InterRail, o tempo de embalar a trouxa e zarpar

Os jovens portugueses continuam a percorrer a Europa de comboio, mas com conforto e planeamento bem diferentes dos pais

Nas férias da última Páscoa a viagem de finalistas da Escola Secundária de Pombal perdeu quatro rapazes. Quem os ganhou foi a CP, no exato momento em que dois deles tomaram a decisão de fazer o InterRail, como no tempo dos pais - ou dos avós. "No final chegámos todos à mesma conclusão: foi a melhor experiência das nossas vidas". Jeremy Silva, 18 anos acabados de fazer, começou a alimentar a ideia desde o ano passado, quando fez a primeira grande viagem de comboio, então com a professora de História e a turma de 11º, a Aushwitz. Partilhou essa vontade com um colega, juntaram-se mais dois, e num instante estava formado o grupo de quatro que haveria de percorrer várias cidades da Europa em dez dias.

Criado em 1972, o InterRail continua a mobilizar milhares de jovens por toda Europa, muitos deles em Portugal. Não é só a vontade de viajar sozinho (sem os pais) e de conhecer países e cidades novas, mas é também o espírito que ali mora: a aventura da mochila às contas, testar as amizades, criar laços para a vida.

Jeremy (18), Ângelo (17), Diogo (17) e Pedro (18) planearam a viagem ao detalhe, quase tudo à distância de um computador. "Sabíamos que com o dinheiro que íamos gastar na viagem de finalistas, conseguiríamos aproveitar muito mais e conhecer muito mais", conta ao DN Ângelo Figueiral, aluno do 12º ano de Ciências e Tecnologias, determinado a ingressar no curso de Gestão, já no próximo ano, o mesmo em que estuda o amigo Pedro Rolo, único universitário deste grupo. Com ele iam trocando mensagens num chat, acertando ideias e definindo itinerários, entre "o que nos dava jeito e o que existia".

De resto, a única coisa que os obrigou a deixar o ecrã e a internet foi a ida à Estação da CP, para comprar o passe, sem qualquer objeção ao facto de existirem dois menores no grupo. Feitas as contas, preparada a viagem, embarcaram no Intercidades das 23.10, no dia 24 de Março. Seguiram até ao Porto, onde haveriam de entrar num comboio internacional com destino a Hendaye, e apanhar o TGV até Paris. Chegaram à cidade-luz pelas 20.30, e por aí ficaram dois dias e duas noites. Aproveitaram a casa dos tios de Jeremy para pernoitar. Dali seguiram para Zurique (a partir da Gare de Lyon), Budapeste, Amesterdão e depois para um dos destinos mais desejados de toda a vigem: Dortmund, a cidade-futebol, que vive em torno do Estádio do Borussia, "um santuário de visita obrigatória para quem aprecia futebol, como nós", conta Jeremy.

Na bagagem levavam os cachecóis do Sporting e do Benfica que iam exibindo nas fotos e selfies para os amigos, publicadas todos os dias nas redes sociais. Esta é a geração que vive mais no twitter do que no Facebook, mas abriram uma exceção, já que era lá, no último, que tinham criado um grupo, incluindo todos os pais, com o compromisso de todos os dias à noite ali partilharem notícias da viagem e fotos. Estava tudo sob controlo.

Fora essa também a condição para a viagem, que custou a cada um o total de 700 euros, 195 o passe de InterRail (mais 60 para a reserva de lugar certo no TGV). O passeio de finalistas a uma estância balnear da vizinha Espanha, custava pouco menos. A maior parte das noites dormiram em hostels ou casas particulares, que encontraram através da aplicação "Airbnb", e algumas no comboio. Inicialmente não pensaram nisso, mas no caminho entre a Hungria e Amesterdão, já noite dentro, acabaram por comprar camas, ao preço de 18 euros cada uma. "Aí sentimos que havia muito controlo. Os polícias acordaram-nos várias vezes por noite, a pedir a identidade. Depois percebemos que era por causa dos refugiados...", conta Ângelo Figueiral. A viagem de regresso a Portugal fez-se de avião. "É mais cómodo, mais rápido, mas o comboio é muito mais fixe", sublinham quase todos, na ressaca da aventura.

Uma porta que se abriu

Quando o InterRail foi criado, em 1972, viajar era uma porta fechada para a maioria dos jovens portugueses, mais ainda aos que viviam fora dos grandes centros urbanos. Fernando Mendes, 52 anos, lembra-se bem da sensação de liberdade que experimentou quase dez anos depois. No Portugal dos anos 80 os comboios circulavam tradicionalmente com atraso. Aos 17 anos, o jovem estudante embarcou sozinho numa aventura que durou um mês. Tinha deixado África na infância e vivia numa aldeia próxima de Leiria, onde só passa a linha do Oeste. E por isso apanhou o comboio na mesma estação de Pombal onde, mais de 30 anos depois, o grupo de quatro jovens abraçou o InterRail. "O que mais me impressionou na época foi o escrupuloso cumprimento dos horários dos comboios", conta ao DN este editor livreiro, que andou meses a juntar dinheiro para poder comprar o bilhete, mesmo assim só possível graças às manigâncias diversas, como "pedir dinheiro aos pais para um livro que nunca cheguei a comprar, embora o tivesse comprado umas dez vezes...".

Fez a viagem de Portugal para Espanha, França, Itália, Mónaco e Suíça, se possível "em Z, para poder dormir no comboio durante a noite". Só excecionalmente dormia em pousadas de juventude. O melhor desse tempo? "A quantidade de gente que conheci, as companhias femininas que sempre se encontravam, num tempo em que as portuguesas pouco viajavam, muito menos sozinhas". Fernando ficou rendido para sempre ao InterRail, de tal modo que, quando a filha mais velha fez 18 anos, foi ele quem a incentivou a fazer a viagem, impressionado com a facilidade e o lado cómodo deste tempo. Era tudo diferente.

O colecionador de viagens

Foi na infância, e nas viagens entre Lisboa e Guimarães que Gonçalo Elias descobriu o gosto por viajar de comboio, preferencialmente de uma forma que hoje já não é possível: à janela. O trajeto demorava cerca de sete horas. A verdade é que, até aos 17 anos, o mais longe que tinha ido era até Huelva, em Espanha. Aluno da escola alemã, fez a primeira viajem InterRail com a turma do 11º ano, há 30 anos, num tempo em que a idade-limite para fazer a viagem estava fixada nos 26 anos, o que hoje não acontece (ver peça separada). À época, o passe tinha a duração de 30 dias e era válido para toda a Europa; não era divisível por regiões nem fracionável. "De dois em dois anos a escola fazia uma viagem de turma à Alemanha, para conhecermos o país. Naquele ano (1985) fomos de comboio, com cartão InterRail. A verdade é que criou em mim um fascínio pelas viagens assim", relata ao DN, a partir do Algarve, onde agora reside e trabalha este formador, engenheiro de telecomunicações.

Nos anos seguintes fez um total de nove viagens de InterRail, ora sozinho, ora acompanhado, percorrendo 20 países da Europa. A última vez foi em 1992. Guarda a memória dos carimbos na caderneta, da solenidade com que o gesto se repetia nos demais países da Europa, onde o revisor "não se limitava a picar um furinho". Com o tempo, juntou à paixão do InterRail uma outra, que ainda hoje o acompanha: a observação de aves. Num dos últimos que fez, conseguiu finalmente entrar naquelas paisagens dos livros e postais, das montanhas suíças atravessadas pelo comboio. Depois veio a idade adulta e confirmou o que dita o senso comum: "quando somos jovens temos mais tempo e menos recursos. Depois, quando já trabalhamos, é ao contrário". Viaja pouco, nos últimos anos, mas quando o faz é de avião.

O mesmo acontece com Genoveva Oliveira, curadora, quatro viagens de InterRail no seu palmarés. Quem a vê assim, impecavelmente penteada, vestida e maquilhada, não pode imaginar a juventude passada nos escuteiros, que a levaram a um curso de italiano e à descoberta do InterRail. "Sempre me interessei muito pelo património das cidades, pela história e museologia", sublinha Genoveva, que acabou por licenciar-se em História e fazer caminho nessas áreas. "Hoje prefiro o avião e o hotel, mas guardo excelentes memórias de dormir no comboio, esperar nas estações, comer enlatados. Passo a vida a dizer aos jovens que o façam, porque é uma experiência imperdível".

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