Projeto de neurociência nacional: do laboratório para a Web Summit

Mindreach é um dos dez projetos selecionados na categoria "Born from Knowledge" para ir à conferência em Lisboa

Imagine uns auscultadores com elétrodos que permitem ao utilizador controlar uma cadeira de rodas. Ou mesmo com uma bandolete ou um boné. A touca que hoje se vê no laboratório de neurociências da Fundação Champalimaud, em Lisboa, poderá transformar-se em qualquer um destes objetos, mantendo os elétrodos e o objetivo: usar a atividade cerebral para dar ordens a aparelhos.

O projeto chama-se Mindreach e integra a lista de vencedores da iniciativa governamental Born from Knowledge, que garante a participação de investigadores académicos na Web Summit, um dos maiores eventos internacionais de tecnologia e empreendedorismo, que vai decorrer de 7 a 10 de novembro, em Lisboa.

Nuno Loureiro é o porta-voz da equipa de quatro pessoas que, através de experiências, tem notado que quer ratinhos quer pessoas "conseguem modelar a atividade cerebral, ao mesmo tempo que estão a ter um aumento de controlo de uma determinada tarefa". Ou seja, a prática possibilita que as pessoas controlem uma pequena bola num jogo de computador, um drone ou um simulador de avião, como têm provado as experiências científicas feitas com a tal touca.

No futuro, com adereços mais práticos e estéticos, como a bandolete, uns auscultadores ou um boné, os usos podem ir desde o controlo de uma cadeira de rodas a uma aplicação em doenças como o défice de atenção. "Supostamente o aspeto final será o menos intrusivo possível e até o que se costuma dizer fashion, que pode passar por uns headset (auscultadores) ou uma espécie de uma bandolete ou até pode ser um boné, com quatro ou cinco elétrodos para fazer a recolha dos sinais cerebrais". A ideia é ter "um aparelho miniaturizado e sem necessidade de uso de gel". "No dia-a-dia e para o público em geral temos em vista uma aplicação para jogos", adianta Nuno Loureiro.

A procura de um passaporte para a Web Summit surgiu da necessidade que os investigadores tinham de divulgar o projeto e receber feedback de especialistas em tecnologia e de outros ligados ao meio empresarial. Além disso, procuram "parceiros que queiram colaborar". E o trabalho de casa já está a ser feito, nomeadamente com recurso à aplicação que avançou com contactos recomendados, na sequência das referências e características dadas pelos investigadores. "Essa aplicação torna as coisas um bocadinho mais fáceis", ao poupar tempo na consulta das listas de participantes.

O primeiro lugar do concurso "Born from Knowledge" foi atribuído ao Audio-GPS, uma tecnologia de localização global para espaços interiores. O objetivo desta iniciativa era estimular a inovação e a capacidade de aprender, apreender e empreender com base na formação, na investigação científica e no conhecimento. No total, o governo promoveu seis iniciativas para estimular a Web Summit. Um dos concursos foi o Road2Web Summit, no qual foram escolhidas 66 startups para representar Portugal no evento. A ideia é mostrar o que de melhor se faz em Portugal.

Na passada quinta-feira estavam inscritas 48 100 pessoas no evento, mas a organização espera chegar às 50 mil. Tal como DN noticiou, está prevista mais segurança do que um jogo de alto risco da Liga dos Campeões: vão ser mobilizados cerca de mil agentes. O passe geral, que começou por custar 900 euros, está agora nos 1245 euros.

Com Lusa

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