Ser enfermeiro no IPO é ser a primeira linha de defesa do doente

Estão 24 horas com os doentes, respondem às suas dúvidas e ajudam-nos a ultrapassar os momentos mais difíceis. Os enfermeiros do IPO garantem que trabalho é diferente e especial, porque é reconhecido

Década de 1980. Ana Pereira de Campos é a enfermeira chefe do serviço de cirurgia médica no IPO (Instituto Português de Oncologia) de Lisboa e assiste à chegada ao internamento de um jovem que tinha acabado de ser operado a um tumor da suprarrenal. "Ele tinha uns vinte e pouco anos, não estava muito bem e ficou na unidade de recuperação por precisar de mais atenção. A mãe dele veio perguntar-me como é que ele estava e depois de lhe dar a informação que podia fui chamar o diretor do serviço que por acaso tinha sido o médico que o operou. Ela pediu-lhe para ver o filho e o médico não deixou. Custou-me muito, mas não tive solução. O pior foi que o rapaz morreu poucas horas depois e a mãe não teve oportunidade de o ver uma última vez. Foi muito traumatizante, mudou o meu comportamento. Nunca mais deixar de autorizar as visitas, nem que tivesse de discutir com os médicos".

Para Ana Pereira de Campos - reformada desde 2012 - este episódio mostra também o papel do enfermeiro no apoio aos doentes e às suas famílias. Mais de 30 anos depois, Marta Duarte toma também a primeira linha na defesa dos seus doentes no serviço de cirurgia da cabeça e do pescoço, de otorrinolaringologia e endocrinologia. "Como este serviço é muito sensível em termos de impacto visual temos de perceber algumas coisas. Como o facto de o doente não se querer ver ao espelho no primeiro dia a seguir à cirurgia ou de querer manter algumas coisas que podem não ser fundamentais em termos médicos. Por exemplo, um doente que está habituado a ter barba e foi operado pode não querer cortá-la. O que nós fazemos é seguir a vontade do doente", conta. Embora com uma experiência mais curta, Lina António acredita que o fundamental no seu trabalho é "o doente confiar em nós". "Temos de estar lá e sermos autênticos", defende.

As três gerações de enfermeiras do IPO de Lisboa são o espelho também da formação da Escola Técnica de Enfermeiras (fundada em 1940 e que foi integrada na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa). Uma cultura que ensina a colocar o doente em primeiro lugar, explicam as três profissionais, que é no fundo a tarefa central da profissão, que hoje e amanhã é discutida na II Conferência de Enfermagem dos Institutos Portugueses de Oncologia de Lisboa, Coimbra e Porto.

Ana Pereira de Campos esteve 39 anos no IPO

Os enfermeiros acreditam que não são reconhecidos socialmente, mas sublinham também que o IPO é um sítio especial. "Os doentes são especiais, mais exigentes, mas temos uma gratificação quase imediata. Sejam os próprios ou as famílias, é muito comum agradecerem os cuidados que recebem. E isso para nós é muito gratificante", explica Lina António, de 28 anos, e enfermeira no serviço de oncologia médica.

"O essencial é a comunicação"
Além de prestar os cuidados clínicos, os enfermeiros "vivem com o doente 24 horas por dia", aponta Ana Pereira de Campos. Por isso, são os profissionais indicados para serem "o gestor de cuidados" dessas pessoas.

Logo, "o essencial é a parte relacional, é a comunicação", acredita Marta Duarte, "batizada" pelos serviços hospitalares de Silveira (o nome da farda, mas que não é nem o último nome de solteira, nem o de casa, explica). De sorriso aberto com os doentes, deixa claro que o gesto de carinho e de apoio "é também profissional" e não é apenas "simpatia".

A relação mais próxima com os doentes, que são seguidos aqui por vezes durante anos, faz com que a comunicação seja mais fácil. No entanto, a natureza das doenças dificulta o trabalho e adaptação.

No caso de Lina a chegada ao serviço de oncologia médica confrontou-a com o trabalho de cuidados paliativos, que não tinha aprendido em profundidade no curso. "Procurei mais conhecimento porque foi uma fase que me impressionou muito."

Para Marta a maior dificuldade ainda hoje "é lidar com os casos de doentes com idades muito próximas da minha e com filhos nas idades próximas dos meus. Há uma identificação e custa". A que se junta o facto de trabalhar num serviço muito complicado: "Em termos visuais tem muito impacto. São doenças que alteram a comunicação, a parte respiratória, a alimentação e a imagem do doente. Com 20 anos foi muito impactante, mas com o tempo vamos aprendendo e agora os casos são todos normais."

Com 20 anos foi muito impactante, mas com o tempo vamos aprendendo e agora os casos são todos normais

O equilíbrio entre a relação de confiança que têm de criar com os doentes e a necessidade de distanciamento emocional é o segredo que se aprende com a passagem dos anos. Sem apoio e sem ferramentas para lidar com esses casos, Ana recorda-se de num dos primeiros anos em que trabalhou não ter conseguido ir trabalhar um dia. "Com vinte e pouco anos uma pessoa nunca faltava ao trabalho, mas um dia havia uma doente com um tumor no colo do útero e estava numa fase terminal, era um domingo e eu ia fazer o turno da manhã e sabia que ia ficar com ela no meu serviço e não consegui ir trabalhar. Faltei. Para isto acontecer é sinal que uma pessoa está fragilizada, não tínhamos ninguém que nos apoiasse psicologicamente." Depois existem as boas memórias. "Ainda na semana passada veio cá visitar-nos um jovem, que veio de Cabo Verde quando era rapazinho para ser tratado aqui, e agora já tem um filho e emprego em Portugal. Veio cá dizer-nos que o ajudámos a criar um projeto de vida e isso é muito gratificante", exemplifica Marta Duarte.

No serviço de Lina as visitas de antigos doentes também são frequentes. Vêm "agradecer ou mostrar que já estão bem" e também é comum "os adolescentes virem visitar outros doentes da mesma idade que conheceram no IPO".

Mesmo quando as coisas não têm o melhor resultado, as famílias regressam para agradecer o tratamento que receberam.

Encontrar um lugar

A ligação ao doente tornam o enfermeiro imprescindível, mas Ana Pereira de Campos teme que a sua profissão esteja ameaçada.

"Não digo que seja pior que quando comecei mas hoje há um conjunto de profissões que se perfilaram para fazer uma série de atividades que os enfermeiros deixaram de fazer. É o caso das assistentes sociais, os farmacêuticos, os nutricionistas ou os psicólogos. O que faz com que o doente seja visto às partes e não como um todo. Acho que os enfermeiros podiam ser o agregador dessas tarefas", aponta a antiga enfermeira-diretora do Instituto Português de Oncologia.

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