Interpol ensina portugueses a identificar vítimas de atentados e de catástrofes

Inspetor da Interpol veio a Lisboa formar primeira equipa de especialistas nacionais para responder às
preocupações da sociedade atual. O britânico Howard Way partilhou a sua experiência com médicos, técnicos e polícias

O terramoto em Itália, o atentado terrorista na Bélgica, um avião despenhado na Namíbia, as cheias na Madeira. Desastres com múltiplas vítimas mortais, que é preciso identificar. O reconhecimento visual está condenado e preparam-se peritos forenses para mortes em massa. Um inspetor da Interpol veio a Portugal ensinar médicos, técnicos e polícias a lidar com estes cenários, alguns dos quais já estiveram nestas catástrofes.

"O maior problema neste tipo de situações é a tentação de utilizar o reconhecimento visual, que é um método totalmente desaconselhável. Existe muita pressão para o reconhecimento visual, inclusive por parte dos familiares, que querem explicações rápidas para o que aconteceu, mas há muitos exemplos de erros neste tipo de identificação." É a principal mensagem de Howard Way, inspetor da unidade britânica de Disaster Victim Identification (DVI) e presidente desta unidade na Interpol, que esteve de sexta a domingo em Lisboa para o primeiro curso de formação em DVI.

A vítima poderá estar completamente desfigurada, não ser residente habitual ou ser um turista, usar roupa diferente, ou, simplesmente, quem faz o reconhecimento errar. Portanto, há que recolher e etiquetar as roupas, objetos, acessórios e documentos (não sendo claro que tudo o que traz lhe pertença), cruzar informação e, sobretudo, não guardar os bens no espólio da pessoa errada, já que estamos a falar de vários cadáveres num mesmo espaço. Referenciar sinais particulares, tatuagens, indicações de cirurgias, dentição, o que tem de ser registado e fotografado, e só depois se dá início à autópsia. Existe um formulário para preencher, mas com o curso foi atualizado e introduzida a ficha da Interpol, com as perguntas-chave e etiquetas próprias.

Em desastres de massa, a autópsia é obrigatória, o que não quer dizer que todos os corpos sejam autopsiados, uma vez que a causa de morte será comum - os suspeitos de terrorismo são sempre autopsiados. Numa mulher por exemplo, a primeira observação é saber se está grávida e, em todos os corpos, é preciso ver se há próteses ou pacemakers, recolher impressões digitais, amostras de cabelo, de pele e de outros elementos para enviar para a patologia.

O curso teve um dia de exercício prático, em que quatro voluntários se disponibilizaram para serem cobaias, cada um deles com vários especialistas à sua volta. "Cada equipa deve ter pelo menos quatro pessoas, entre médicos e técnicos, um que tira as fotografias, outro a fazer a fotocópia, um dentista. É todo um trabalho minucioso e toda uma investigação que está por detrás do reconhecimento de uma vítima", explica Cristina Mendonça, do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF). E que leva "o seu tempo". A pressão para apresentarem resultados é o segundo maior problema destas unidades, diz o inspetor Way.

Mensagens apreendidas pelos formandos que já trabalham em ciências forenses. Este primeiro curso decorreu na delegação sul do INMLCF e envolveu 11 inspetores da PJ, dez médicos (incluindo uma dentista) e dez técnicos do instituto. O próximo, avançou João Pinheiro, vice-presidente do INMLCF, será também em Lisboa e integrando elementos da Autoridade Nacional de Proteção Civil, provavelmente no final do ano e, depois, no Algarve ou no Porto.

João Pinheiro explicou que convidaram o agente da Interpol por terem um modelo de intervenção reconhecido a nível internacional e por ser o mais próximo do português, sendo o objetivo atualizar uma equipa criada em 2001. "As catástrofes, os ataques terroristas, obrigam-nos a estar bem preparados, mais organizados e há, também, uma necessidade de rejuvenescer a equipa integrando a PJ e a Proteção Civil, como está definido na lei. Estamos preparados não só para atuar em Portugal como em missões no estrangeiro, para onde nos deslocamos regularmente." A equipa do instituto tem um núcleo duro de cinco pessoas, liderado por Cristina Mendonça.

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