"Uma solução auditiva que permite desfrutar do mundo dos sons.

É um dos mais prestigiados otorrinolaringologistas portugueses, João Paço, em entrevista ao DN, considera os implantes cocleares uma maravilha da tecnologia para quem sofre de surdez.

Quais são as principais vantagens do implante coclear?

O Implante Coclear é um grande avanço da medicina e destina-se a tratar casos em que há perdas no ouvido interno entre 60 a 70 décibeis e já existe uma fraca discriminação dos sons.

Está indicado para casos em que nenhuma outra solução auditiva tem resultados ao nível da reabilitação (à exceção do implante de tronco). É portanto uma solução sem a qual muitas pessoas não teriam a possibilidade comunicar, ouvir música, ver televisão, falar ao telefone, de disfrutar do mundo dos sons.

O que é que esta tecnologia trouxe de novo? Como funciona?

Um implante coclear é um sistema auditivo constituído por uma componente interna, o implante, e outra externa, o processador da fala que poderá ter uma configuração retroauricular ou fora do ouvido (por baixo do cabelo, ainda mais impercetível). O implante, encapsulado em titânio e revestido por silicone, é colocado por baixo da pele, alojado na mastóide, sendo a espira de 22 elétrodos inserida na cóclea através do ouvido médio. O processador da fala capta o som e converte-o em código digital; O processador transmite a informação por radiofrequência através da antena para o implante; Por sua vez, o implante converte o código digital em sinais elétricos que são enviados para a espiral de elétrodos; Os elétrodos estimulam assim as fibras nervosas da cóclea que transmitem a informação ao córtex auditivo. Com este processo é restabelecida a sensação auditiva do indivíduo. Quando fizemos o primeiro implante coclear no Hospital CUF Infante Santo, em 1996, o implante era ligeiramente diferente dos de hoje em dia. Antes era um dispositivo que se utilizava à cintura. Agora, é só um pequeno equipamento atrás da orelha, com a vantagem de ter ainda um comando que permite ligar, desligar, ajustar a situações com mais e menos ruído, conectar a outros dispositivos wireless (telemóvel, rádio, computador, TV, etc).

Atualmente, os implantes apresentam também grandes diferenças na qualidade do som.
Um surdo profundo pode mesmo começar a ouvir?

Um surdo profundo e também um surdo severo começam a ouvir, sim. Mas não se trata apenas de ouvir. Depois de ouvir, é preciso compreender e associar os sons a determinadas palavras. Para isso, após a cirurgia é necessário um processo de reabilitação e programação com terapeutas da fala e audiologistas. Dependendo do tempo de atuação, por exemplo, as crianças surdas profundas implantadas podem ser perfeitamente integradas no ensino regular e ter um desempenho escolar que lhes permite condições de acesso escolar e profissional similar aos ouvintes. Quanto mais precoce for a intervenção, melhores serão os resultados esperados. Em adultos, os melhores casos de reabilitação com implante coclear são os de surdez surdez súbita ou surdez progressiva. Nos casos de adultos com surdez profunda congénita sem estimulação prévia com prótese auditiva, a performance auditiva não será tão satisfatória como nestes casos que acabei de referir.

De que forma é que um paciente passa a ouvir depois de um implante?

Grande parte dos doentes implantados consegue recuperar uma audição útil, dentro dos parâmetros "normais" exigidos pela sociedade (tanto a nível social, profissional, familiar e comunitário).

Quais as principais diferenças entre os aparelhos auditivos e o implante coclear?

Um aparelho auditivo vai estimular o ouvido acusticamente e pode ser utilizado com sucesso até à surdez de grau severo, dependendo sempre da capacidade de discriminação vocal do paciente. O implante coclear tem indicação para ser utilizado em casos de surdez severa a profunda quando o paciente já não tem discriminação vocal e quando o ganho com próteses auditivas convencionais já não é satisfatório, objectiva e subjectivamente.

A quem é que é recomendado? A surdos profundos?

Os implantes cocleares estão indicados para casos de surdez neurossensorial severa a profunda. São, hoje em dia, uma solução para os doentes que não beneficiam com as convencionais próteses auditivas, nem outro tipo de soluções implantáveis. São candidatos ao implante as crianças com surdez pré-lingual decorrente de situações congénitas e crianças e adultos com surdez pós-lingual progressiva ou adquirida. De forma transversal, as indicações têm sido cada vez mais alargadas, uma vez comprovados os benefícios e ganhos auditivos. Neste sentido, os implantes cocleares, que há uns anos apresentavam indicações muito mais restritas, estão neste momento indicados para casos de surdez unilateral, havendo já casos operados no hospital CUF Infante Santo em que os doentes apresentam elevados graus de satisfação.

É aconselhável para alguma faixa etária em especial?

A idade mínima de implantação, segundo as recomendações da FDA, é o ano de vida (12 meses). No entanto, em situações de quadros de meningite em que se tenha iniciado o processo de ossificação, a cirurgia deverá ser antecipada. No geral, quanto mais cedo for o diagnóstico e consequente implantação, melhores serão os prognósticos de reabilitação, havendo já cirurgias realizadas a partir dos 6 meses de idade. O paciente mais novo que implantamos no Hospital tinha 7 meses de idade. Nos adultos, não existe uma idade específica. Existem casos de surdez que são fruto de doença de Meniérè ou de Meningites, entre outras doenças, nomeadamente hereditárias e traumáticas, e nestes casos as pessoas têm de ser operadas rapidamente.

Em Portugal, qual o retrato da doença. Quantos surdos existem?

Mediante as estatísticas publicadas a nível mundial entre 1 a 3 em cada 1000 crianças apresentam surdez congénita ou desenvolverão surdez.

Quantos implantes já foram feitos?

No Hospital CUF Infante Santo já fizemos cerca de 100 implantes cocleares. O número tem vindo a crescer nos últimos anos.

O serviço Nacional de saúde faz este tipo de cirurgias?

No SNS, existem em Portugal três centros onde se realiza esta cirurgia: o Hospital dos Covões, em Coimbra, que tem maior volume, o Hospital Egas Moniz e o Hospital D. Estefânia, em Lisboa. Na CUF, quer o Hospital CUF Infante Santo, em Lisboa, quer o Hospital CUF Porto fazem esta cirurgia.

Qual é o custo da cirurgia?

O valor por implante coclear, mais a cirurgia, tem um custo que pode variar entre os 20 a 30 mil euro, de acordo com o tipo de implante. No entanto, esta cirurgia já é comparticipada por alguns seguros e subsistemas de saúde.