Tsunami provocou uma das maiores migrações marinhas da história

Exemplares de quase 300 espécies marinhas foram transportados ao longo de mais de 7.000 quilómetros até à costa oeste dos EUA

O tsunami que devastou a costa nordeste do Japão, gerado pelo violento sismo de 11 de março de 2011, levou à migração de exemplares de quase 300 espécies marinhas ao longo de mais de 7.000 quilómetros ao largo do Oceano Pacifico e até à costa oeste dos Estados Unidos.

No que os especialistas afirmam ser a migração marinha mais longa já registada, estima-se que mais de um milhão de criaturas, entre mexilhões, percebes, estrelas-do-mar e até peixes das costas japonesas, tenham completado a travessia a bordo de resíduos e objetos plásticos de origem japonesa, provenientes da destruição do tsunami.

"Isso resultou numa das maiores experiências naturais não planeados em biologia marinha - talvez na história", afirmou John Chapman, coautor de um estudo sobre as mesmas criaturas, divulgado esta semana na revista Science, citada pelo The Guardian.

Em junho de 2012, os jornais de Oregon, EUA, davam conta de um pedaço de plástico proveniente da cidade japonesa de Misawa, situada numa das áreas mais afetadas pelo tsunami, que surgiu na costa do estado.

Chapman e um grupo de investigadores de universidades da costa oeste dos EUA levaram a cabo uma iniciativa para avistar, identificar e analisar todos os destroços de origem japonesa que davam à costa americana.

De acordo com o estudo, entre junho de 2012 e fevereiro deste ano, cerca de 289 espécies provenientes do Japão, anexadas a 600 pedaços de resíduos, deram à costa em praias dos estados de Washington, Oregon, Califórnia, Alasca e Havai, bem como na província canadense da Colúmbia Britânica.

Entre as espécies identificadas estão moluscos, medusas, anémonas, musgo marinho, estrelas-do-mar, lapas e até duas espécies de peixes.

"Uma coisa que este acontecimento nos ensinou é que alguns desses organismos são extraordinariamente resilientes. Não se trata apenas dos milhares de quilómetros de travessia. São espécies habituadas a águas rasas que tiveram de sobreviver a intensos ventos, às frias temperaturas do Pacifico norte, à elevada radiação solar ... em muitos casos foram viagens intergeracionais, alguns animais iniciaram a aventura e os seus descendentes concluíram-na", afirmou Chapman, biólogo da Universidade Estadual de Oregon, em declarações citadas pelo El Pais .

O biólogo acrescenta ainda que este estudo é um alerta para a influência do fator humano sobre a ecologia, uma vez que esta grande migração, que pode resultar numa invasão ecológica, só foi possível devido aos artefactos humanos, feitos a partir de matérias que não se decompõem, que o tsunami levou da costa japonesa e que serviram como meio de transporte para as espécies.

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