La Gondola fecha para dar lugar à sede do Montepio

Icónico restaurante fecha a 6 de agosto, por força de uma permuta entre a câmara e o Montepio. Petição tenta travar desfecho

É praticamente a última das vivendas que em tempos marcaram a paisagem da Avenida de Berna, em Lisboa. Em frente à Fundação Gulbenkian, junto à Praça de Espanha, o edifício que desde 1943 alberga o restaurante La Gondola entrou em contagem decrescente para a demolição. O primeiro passo é o encerramento, já no próximo dia 6 de agosto, do restaurante. No mesmo lugar, resultado de uma permuta entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Montepio Geral, deverá ser edificada a nova sede do banco. Um desfecho que uma petição pública, lançada pelo movimento cívico Vizinhos das Avenidas Novas, tenta agora travar.

"Não é vontade nossa, gostaríamos de ficar. Estamos aqui há décadas, é um espaço irrepetível. Resistimos o que pudemos e soubemos, mas não temos força nem capacidade de argumentar com a força da câmara e do Montepio", lamenta ao DN Júlia Ribeiro, gerente do La Gondola. O espaço estava arrendado (ao município) e o contrato "extingue-se por si". O acordo para a saída já foi assinado no início do ano e agora chegou a hora de fechar portas. "Saímos com mágoa, mas temos o compromisso de fechar", acrescenta.

A demolição do edifício resulta de uma permuta de terrenos aprovada pela câmara no final de 2014, e firmada em julho de 2015, na sequência dos planos do município para reformular toda a área da Praça de Espanha. A instituição bancária, e a respetiva seguradora, a Lusitânia, eram proprietárias, já desde 1988, de uma parcela de terreno no lado oposto da Praça de Espanha, mas a redefinição do espaço decidida pela câmara não é compatível com construção na área que estava na propriedade do banco. A autarquia optou por permutar terrenos, cedendo o local onde se situa o restaurante e onde antes estava uma esquadra da PSP, entretanto desativada.

Petição tenta travar demolição

"Há tanto espaço para construir, porquê ali?", questiona Rui Barbosa, do movimento que lançou a petição "Contra a Demolição do Edifício Restaurante Gôndola e Salvar a identidade das Avenidas Novas". Admitindo que a construção em causa não tem um significativo valor histórico, este morador defende que se trata de "um edifício emblemático que vem do início da urbanização das Avenidas Novas. Já poucos restam" - "Descaracteriza-se Lisboa para se construir mais um caixote de escritórios, incaracterístico".

A petição, que contava ontem mais de 800 assinaturas, defende que está em causa "a perda da identidade de Lisboa". "Aquilo que poderia ser considerado como um edifício dispensável, de qualidade inferior a outros desaparecidos ou em vias de desaparecer, tem hoje um valor adicional de memória urbana, cujo apagamento não devia passar sem discussão", diz o texto, que faz remontar o edifício a 1928, construído pela mão de Júlio Salustiano Rodrigues. Curiosamente, segundo a petição - que cita o historial do edifício publicado no blogue coisas [in]fungíveis - a ameaça de demolição já paira sobre aquele edificado desde o longínquo ano de 1939. Porquê? No âmbito da "execução de um plano urbanístico" para a zona da Praça de Espanha.

Além do edifício, a petição defende que o próprio restaurante La Gondola merece ser preservado, propondo o estabelecimento como candidato ao programa "Lojas com História", pela "memória histórica e longevidade".

Rui Barbosa admite que "já é tarde para salvar o restaurante" - "Mas vamos tentar que o edifício seja preservado". Júlia Ribeiro diz que, dos atuais oito funcionários, sete estão a planear a abertura de um pequeno espaço, para manter postos de trabalho. Mas não será um La Gondola II - esse é "irrepetível".

Um novo centro de escritórios

O plano de renovação da Praça de Espanha prevê que esta zona se transforme num novo centro de escritórios da cidade. Além do Montepio, também o grupo Jerónimo Martins se prepara para edificar a sua sede no espaço onde funcionou, até 2015, o chamado mercado azul. A Câmara de Lisboa lançou, em março, um concurso de ideias para o projeto do que será o parque urbano da praça. O plano implica a redefinição do trânsito automóvel, que atualmente funciona como uma placa giratória, que dará lugar a dois grandes cruzamentos. A rotunda central será transformada num jardim. Segundo já afirmou o presidente da autarquia, Fernando Medina, será um dos "mais importantes da cidade".

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