OMS já incluiu vício em videojogos na lista de perturbações mentais

Adolescentes já não sabem o que é ter amigos no mundo real

A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou esta segunda-feira que incluiu o "distúrbio do jogo" na lista de doenças que são classificadas como perturbações do foro mental. Para o psicoterapeuta infantil Nuno Sousa mais grave do que a "questão patológica é o tipo de relações humanas pobres que estes adolescentes estão a criar": deixaram de ter amigos com quem falam diretamente, discutem e fazem as pazes, para passarem a ter amigos virtuais.

O distúrbio foi incluído na 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças da OMS, por sugestão de Vladimir Poznyak, membro do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da organização. "Não estou a criar um precedente", disse o clínico à CNN, sublinhando que apenas seguiu "as tendências e os [últimos] desenvolvimentos" sobre o assunto.

Poznyak acredita que depois de a doença entrar nesta classificação, os profissionais e sistemas de saúde estarão mais atentos para a sua existência, o que aumenta a possibilidade das "pessoas que sofrem dessas condições poderem receber ajuda apropriada".

Segundo o especialista, há três principais características para o diagnóstico do distúrbio do jogo: quando "o comportamento tem precedência sobre outras atividades"; é "persistente ou recorrente", apesar das suas consequências negativas, e quando "leva a sofrimento significativo e prejuízo no funcionamento pessoal, familiar, social, educacional ou ocupacional".

Da sua experiência, Nuno Sousa recorda o caso de um adolescente que deixou de ir à escola e que dizia não sentir a falta dos amigos, "porque tinha muitos amigos online".

Adolescentes não sabem o que é "uma amizade completa"

"Os adolescentes não têm maturidade suficiente para diferenciar que manter um contacto [superficial] com alguém com quem jogam não é uma amizade completa". As consequências deste vício, ao contrário do que acontece com um toxicodependente, onde as consequências são mais diretas, acontecem "a médio e longo prazo". "Estes adolescentes vão estabelecer relações [sociais], mas estas serão muito pobres".

"A perceção que têm das relações humanas é uma perceção muito enviesada. A parte mais dramática não é ser uma questão do foro psicológico, mas sim de pobreza da dimensão humana", refere o psicanalista.

Segundo Vladimir Poznyak, o impacto do vício em videojogos pode incluir "padrões de sono perturbados, problemas de dieta e uma deficiência na atividade física", características "muito semelhantes" às diagnosticadas em transtornos por uso de substâncias ilícitas.

Para que o diagnóstico seja feito, o padrão negativo de comportamento deve durar pelo menos 12 meses: "Não pode ser apenas um episódio de poucas horas ou alguns dias", sublinha Poznyak. O tratamento passa por "intervenções psicológicas: apoio social, compreensão da condição e apoio da família".

Contudo, nem todos os psicólogos concordam que o distúrbio do jogo deva ser incluído nesta lista. "É um pouco prematuro rotular isto como um diagnóstico. Sou clínico e investigador e conheço pessoas que jogam e acreditam estar viciadas". Na opinião de Bean, as pessoas usam os jogos "como um mecanismo para lidar ou com a ansiedade ou com a depressão".

Para este psicólogo, os critérios usados pela OMS são "demasiado vagos", embora admita que a doença existe, no entanto "não é boa ideia seguir com este [diagnóstico] porque abre portas para que qualquer coisa possa ser doença", referiu.

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