Usar dados para prever picos de gripe seis semanas mais cedo

Antecipar picos gripais em várias semanas ou explicar porque é que nascem mais bebés em determinadas alturas? Está tudo nos dados

Todos os anos, a época das gripes é responsável por cerca de meio milhão de mortes a nível mundial e por um grau de exigência sobre os serviços de saúde que muitas vezes os deixa perto da rutura. E esta é uma realidade que os portugueses conhecem bem. Em 2016, foi notícia a elevada mortalidade associada à doença, particularmente no mês de dezembro. E se fosse possível antecipar a ocorrência dos "picos" de gripe por várias semanas, por comparação aos métodos de previsão atualmente existentes? Que diferença fariam esses dias adicionais de preparação em termos de organização dos serviços e de aconselhamento à população?

Foi desta reflexão que nasceu o método desenvolvido por uma equipa do Instituto Gulbenkian de Ciência, liderada por Joana Gonçalves-Sá. Um sistema que, segundo a investigadora, permite antecipar "em seis semanas" as previsões feitas com as práticas atualmente utilizadas. O sistema começou a ser partilhado com o Instituto Nacional de Saúde Pública Ricardo Jorge, em 2015/16 e, após um ano de intervalo - deverá ser disponibilizado novamente às autoridades de saúde antes da época de gripes, que tradicionalmente ocorre entre novembro e abril.

Atualmente, a previsão das épocas gripais baseia-se sobretudo no recurso aos chamados médicos-sentinela - a maioria dos quais nos centros de saúde - , que apresentam relatórios semanais com números de doentes vistos com sintomas gripais e, em menor número, enviam amostras para análise, de forma a verificar se está em causa gripe ou outra doença, como uma infeção respiratória. Só após duas semanas com valores acima daqueles que são considerados normais para a altura do ano é declarada a existência de um pico.

Este sistema, ressalva Joana Sá, "é ótimo, nomeadamente no que respeita a estimar o número de casos" de gripe. No entanto, acrescenta, "é um pouco lento" no que respeita à antecipação das crises. "Normalmente, quando dão o alerta estamos em pleno pico ou até já passou", explica.

Saúde 24 é bom barómetro

Para conseguirem chegar a previsões próximas do "tempo real", os investigadores, nomeadamente "Miguel Won, que era na altura post-doc na equipa", começaram por recuperar os dados oficiais relativos a cinco épocas de gripe, entre 2010/2011 e 2015/16. Depois procuraram fonte s alternativas de dados que dessem informações coincidentes com esses picos e que pudessem ser usadas para antecipar os próximos.

Uma das primeiras ideias foi recorrer a informação sobre as pesquisas feitas pelos utilizadores do Google de palavras relacionadas com a doença, como "febre", "espirros" ou "tosse". Pesquisas que, habitualmente, as pes-soas "fazem antes sequer de decidirem ir ao médico". Mas, tal como o próprio gigante norte--americano da internet - que teve um projeto do género que abandonou - , verificaram que essas pesquisas eram muito influenciadas pelos media. Ou seja: quan-do as notícias relativas à gripe aumentavam, mesmo que fossem referentes a outros países, as pesquisas também subiam, sem que isso implicasse necessariamente um aumento dos casos.

Ainda assim, analisando as pesquisas feitas antes de o tema da gripe surgir nas notícias, o motor de busca revelou-se uma ferramenta importante para descobrirem "o que nós chamamos o onset, o princípio [dos sintomas gripais]".

Esta informação foi complementada com um conjunto de outros dados, nomeadamente meteorológicos, como "temperatura e precipitação", mas "os dados que funcionaram melhor, com um poder incrível e que só existem em Portugal foram os dados da Linha Saúde 24".

Por um lado, explica, porque os utilizadores deste serviço telefónico, onde se inclui "uma faixa etária trabalhadora, relativamente jovem", que não coincide exatamente com os utentes dos centros de saúde, o que permite "complementar" a informação recolhida pelos. Por outro, porque o recurso a estes serviços face aos primeiros sintomas "é "muito rápido. Pelo sim pelo não, as pessoas decidem ligar" e, do outro lado da linha, estão "enfermeiros altamente treinados", capazes de fazer uma triagem eficaz.

O Saúde 24, lembra, já "funciona através de um sistema de protocolos automáticos, de algoritmos". Em função dos sintomas que o doente vai descrevendo, e também da época do ano em que nos encontramos, os mesmos sintomas podem levar a que o doente seja encaminhado para o hospital ou, em época de gripe, não sendo de um grupo de risco, aconselhado a ficar em casa e a ter os cuidados habituais. Os dados ficam registados. E com base nestes, os investigadores conseguiram prever as curvas da gripe "com uma correspondência de 99% e antecipar os alertas, em média, em seis semanas".

Relação entre pesquisas por sexo e nascimentos

Desde a década de 1950 que os cientistas sabem, com base nos dados hospitalares, que os países católicos do hemisfério norte têm picos de nascimentos nos meses de setembro e outubro. Mas há muito que se discute se essa tendência está relacionada com questões de adaptação ao meio ambiente ou se é influenciada por aspetos culturais. A partir de dados de motores de busca e redes sociais, os investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência, num trabalho em que participou a Universidade de Indiana, dos Estados Unidos, defendem ter encontrado a resposta.

O estado de espírito característico das épocas festivas, dizem, é decisivo para os picos de nascimentos nove meses depois. E a prova está no aumento exponencial das pesquisas no Google por conteúdos relacionados com "sexo" e "pornografia" que acontece precisamente nessas alturas.

Com base em dados do Google Trends, relativos a cerca de 130 países, os investigadores conseguiram estabelecer uma correlação entre as pesquisas feitas na semana do Natal, nos países ocidentais católicos, e os nascimentos entre setembro e outubro. "A semana do ano em que mais se procura pornografia online é a semana do Natal, conta ao DN Joana Gonçalves-Sá. E no caso português esta tendência não poderia ser mais evidente, com os gráficos "a assemelharem-se a um eletrocardiograma", com picos acentuados nesta altura do ano. Transpondo a análise para outras culturas, nomeadamente para os países muçulmanos, os investigadores descobriram a mesma ligação cultural: as pesquisas por conteúdos desta natureza "sofrem uma queda abrupta de quatro ou cinco semanas, que coincide exatamente com o Ramadão", um período de jejum, reflexão e renovação na religião islâmica. Depois, a partir do Eid-ul-Fitr, a festa religiosa que marca o fim deste mês sagrado, "temos um pico de crescimento enorme que depois baixa".

A investigadora cita mesmo o caso de um hospital israelita, com picos de nascimentos diferentes entre filhos de judeus e de muçulmanos, diretamente relacionados com as respetivas festas.

Vários estudos científicos têm relacionado o maior consumo de pornografia online com dificuldades nas relações pessoais na "vida real" e outro tipo de problemas emocionais. Mas o trabalho feito pelos investigadores norte-americanos que colaboraram no projeto, analisando os estados de espírito (moods) dos utilizadores do Twitter nestes períodos de maior intensidade nas pesquisas de sexo online, parece indicar que as épocas festivas são uma exceção a esse nível. "Quanto mais pesquisas por sexo há, mais a mood é alegre, feliz e relaxada. E isto é internacional. Encontramos uma mood "deste género tanto na Turquia, no Eid, como nos Estados Unidos no Natal".

Ler mais

Exclusivos