No Alentejo que não morre à seca e onde a"verdadeira reforma agrária foi o Alqueva"

Évora, Vidigueira e Cuba foram beneficiadas pelos blocos de rega com água do Alqueva. Onde antes havia seca e paisagens quase desérticas há agora quilómetros de terras cultivadas

Há ciclones de pó pelo ar, a terra está seca e quebradiça, a respiração pesa e o vento é tão quente que fere os olhos. Podíamos estar em qualquer savana africana mas não. Estamos nas terras do Monte do Pasto, casa de pecuária que agrega várias herdades para engorda de gado bovino em Cuba (distrito de Beja). Ali, a água do Alqueva só chegou através de uma conduta de água de quatro quilómetros que desagua numa albufeira da propriedade, na herdade do Trolho. Já num outro ponto da propriedade, a herdade dos Secos, onde a água do Grande Lago não chegou, há uma pequena albufeira que está quase seca dada a severidade da seca deste ano, como mostrou Pedro Horta, engenheiro de produção animal.

Há um antes e um depois do Grande Lago, enchido há quinze anos. O maior reservatório de água da Europa, a barragem do Alqueva, transformou profundamente as terras agrícolas alentejanas beneficiadas com os seus blocos de rega, como o distrito de Évora ou os concelhos de Vidigueira e Cuba (do distrito de Beja), situados a 65, 37 e 48 quilómetros do oásis, respetivamente. Nessas terras do deserto alentejano no Verão, a seca não está a destruir colheitas nem a matar o gado à sede, mesmo quando o termómetro chega aos 47 graus, como aconteceu há duas semanas.

"A verdadeira reforma agrária no Alentejo foi o Alqueva. Isto era tudo abandonado e agora está tudo cultivado", afirmou Mário Pinheiro, CEO da Herdade Ribafreixo, espraiada em 125 hectares de vinha na Vidigueira. Do terraço da loja de enoturismo da herdade avistam-se as vinhas, geometricamente alinhadas, com o tubo de água a passar entre elas, no sistema de rega gota a gota. "Há 10 anos, quando chegámos, não havia aqui nada, era uma zona abandonada. Comprámos quase 30 terrenos a pequenos produtores que faziam agricultura de sequeiro. Meio hectar aqui, um quarto de hectar acolá, numa autêntica manta de retalhos. Tínhamos até há pouco tempo um hectar no meio da herdade, que foi plantado agora, ao qual chamávamos de "supositório". Estava ali no meio e eram duas parcelas de meio hectar cada", conta Mário Pinheiro, entre risos. O empresário africano, nascido em Moçambique, fez fortuna na África do Sul com altas tecnologias e decidiu investir em vinhos com um sócio alentejano.

"Isto eram terras de agricultores com vinhas muito pequenas e sem massa crítica para se fazer uma adega mas sabíamos, há mais de dez anos, que a rega do Alqueva vinha aí. Nos últimos terrenos que comprámos, os preços já saltaram porque as pessoas já sabiam que eles andavam a instalar os reservatórios". A herdade do Ribafreixo foi uma das pioneiras na vinha de regadio mas agora todos os vinhos da Vidigueira aproveitam a água do Alqueva. "A Ribafreixo garante sete a oito toneladas de produção. Temos 700 mil garrafas de vinho para o mercado nacional e o resto é para exportação, para muitos países da União Europeia mas também para China, Japão e Filipinas".

Como descreveu Mário Pinheiro em tom poético, o Alqueva "trabalha como se fosse um coração com artérias e veias capilares. Dali passa para outras barragens e depois tem estações elevatórias em vários locais. É água que chega em tubos grandes, uns fechados, outros a céu aberto". Água que custa à Ribafreixo "sete a oito mil euros por ano" mas que é "essencial".

Da "artéria" da Vidigueira, passamos para a "veia capilar" do Monte Novo, em Évora. O bloco de rega com 10 mil hectares instalado na região tem na Herdade agrícola do Gavião uma das beneficiadas. Nessa exploração de 900 hectares, 215 estão reservados para o arrendamento agrícola, como explicou o gestor Gonçalo Macedo. São nesses nesse "arrendamentos de campanha", sazonais, que vamos encontrar culturas que antigamente não eram rentáveis e agora espalham um charme verde ao campo alentejano: bróculos, pimentos, courgettes e tomates despontam em terras que eram apenas de trigo ou de forragens para o gado. "Estas culturas já existem na zona desde que chegou aqui o perímetro de rega do Alqueva há sete anos. Mas no Gavião decidimos fazer contratos de arrendamento para a produção destas culturas há apenas dois anos. Temos dois arrendatários: um para brócolos, pimento, tomate e courgette e outro para uma multinacional dedicada à multiplicação de girassol", descreveu.

A maior parte da herdade está dedicada à exploração pecuária. "Quando tiramos as culturas sazonais, as vacas correm todos esses campos. É rentável. Somos das herdades que mais consome água porque também temos pastagem de regadio mas vale a pena", garante Gonçalo Macedo enquanto leva do DN a ver os campos de pimentos verdes bem viçosos. Debaixo de um dos aspersores de rega, o gestor pega num pedaço de terra húmida e explica a riqueza que ali tem: "Por causa da água a terra está húmida e desfaz-se na mão, pronta para novas culturas". O preço é alto. A água do Alqueva paga-se a "cerca de 8 cêntimos o metro cúbico e fomos prejudicados com a redução da bonificação anual que a EDIA [empresa que gere o Alqueva] deu aos agricultores". Nas contas, por culturas, vê-se o "disparate de água que é preciso": o girassol leva 4000 metros cúbicos, o milho e o tomate 7000 cada, as pastagens 10.000 metros cúbicos. Mas, no final, compensa. "Eu posso-me queixar do preço da água mas sou um felizardo. Penso muitas vezes naquelas pessoas na maioria do Alentejo que não têm o benefício de ter a água para quando precisam."

Pedro Horta, o engenheiro de produção animal da casa agrícola Monte do Pasto, em Cuba, também garante que compensa. "Antes de termos investido 17 mil euros na conduta de água para os nossos oito mil bovinos de engorda poderem beber, estávamos dependentes dos furos e do transporte de água em depósitos ou cisternas pelos trabalhadores". A água ali é vida. "Um animal bebe 10% do seu peso vivo. Se pensarmos em 10% de uma média de animais com 500 quilos são 50 litros de água por cada animal por dia. Multiplicado por oito mil animais é uma quantidade absurda de água". São 400.000 litros. Na charca onde a conduta desemboca "já era só lodo, os bombeiros nem conseguiam puxar água". Ter chegado ali a água do Alqueva foi um bem incalculável.

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