Zika está a espalhar-se de "forma explosiva". OMS prevê 3 a 4 milhões de casos

Organização Mundial de Saúde (OMS) reúne de emergência na segunda-feira para decidir se declara "emergência internacional"

A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que o vírus zika se está a "espalhar de forma explosiva" e prevê 3 a 4 milhões de casos nos continentes americanos, 1,5 milhões só no Brasil. A instituição já marcou uma reunião de emergência para segunda-feira, dia 1 de fevereiro, para decidir se vai declarar "emergência internacional" de saúde.

O comité que reúne na próxima semana irá ainda determinar o nível apropriado de resposta e as prioridades ao nível da investigação do vírus.

A diretora da OMS, Margaret Chan, diz que é muito preocupante que o vírus, associado a complicações neurológicas e malformações em fetos, já se tenha propagado a 23 países. O Zika é transmitido por picadas de mosquitos infetados, o mesmo mosquito que transmite a dengue, por exemplo, e não se transmite de pessoa para pessoa.

A situação mais grave, nesta altura, é a do Brasil, onde o ministério da Saúde estima a ocorrência de entre 497.593 e 1.482.701 casos em 2015, incluindo 3893 casos de microcefalia.

A Colômbia é o segundo país mais atingido, tendo sido confirmados 13.808 casos, incluindo em 890 grávidas, e 2.611 casos suspeitos.

Ameaça de "proporções alarmantes"

Segundo Margaret Chan, da OMS, o vírus zika passou de uma "leve ameaça" a uma ameaça de proporções alarmantes. Não há, nesta altura, qualquer vacina ou cura para a doença. "Uma relação causal entre o vírus zika e malformações em recém-nascidos e síndromes neurológicas ainda não foi estabelecida, este é um ponto importante, mas há fortes suspeitas", acrescentou Chan. "Esta ligação possível mudou rapidamente o perfil de risco do zika", esclareceu. "A crescente incidência de microcefalia é particularmente alarmante, uma vez que coloca um fardo difícil de suportar em cima das famílias e das comunidades".

Margaret Chan

Por outro lado, os padrões do fenómeno meteorológico El Niño, que tem provocado profundas alterações climáticas, devem levar a que as populações de mosquitos se espalhem, contribuindo para uma maior propagação da doença, explicou a diretora da OMS.

Um comunicado da Direção-Geral de Saúde informa que em Portugal foram, até ao momento, notificados seis casos da doença, todos importados da América do Sul. Nenhum deles ocorreu em grávidas. "Perante a possibilidade desta doença causar malformações em fetos e a fim de eliminar este risco, a Direção-Geral da Saúde recomenda que as grávidas não se desloquem, neste momento, para zonas afetadas", acrescenta a declaração. "Caso tal não seja possível, devem procurar aconselhamento em Consulta do Viajante e seguir rigorosamente as recomendações dadas". As grávidas que tenham permanecido em áreas afetadas devem consultar o médico de família ou o obstetra após o regresso, mencionando a viagem.

O ministro da Saúde garantiu ontem que os portugueses podem estar tranquilos, uma vez que a situação está controlada e o risco é confinado.

Segundo a Direção Geral da Saúde (DGS), "os sintomas e sinais clínicos da doença são, em regra, ligeiros: febre, erupções cutâneas, dores nas articulações, conjuntivite, dores de cabeça e musculares".

Factos e comparações

O vírus zika foi identificado pela primeira vez no Uganda, em 1947, e até 2014 não se conheciam quaisquer ocorrências nas Américas. Propaga-se às pessoas através da picada de um mosquito infetado, o mesmo que transmite as febres de dengue, chikungunya e amarela. Não há vacina contra o zika, ainda que em dezembro de 2015 tenha sido aprovada a primeira vacina para prevenir o dengue, que continua a ser a doença transmitida por mosquitos que mais rapidamente cresce no mundo: infeta cerca de 400 milhões de pessoas por ano e é endémica em mais de 100 países.

O desenvolvimento da vacina para curar o dengue começou há 20 anos e, após testes clínicos com 40 mil pessoas em 15 países, estima-se que comece a ser comercializada em 2016. A doença causa febres, dores de cabeça, dores musculares e pode evoluir para dengue hemorrágica com risco de morte, num pequeno número de casos.

Não há, até agora, indícios de que o vírus Zika possa provocar a morte, mas têm sido denunciados casos esporádicos de complicações mais sérias em pessoas com doenças ou condições específicas de saúde pré-existentes que vieram a morrer.

Os mosquitos

Aedes aegypti

Doenças: Além do Zika, espalha doenças como febre-amarela, dengue e chikungunya.

Infetados por ano: Dengue afeta 390 milhões por ano, mas só 96 milhões têm sintomas severos. É estimado que zika possa afetar centenas de milhares de pessoas.

Sintomas: Dores de cabeça, dores musculares, conjuntivite e erupção cutânea são sintomas do Zika.

Origem: África, mas surge em regiões tropicais e subtropicais em todo o mundo.

Cuidados a ter: Eliminar águas paradas, usar repelente, escolher roupas compridas, usar redes mosquiteiras, ter cuidado a manusear lixo.

Aedes albopictus

Doenças: Transmite doenças como febre amarela, dengue e vírus do Nilo Ocidental.

Infetados por ano: Febre amarela afeta cerca de 200 mil pessoas por ano.

Sintomas: A febre amarela causa febre, dores de cabeça, náuseas, vómitos, dores no corpo, hemorragias e icterícia.

Origem: Sudeste da Ásia, mas também aparece em regiões tropicais e subtropicais em todo o mundo.

Cuidados a ter: Vacinação, no caso da febre amarela. Evitar águas paradas, usar repelente, redes mosquiteiras e usar roupa comprida.

Anopheles gambiae

Doenças: Transmite malária

Infetados por ano: Cerca de 200 milhões

Sintomas: Calafrios, febre alta, dores de cabeça, dores musculares, taquicardia, delírios, vómitos. Em casos severos, pode causar a morte.

Origem: África. Mas espalha-se também em regiões tropicais e subtropicais na América e na Ásia.

Cuidados a ter: Prevenir a picada do mosquito, evitando as horas em que está mais ativo, com o uso de repelente, roupa mais tapada, redes mosquiteiras.