pedido de Mário Soares, feito à entrada do estúdio, para que não lhe colocasse determinada pergunta. Foi precisamente por essa pergunta que começou. E lembrou a entrevista a uma cadeira vazia, em resposta a Miguel Cadilhe, o convidado ausente.

Professor de jornalismo e antigo presidente do Sindicato dos Jornalistas, preocupava-se com as condições em que as gerações seguintes exerciam a profissão. Recusava a ideia de que os mais novos eram menos preparados. Via na precariedade uma ameaça à independência e inquietava-o a falta de solidariedade nas redações.

Do jornalismo, dizia ter-se afastado devagar, embora também reconhecesse ter sido obrigado a fazê-lo. Continuava a imaginar uma revista mensal onde houvesse tempo para contar e ler boas histórias. “Quem julga que as pessoas não gostam de ler está muito enganado.”

Quando lhe perguntaram como gostaria de ser lembrado, respondeu: “Não sei nem me preocupo.” Tinha, porém, uma certeza acerca daquilo de que mais sentia falta: “De as escrever, sim. Muitas saudades, mesmo.” Falava das reportagens.

Diário de Notícias
www.dn.pt